Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 24 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo vinte e quatro

 

Fui parar no apartamento do JT.

Meu cunhado definitivamente tinha seu lado ruim, mas uma coisa que podia ser considerada certeza era que, se algum dia você aparecesse na porta dele depois da meia-noite após discutir com sua esposa, nenhuma palavra disso ia aparecer no Facebook, Twitter ou em qualquer mídia social. Ele não participava de nada daquilo. Eu garanti que não tinha nada de errado, mas mesmo alguém tão autocentrado quando JT podia ver as linhas de preocupação no meu rosto.

— Você e a Angelina tiveram uma briga?

— Não.

— Foi por minha causa.

Todo mundo com exceção de mim tinha percepção extrassensorial, e eu estava ficando cansado disso.

— Só preciso de um lugar para dormir.

O interrogatório continuou, e finalmente minha única saída foi fechar os olhos e fingir que tinha dormido no sofá. JT dormia até tarde por causa do remédio, e fiz questão de sair na manhã seguinte bem antes de ele acordar.

Belle Glade ficava ao norte, a uma hora e meia de carro, e eu não precisava passar em casa para fazer minha higiene pessoal. Sem querer provar que a teoria de Angelina estava certa, mas “emergências” em que eu passava a noite no apartamento de JT tinham se tornado tão comuns que eu deixava roupas limpas e uma escova de dentes lá. Cheguei ao escritório da Farm Aid às nove e meia. Ed me levou de lá. Depois de uma semana tão horrorosa, eu devia estar desesperado por algum tipo de alívio cômico, porque achei a coisa mais engraçada do mundo o fato de Ed ter uma Kombi e não consegui parar de rir.

— O que você achou tão engraçado?

Consegui me controlar.

— Nada, Salsicha.

E comecei a rir de novo.

Seguimos rumo ao oeste da cidade de Belle Glade por uns dez minutos, até precisarmos parar em uma cruzamento bem no meio de uma área coberta de pés de cana. Uma fila interminável de vagões de carga passou pelos meus olhos, quase transbordando de pés de cana recém-cortados a caminho da moenda.

— Seiscentas mil toneladas de cana a cada temporada de corte — comentou Ed. — E isso só da Cortinas.

— Quanto açúcar se produz com isso?

— Um monte. E com os subsídios do Tio Sam, eles vendem no atacado a um preço mínimo garantido de 22 centavos por meio quilo, comparado com os oito centavos pelo açúcar cultivado em outros países. A Açúcar Big cospe nos seus olhos, xinga sua mãe se você pronunciar as palavras “bem-estar corporativo”, mas, se você fizer as contas da indústria toda, o subsídio do açúcar coloca 2,5 bilhões de dólares extra nas costas dos consumidores americanos todo ano.

Ed tinha uma série de discursos contra a indústria do açúcar, cada um embalado separadamente e tão organizado quanto os tipos de adoçantes no balcão do café.

— Parece ser sua próxima ação — comentei.

— Nem me fale.

O fim do trem finalmente passou, e os faróis de alerta pararam de piscar. A velha Kombi sacolejou pelo cruzamento, mas os 15 quilômetros seguintes do outro lado dos trilhos pareciam iguais aos 15 anteriores. A família Cortinas possuía 12% de todas as terras no condado de Palm Beach, cerca de 155 mil acres, sem contar a propriedade de Alberto em estilo mediterrâneo de vinte milhões de dólares na ilha de Palm Beach. Fileiras organizadas de cana-de-açúcar brotavam do canteiro fértil de terra preta que o fluxo lento dos Everglades tinha depositado nos últimos cem mil anos, a maioria resultado da decomposição da vegetação de restinga. Ali, nas terras dos Cortinas, as águas não corriam mais, com exceção da estação de chuvas, quando o escoamento dos fosfatos e outros poluentes da região pantanosa aterrada chegava até as vias hídricas e os canais para se tornar problema dos outros.

Ed diminuiu a velocidade da Kombi, e paramos na acostamento de cascalho da estrada. Não parecia ser nenhum lugar especial, canaviais ao sul, a imagem espelhada ao norte.

— Chegamos — anunciou ele.

— Chegamos aonde?

Ed alcançou o porta-luvas, pegou um jornal amarelado e o passou para mim. Era a primeira página do Palm Beach Post, com data de 17 de janeiro de 1986.

“Deputado Estadual Morto em Acidente de Carro”, dizia a manchete logo abaixo da dobra. O primeiro parágrafo me explicou por que Ed tinha me trazido para esse local:

 

O deputado Marshall Conrad (D. Sebring) morreu em um acidente

envolvendo um único carro vinte quilômetros a oeste de Belle Glade. Os

vestígios chamuscados de seu veículo foram encontrados na manhã de

quarta-feira em um canavial. O campo estava sendo submetido a uma

queimada controlada na terça à noite em preparação para a colheita, e

funcionários da empresa de açúcar Cortinas encontraram o carro na

manhã seguinte. A polícia rodoviária da Flórida informou que não há

indícios de testemunhas e que o acidente está sendo investigado.

 

Passei os olhos pelo resto da matéria, mas era, em grande parte, uma discussão sobre o histórico da vítima de conservadorismo fiscal como deputado estadual e seus planos para concorrer ao Congresso na eleição seguinte, que aconteceria no outono. Mais nada sobre o acidente.

— Então, o que aconteceu?

— Você acabou de ler.

Balancei a folha de jornal em minhas mãos.

— Isso não me diz praticamente nada.

Ed sorriu e balançou a cabeça.

— Bem-vindo ao mundo Cortinas de privacidade, poder e influência. Mais nenhum detalhe foi revelado ao público.

— Deve haver um relatório policial — eu disse.

— Lacrado.

— Relatório do médico legista?

