Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta e cinco
Cheguei ao escritório de Jeffrey Winters em dez minutos. Minha conversa por telefone com Angelina foi curta.
Winters não queria que falássemos por uma linha que não fosse segura. Era importante que a conversa acontecesse em particular. Ela só me disse que não estava ferida e que nunca esteve em perigo.
— Nunca esteve em perigo?
— Eu explico quando você chegar aqui — ela me disse. — E não conte nada para ninguém até se encontrar comigo e com Jeffrey.
— Eu preciso avisar seus pais.
— Eles sabem.
E não me contaram? O estranho estava ficando mais estranho.
O escritório ocupava todo o último andar de um prédio novo em um bairro antigo na margem do rio Miami, a menos de um quilômetro e meio das cortes criminais. A espaçosa e reservada sala de Winters tinha uma vista impressionante do centro de Miami. Ao sul, eu podia ver onde ele costumava trabalhar. O meu escritório. O Bumerangue. Que ganhou uma conotação irônica quando minha esposa que estava desaparecida veio correndo na minha direção e jogou os braços ao meu redor.
— Eu sinto tanto, Abe.
Ela estava me abraçando forte e tremendo de emoção. Eu a abracei de volta, olhando por sobre a cabeça dela na direção da janela. Não havia nenhum espaço entre nós, e Angelina estava falando no meu ombro.
— Me desculpe por ter fugido.
Eu rompi o abraço. A expressão dela estava tomada pelo estresse, mas eu já tinha visto mulheres que de fato tinham fugido, e ela não tinha nenhum dos sinais. Angelina não cortou nem tingiu o cabelo. Nenhum spray para escurecer seu cabelo, nem óculos falsos, lentes coloridas para transformar seus olhos azuis em castanhos. Se ela estava tentando parecer mais gorda ou desarrumada, os jeans de marca e o fino suéter de cashmere não estavam dando conta do disfarce.
— Fugido do quê? — perguntei.
Winters veio até nós.
— Vamos conversar sobre isso, que tal?
Angelina pegou minha mão e me levou até o sofá. Sentamos lado a lado, mas, com tanta coisa inexplicada, ficar de mãos dadas pareceu estranho, e nós nos desvencilhamos. Estávamos apenas a centímetros de distância, mas parecia muito mais. O advogado se sentou de frente para nós em uma poltrona de couro.
Winters sempre se vestiu com elegância, mesmo quando vivia com um salário de funcionário público, mas, se a decoração do escritório servia de indicador de sucesso como advogado de defesa, seu guarda-roupa não dependia mais da liquidação anual da Hugo Boss. Os punhos franceses e os ternos passados à perfeição me deixavam ainda mais ciente da minha aparência desleixada. Eu estava sendo movido a cafeína e parecia ter dormido com aquelas roupas, se é que tinha dormido.
— Em primeiro lugar, Abe — ele começou — quero deixar claro que, mesmo sendo advogado de Angelina e não o seu, tudo o que for dito nesta sala é confidencial e está protegido pelo privilégio conjugal. De acordo?
— Tudo bem — respondi, olhando para Angelina. — Mas por que você tem um advogado?
— Minha mãe o contratou para mim — explicou ela.
— Quando?
— Hoje de manhã. Depois que liguei para ela.
Isso explicava por que meus sogros não tinham retornado minhas ligações.
— Então você falou com seus pais e contratou um advogado antes de me ligar?
— Sim, mas não fale como se eu tivesse feito algo de errado. Eu vi minha mãe ontem à noite na TV. Ela parecia mais chateada do que todo mundo. Eu precisava ligar para ela primeiro.
— Essa parte eu entendo. Foi ter falado com ele primeiro que está me incomodando.
Winters se inclinou para a frente, se dirigindo a mim:
— A linha do tempo é: Angelina ligou para a mãe, e Margaret ligou para mim. A preocupação dela era que a família fosse ser considerada financeiramente responsável pelos custos do envolvimentos das autoridades envolvidas na ação de emergência.
Olhei para ela.
— Porque não havia nenhuma emergência?
Angelina olhou para Winters antes de responder.
— Vá em frente e relate tudo o que aconteceu para o Abe desde o começo — instruiu ele. — Vai fazer mais sentido assim.
Eu estava tendo a nítida impressão de que os dois tinham ensaiado aqui, mas me dispus a ouvir. Ela respirou e começou a falar:
— A noite de sexta foi ruim.
