Uma Mulher Perfeita
Capítulo quatro
Fui para casa por volta de nove e meia, depois de uma segunda-feira de trabalho que durou 15 horas. Do carro, liguei para minha mulher para avisar que estava a caminho. Angelina parecia tão cansada quanto eu.
— Certo, vejo você daqui a pouco — disse ela.
Éramos recém-casados, tecnicamente falando, fazia apenas sete meses. Mas Angelina e eu tínhamos nos conhecido pré-Samantha; nós namoramos um ano antes de irmos morar juntos e dividirmos um apartamento por um ano e meio. Nenhum rompimento era fácil, mas, às vezes, era melhor seguir em frente. Eu me apaixonei por Samantha e me casei; Angelina namorou uns dois sujeitos diferentes, nada sério. Quando Samantha morreu, Angelina me procurou pelo Facebook. A amizade foi retomada e, com o tempo, se tornou uma nova relação. Considerando tudo, pré e pós-Samantha, eu estava romanticamente envolvido com Angelina por mais tempo do que qualquer outra mulher na minha vida. Mesmo assim, é estranho quando se é branco, e todo mundo, brancos e negros, acham um pouco estranho você se casar com uma mulher branca. Alguns eram mais discretos do que outros. O brinde de JT na festa de casamento, uma tentativa desajeitada de humor, não exatamente o aproximou da minha nova esposa:
— Caramba, Abe. De uma negra para uma loira. Agora você é praticamente um negão.
Angelina estava no sofá assistindo a The Bachelor quando cheguei em casa.
— Fiz o jantar para você — disse ela, olhando para a TV.
— Obrigado — Eu me inclinei atrás do sofá para beijá-la, mas só recebi o rosto.
— Duas horas atrás — continuou Angelina. — Agora já está frio.
Deixei meu paletó na cadeira e fui para a cozinha.
Angelina era ótima cozinheira, e o espaguete à bolonhesa dela era incrível, mesmo que requentado no micro-ondas. Levei meu prato e me sentei ao lado dela no sofá.
— Está uma delícia — comentei.
— Que bom que você gostou. Como foi com JT hoje?
Tomei um pouco d’água e suspirei.
— Coitado. Ele está meio perdido. Mas voltou a tomar os remédios, então tomara que…
— É disse que estou falando. — disse ela, me interrompendo.
— O quê?
Ela colocou a TV no mudo, endireitou o corpo no sofá e virou os ombros na minha direção.
— Você se doa tanto para ele, e volta para casa todo agitado.
— Eu não estou agitado.
— Está, sim. Preste atenção a você mesmo. Você chegou em casa faz menos de cinco minutos, e tudo o que estou ouvindo é sobre o JT.
— Você me perguntou sobre ele. Então eu respondi.
— Claro que perguntei. Eu tenho que perguntar. Eu preciso saber se vou ter meu marido por inteiro, metade do meu marido, um quarto… que parte do Abe você vai dar para sua esposa esta semana?
Esse estava se tornando o modus operandi dela. Angelina preparava o que ia dizer com antecedência e não importava como nossa conversa se desenvolvia, não importava quão forçada fosse a rota para chegar ao estopim, Angelina descarregava seu discurso em mim.
— Estou muito cansado, Angelina. Podemos falar sobre outra coisa?
Ela levantou e foi para a cozinha.
— Merda — murmurei, mas não havia ninguém para escutar. Peguei o controle remoto e encontrei uma partida do Miami Heat. Eles estavam com uma vantagem de 35 pontos no quarto tempo, então, às dez da noite, coloquei no noticiário local.
“Serial killer em Miami?” era a matéria principal, o ponto de interrogação refletindo a ausência de confirmação sobre a vítima mais recente estar ligada aos assassinatos de Palm Beach.
Angelina voltou da cozinha e parou atrás do sofá, observando por sobre o meu ombro.
— Você está trabalhando nesse caso? — perguntou ela.
— Claro. Estou, sim.
— Um facão — comentou ela, se encolhendo. — Que horrível.