— Lacrado.

— Arquivo da investigação?

— Lacrado.

— Por quê?

— Boa pergunta. Esse sujeito, Conrad, era um astro em ascensão na política da Flórida. Não era de grande ajuda nos Everglades, mas ele odiava a Açúcar Big por uma questão puramente econômica. E estava se preparando para encampar uma campanha no Congresso que ia revelá-lo como o garoto da indústria do açúcar — uma marionete no Capitólio que enchia os bolsos da família Cortinas com subsídios artificiais do governo federal.

Foi então que entendi o discurso do bem-estar corporativo enquanto víamos o trem passar.

— Então você está falando sério? Não existe nada publicado sobre como isso aconteceu?

— Nada.

Olhei para a manchete mais uma vez, reparando no ano.

— Mil novecentos e oitenta e seis.

— O mesmo ano em que Vernon Gallagher encerrou sua carreira como cortador de cana.

— Então, você está pensando… no quê?

— Ah, eu não sei — respondeu Ed, brincando. — Um astro em ascensão na política da Flórida morre em um acidente terrível num canavial dos Cortinas antes de poder desafiar o principal apoiador da indústria do açúcar no Congresso. E em questão de meses o Michael Phelps do corte de cana pendura o facão. Coincidência? Ou não?

Entendi o que ele estava falando.

— A implicação sendo que Vernon Gallagher estava no canavial e sabe tudo sobre o acidente.

— Pois é — disse Ed. — Como, talvez, que o acidente não foi um acidente.

— Um homicídio — eu emendei — que não prescreve.

— Que Tyla Tomkins teria razão de levar ao seu conhecimento todos estes anos depois.

Olhei pela janela do passageiro, na direção do denso campo de pés de cana, e voltei para Ed.

— Estamos nos antecipando aqui.

— É, eu sei.

Ed deu a partida de novo.

— A boa notícia é que a próxima viagem deve ser muito mais interessante.

— Próxima viagem? —perguntou ele.

— Para a Jamaica.

— Excelente. Você vai para a Jamaica.

— Não, nós vamos — corrigi. — Está na hora de termos uma conversa com Vernon Gallagher.

Liguei para Angelina na viagem de volta do condado de Palm Beach. Ela não atendeu, e decidi não deixar mensagem. Fazia pouco mais de 12 horas que ela tinha me colocado para fora de casa. Se não estava pronta para conversar, forçar as coisas não iria ajudar.

Eu estava percorrendo a rodovia pedagiada, ao sul no mundo da cana, mas meus pensamentos voltavam para a família Cortinas. Eu estava tentando não me adiantar com a teoria de Ed sobre 1986. Afinal, ele era um guerreiro de rabo de cavalo que tinha travado uma batalha legal de 12 anos contra a indústria do açúcar, sem nenhum espólio além de um escritório cheio de caixas e 10 mil jamaicanos sem trabalho. Mas um bate e volta até Kingston não era um investimento enorme da minha parte, e se de fato conseguíssemos encontrar Vernon Gallagher, o retorno seria gigante, e não só do ponto de vista do cumprimento da lei. Se os telefonemas de Tyla para mim de fato provassem ser uma pista genuína de um crime, isso talvez amolecesse a raiva de Angelina sobre minha decisão de comparecer ao velório com Carmen. Claro, ainda havia as fotos do jantar em Orlando. Em relação a elas, eu simplesmente teria de implorar pelo perdão da minha mulher.

Flores? Mas não um buquê. Eu podia mandar uma rosa de caule longo por vez. Quando fomos morar juntos da primeira vez, eu disse a Angelina para escolher seu lado do closet, selecionar as gavetas que queria e marcar a área “só da Angelina” do quarto. Depois que ela foi dormir, levantei e coloquei uma única rosa em cada gaveta, cada armário e cada espaço escolhidos, para que ela as encontrasse ao acordar. Nenhum dos dois foi trabalhar naquela manhã. Isso traria uma boa lembrança. Não traria?

Então, me ocorreu que mais uma vez eu estava recorrendo ao período pré-Samantha de Abe e Angelina.

Meu celular tocou pelo Bluetooth. Olhei a tela no painel, que me alertou de dois fatos: eu estava indo a mais de 130 quilômetros por hora, e que o código de área da ligação era de Nova York. Minha esperança era que Angelina estivesse me ligando do celular da mãe. Reduzi a velocidade e atendi pelo viva voz. Era minha sogra.

— Abe, você sabe onde Angelina está?

Era uma pergunta estranha — não porque eu não sabia a resposta, mas porque as duas deviam estar num spa juntas.

— Não, passei o dia em Palm Beach.

— Quando foi a última vez que você a viu?

O estranhamento estava dando lugar a uma certa urgência na voz dela.

— Está tudo bem?

— Está. Não. Quero dizer… não sei. Quando foi a última vez que você a viu?

— Pouco antes de meia-noite. Passei a noite no apartamento do JT. Margaret, o que está acontecendo?

— Angelina deveria vir me encontrar no hotel duas horas atrás. Ela não apareceu e estou ligando para o celular dela, mas ninguém atende.

— Eu também tentei ligar — eu disse. — Alguém passou na nossa casa?

— Passou. Estou parada na porta neste momento. Por isso estou tão preocupada. O carro dela está aqui, mas ninguém atende a porta.

Era cedo para ser um caso de desaparecimento pelo protocolo normal, mas as fotos que ela tinha recebido — possivelmente de um serial killer — mudavam tudo.

— Margaret, quero que você fique calma, pode ser? Tem viaturas extras patrulhando a nossa área desde quinta à noite.

— Oh, meu Deus, Abe. O que está acontecendo?

— A ajuda já está chegando — eu disse. — Vou desligar e chamar a emergência agora.