Angelina rapidamente resumiu o que eu já sabia. Parecia difícil acreditar que mais ou menos um fim de semana tinha se passado desde que ela atirou a garrafa de cerveja na porta.
— Depois que você saiu, fiquei com medo de ficar sozinha na casa. Eu estava brava demais para pedir para você voltar e não queria que minha mãe me visse tão chateada. Então criei coragem e fiquei.
Ela pediu água, e Winters trouxe um copo. Em seguida, continuou.
— Eu não conseguia dormir. Levantei e vi TV por um tempo. A casa começou a fazer barulhos. Janelas rangendo. O ar-condicionado ligando e desligando. Mesmo com a televisão ligada, eu podia ouvir essas coisas. Ou estava imaginando coisas. Voltei para a cama e fiquei deitada, totalmente acordada, com medo de apagar as luzes. Pensamentos estavam invadindo minha cabeça. Um serial killer solto. Cinco mulheres mortas. Uma foto da última vítima na minha mesa de canto, deixada pessoalmente na minha caixa do correio pelo assassino. Por que ele fez isso? Ele ia voltar para me pegar? Quem ia contê-lo? Uma viatura estava estacionada no nosso quarteirão, o que me fazia sentir um pouco segura. Mas por que a polícia tinha concordado em oferecer proteção se eu não estava correndo perigo? E o que eles podiam fazer de verdade para impedir um psicopata que estava determinado a fazer da mulher de Abe Beckham sua próxima vítima? Eu estava começando a enlouquecer. E decidi…
Angelina tomou mais água.
— Não tenha pressa — disse Winters.
— Eu não podia só ficar sentada em casa esperando um maníaco homicida aparecer com um facão. Mas então me ocorreu: o Cortador não pode me matar se não souber onde estou. E não pode ameaçar minha família com uma arma branca a revelar onde eu estou se ninguém souber aonde eu fui. Decidi… desaparecer.
— Como? Para onde? — perguntei.
— Eu não sabia. Foi uma decisão de impulso.
Winters interveio:
— Isso é importante, Abe. Não há evidência de que o desaparecimento de Angelina seja nada além de espontâneo ou movido pelo medo. Ela não sacou dinheiro com antecedência. Não mudou de aparência. Não estava em poder de nenhum documento falso. Ela deixou o passaporte para trás e não tinha passagens compradas para voos domésticos nem internacionais.
— Como você pensou que isso iria funcionar? — perguntei a ela.
— Eu entrei em pânico. Você vê muitos filmes e começa a pensar que, se colocar o cabelo embaixo de um chapéu e colocar óculos escuros, está pronta. Mas você precisa comprar coisas para viver, e precisa ser em dinheiro, porque cartões de crédito deixam um rastro. Tudo o que consegui reunir em casa foram 175 dólares. Eu não sabia ao certo o que fazer, mas um dos programas que eu estava vendo na TV com todos os outros insones era Pawn Stars. É sobre gente normal que vende qualquer coisa nas lojas de penhores. Foi quando decidi penhorar as joias.
— As joias da Samantha, você quer dizer.
Ela desviou os olhos, mas só por um segundo, e voltou a olhar para mim.
— Você teria ficado mais feliz se eu tivesse vendido meu próprio anel?
Só havia uma resposta para essa pergunta:
— Não.
— Eu sabia do cofre, Abe. Sou a única pessoa da casa que limpa os closets.
Angelina se levantou, foi até sua bolsa, que estava no aparador, e pegou um saco plástico.
— Me desculpe — disse ela, ao me entregar a embalagem. — Eu me livrei do cofre, mas está tudo aí, com exceção dos anéis, que você já recuperou.
Abri o saco. Os brincos de diamante de Samantha e o relógio de Luther estavam lá dentro, junto com algumas outras coisas que não tinham tanto valor. Eu estava feliz que Angelina não as tivesse penhorado, mas não estava num humor para muita gratidão. Meus instintos de promotor estavam tomando conta, e eu queria ser a pessoa que fazia as perguntas.
— Como você chegou até a loja de penhores?
— Fui a pé.
— Você passou pelo policial que estava estacionado na nossa rua?
— Saí pelos fundos e deixei o carro na entrada para ele não me ver.
— Por que você escolheu a Pawn 24 em Little Havana?
— Eu podia ir andando até lá. Era a loja de penhores mais perto da nossa casa que ficava aberta 24 horas.
— Como o Mãozinha conseguiu o anel?
— Quem?