— Pois é.
— Por que estão sendo tão cautelosos sobre os assassinatos estarem conectados? Cinco mulheres, todas cortadas com um facão, todas encontradas nos Everglades.
— Foi a primeira encontrada em Miami-Dade. E é a primeira vítima negra.
— Certo, e imagino que também possa ser o primeiro corpo encontrado em uma segunda-feira com o vento soprando do noroeste a vinte quilômetros por hora. Juro, às vezes, acho que vocês exageram nessas coisas. Você realmente acha que é uma coincidência?
— É mais complicado do que você imagina.
— Se você está dizendo...
O telefone fixo tocou, Angelina atendeu. A reportagem sobre o serial killer estava acabando na televisão quando ela me entregou o aparelho.
— É o JT — disse, com um tom mais frio do que o jantar que tinha deixado para mim na cozinha.
— Fale para ele que ligo de volta amanhã cedo.
— Não, atenda.
— Não quero atender.
— Quer sim.
— Não quero mesmo.
— Não o evite só porque acha que estou brava. Ele parece um pouco nervoso. A última coisa de que preciso é você me culpando se JT sair por aí e se enforcar.
— Não tem graça, Angelina.
Peguei o telefone. “Nervoso” era pouco.
— Abe, eu preciso tirar essa coisa de mim!
Ele estava falando tão alto que precisei afastar o fone do ouvido.
— Fique calmo — pedi. — Que coisa?
— A coisa! A porra da tornozeleira!
— Escute, JT. Isso é muito importante. Você não pode tirar a tornozeleira. Se fizer isso, a juíza vai colocar você na cadeia.
— Eles estão ouvindo.
— O quê?
— É para isso que essa coisa serve. Eles conseguem ouvir tudo o que eu falo.
Eu me perguntei quem podia estar do outro lado da conversa de um sujeito que morava sozinho, mas isso era outra questão.
— É só uma tornozeleira — eu disse — Ninguém está escutando.
— Está. Está sim. Eles podem me ouvir, e também podem me ver. Eu preciso tirar isso, Abe!
— JT, ninguém está…
— Eu preciso tirar isso agora!
— JT, por favor. Quero que você respire para mim. Com calma e profundamente. Inspire e expire, inspire e expire, pode ser? — Fiquei escutando, mas não gostei do que estava ouvindo. JT estava praticamente arfando. — Mais devagar, JT. Bem mais devagar — Dei um momento para ele. — Melhorou. Vou desligar e…
— Não, não desligue!
— Escute o que estou dizendo, JT. Vou ligar de novo do meu celular, e vou até aí. Prometa que não vai encostar na tornozeleira até eu chegar. Você promete para mim?
Eu podia ouvi-lo respirando. Parecia tão trabalhoso.
— JT? Você promete para mim? — Mais respiração. — Ainda está rápido demais, JT. Mais devagar. Respire devagar, e eu chego aí em alguns minutos.
— Tudo bem — respondeu ele. — Mas venha logo.
Desliguei o telefone, peguei meu celular e a chave do carro e fui até Angelina.
— Desculpe, querida. Voltarei o mais rápido que puder.
Ela só balançou a cabeça, mais resignada do que brava.
— Vejo você amanhã.
— Não, não vou passar a noite lá desta vez.
Angelina só olhou para mim, nós dois sabíamos a verdade.
— Vá, Abe — disse ela, com a voz distante. — Vá cuidar da sua família.
Fui até a porta e a fechei, mas, antes de alcançar a metade dos degraus da entrada, ouvi Angelina trancar a porta com a corrente. Eu estava prestes a virar e tentar encontrar a coisa certa para dizer a ela quando meu celular tocou. Era o JT.
— Abe, cadê você, cara? Preciso tirar essa coisa…
— Tudo bem, tudo bem, estou a caminho.
Ele continuou falando, e continuei ouvindo e dizendo que ia ficar tudo bem enquanto entrava no carro e ia até o apartamento dele. Mais uma vez.