— O sujeito sem-teto que fez a venda na loja de penhor. Como ele colocou as mãos no anel?
— Eu sabia que a polícia estaria me procurando e fiquei com medo de que o dono da loja fosse lembrar de mim. Esse sujeito estava sentado na calçada perto da loja. Eu disse que ele ganharia cinquenta dólares se entrasse lá e vendesse o anel para mim.
— Você confiou nele?
— Não devia ter confiado. Quando saiu, ele se recusou a me entregar o dinheiro a menos que eu entregasse meu iPhone junto com os cinquenta dólares.
Eu me lembrei do meu encontro com Mãozinha e em sua insistência para eu que lhe desse o meu celular.
— Você deu seu iPhone para ele?
— Dei. Eu precisava do dinheiro. De todo jeito, eu não podia carregar o aparelho. Eu podia ser rastreada.
— Como o seu celular foi parar na beira da Tamiami Trail?
— Você precisa perguntar para o Mãozinha.
— Você não jogou ele lá?
— Não.
Insisti, talvez parecendo um pouco persecutório demais.
— Você não jogou o aparelho na beira da estrada para fazer a polícia pensar que você tinha sido morta e descartada nos Everglades, como Tyla Tomkins?
— Eu estava fugindo do homem que matou Tyla. Jogar meu celular fora não ia fazê-lo pensar que tinha me matado. Isso não faz sentido.
— A menos que você estivesse fugindo de outra coisa.
— Eu preciso repetir? Não. Eu não joguei meu celular na Tamiami Trail. Você está perguntando para a pessoa errada.
Estava ficando um pouco gélido na sala, e Winters sentiu a necessidade de intervir.
— Vamos respirar fundo — sugeriu ele.
Fiquei quieto. Angelina levantou do sofá e se sentou na poltrona ao lado de seu advogado, os dois de frente para mim.
— Aonde você foi depois de vender o anel? — perguntei em um tom menos acusatório.
— Para o hotel e cassino na reserva indígena de Miccosukee. É o único lugar onde você pode usar óculos de sol dentro do prédio à noite e se misturar com todos os jogadores de pôquer.
— Também é um lugar fora da jurisdição das autoridade locais — acrescentei.
— Pois é, eu sei disso. Eu entrei em pânico, mas não sou totalmente idiota.
— Como você chegou lá?
— Peguei uma carona.
— Com um estranho?
— Tem um café perto da Pawn 24. Eu não entrei. Esperei do lado de fora até alguém que parecesse de confiança surgir. Duas garotas pararam para uma dose de cafeína depois de passar a noite na farra. Eu disse a elas que meu namorado era um canalha e tinha se envolvido com outra mulher e me deixado, que eu precisava de uma carona de volta ao meu hotel e cassino, e que estava com medo de pedir um táxi às três da madrugada porque na semana anterior uma mulher tinha sido estuprada por um taxista de Miami.
A parte do namorado canalha me fez encolher um pouco.
— Você não ficou com medo que elas tivessem visto sua foto no noticiário e reconhecessem você?
— Parecia valer a pena correr o risco. A única coisa digna de nota para essas garotas são os posts do Facebook.
Afundei um pouco no sofá, minhas emoções totalmente descontroladas. Eu não estava acreditando em tudo, mas, se é que alguma coisa daquilo era verdade, eu me sentia mal por tê-la deixado sozinha em casa. Tentei me obrigar a lembrar de ficar feliz que Angelina estivesse viva e que não tivesse sido despedaçada por um sociopata, mas estava furioso que ela tivesse feito eu e todo mundo passar por esse pesadelo.
— Então você simplesmente ficou num quarto de hotel o fim de semana inteiro com tudo isso acontecendo?
— Eu estava exausta quando cheguei ao quarto. Quando acordei no sábado à tarde, tinha se tornado uma bola de neve que eu não tinha imaginado.
— Você desapareceu. O que achou que ia acontecer?
— Não sei, Abe!
Angelina falou tão alto que assustou os dois.
— Desculpe, eu não quis gritar — disse ela. — Eu entrei em pânico e me dei conta bem rápido de que era uma péssima ideia. As pessoas iam pensar que sou louca. A ideia de ter que me explicar para a polícia e para a mídia estava me deixando enjoada. Então, no domingo, vi minha mãe na televisão na coletiva de imprensa com meu pai e soube que aquilo precisava acabar.
— O que nos leva aonde estamos agora — Winters emendou. — Este é o plano que Angelina e eu elaboramos.
— Plano para quê?
— O anúncio do retorno dela. Não há vantagens em fazer uma coletiva de imprensa e jogá-la aos leões. Vamos lançar um vídeo pelo YouTube. O cinegrafista está se preparando na sala de reuniões. Angelina vai ler uma declaração que foi preparada pela minha consultora de relações com a imprensa.
— Você contratou uma relações públicas?
— Não, uma consultora de relações com a imprensa.
— É a mesma coisa.
— Não estamos promovendo um reality show aqui, Abe. Tudo, até o cargo das pessoas no nosso time precisa reforçar a ideia de que não estamos manipulando nada. Nosso foco é apenas a clareza da nossa mensagem.
— Qual é a mensagem?
— Simples — respondeu ela. — Somos gratos pelas autoridades que apreenderam o sr. Salvo e colocaram fim a essa série de assassinatos brutais. Agradecemos pelo fato de Angelina não estar mais temendo constantemente por sua vida. Lamentamos a inconveniência causada pela má decisão que foi motivada pelo medo.
— “Nós” quer dizer Angelina e eu?
— E os pais dela. Os quatro vão aparecer juntos no vídeo.
— Onde estão seus pais? — perguntei para minha esposa.
Winters respondeu por ela.
— Estão na sala de reuniões com o cinegrafista.
— Eu preciso dizer alguma coisa?
— Não. Você e os pais dela estão ali para oferecer apoio. Mas o release impresso vai trazer uma frase sua — ele continuou, me entregando a folha contendo o rascunho.
Li o conteúdo. Minha frase tinha uma única linha: “Só estou feliz por ter Angelina de volta, e estamos ansiosos para que nossa vida volte ao normal.”
— Tudo bem por você? — perguntou Winters.
Eu ainda tinha perguntas, até algumas dúvidas sobre a explicação de Angelina, que pareceu notar minha hesitação. Ela voltou a se sentar ao meu lado no sofá e apertou minha mão.
— Abe, você está feliz por eu ter voltado, não está?
Que tipo de marido hesitaria em dizer que estava feliz que a esposa estivesse de volta? A questão não era essa.
— Precisamos fazer isso agora — disse Winters com firmeza. — Você está dentro ou não, Abe?
Reconheci aquele tom de voz. Eu mesmo o usava quando precisava pressionar uma testemunha relutante. Winters estava me dizendo para ficar feliz que minha mulher estivesse prestes a dizer ao mundo que só tinha fugido por medo do Cortador, e não porque também tinha medo do marido. O expresso Angelina estava saindo da estação. Eu podia embarcar, ou podia ficar de fora e dar ao advogado dela um bom motivo para aconselhar a cliente a me jogar no trilho.
— A declaração está ok — respondi.
— Obrigado — disse ele. — Vou dizer para minha consultora liberá-la agora mesmo.
A consultora estava na discagem rápida de Winters, que deu a ordem para que ela “mandasse ver”, desligou e me orientou sobre o próximo passo.
— Em dez minutos, vou fazer uma ligação pessoal para a agente Santos e para todas as agências da força-tarefa.
— Eu gostaria de falar pessoalmente com o detetive Riddel — eu disse.
— Não. Precisamos manter a mensagem e falar com uma única voz — respondeu ele, se referindo à própria voz.
— Riddel é meu amigo.
— Ele é um policial — insistiu Winters.
— Por favor, ouça o que ele está dizendo, Abe. Winters sabe o que está fazendo.
E eu, não?
Winters recebeu outra ligação. Presumi que fosse a relações pública — ou melhor, consultora de relações com a mídia. A conversa foi breve, e ele pareceu ainda mais cheio de energia quando desligou e voltou a falar conosco.
— O roteiro para o vídeo do YouTube está pronto. Angelina, vamos para a sala de reuniões e fazer um ensaio. Quero que o vídeo seja lançado o mais rápido possível depois do release. Abe, a coisa mais importante que você pode fazer agora é cuidar dessas olheiras.
— Eu tenho olheiras?
— Não. Essa é a questão. Você deveria ter, e o mundo precisa vê-las. Vou pedir para a assistente da cinegrafista vir aqui fazer a sua maquiagem.
Angelina abriu um meio sorriso.
— Viu só? Ele é bom, não é?
Assenti sem concordar.
— “Bom” não é a palavra — respondi, enquanto minha mulher e seu advogado saíam pela porta.