Uma Mulher Perfeita
Capítulo vinte
O velório estava marcado às sete horas na Funerária Seaver, perto da Miami Avenue. Eram quase seis e meia, meia hora depois de o sol se pôr, quando encontrei uma vaga e desliguei o carro. Não havia pressa, mas se eu ia levar aquilo em frente, precisava fazer mais do que ficar ali sentado, paralisado atrás do volante, sem conseguir abrir a porta do carro. O conflito interno tinha muitos níveis. Angelina e Tyla obviamente estavam no centro dele, mas havia mais do que isso. A Seaver era onde tínhamos velado Samantha.
Entre de uma vez, eu disse a mim mesmo.
Tyla tinha feito parte de uma grande família profissional, um escritório de advocacia enorme que contava com mais de trezentos advogados só na sede em Miami, sem contar a gerência, os funcionários e seus cônjuges. A cerimônia de sexta à noite era para um público mais amplo, e uma missa mais íntima para a família e os amigos mais próximos estava marcada para sábado de manhã na Igreja Batista Mission Hill de Coconut Grove. Uma gravata era necessária e, felizmente, a minha estava no banco de trás, por causa da audiência que tive mais cedo. Teria sido bom fazer a barba, mas o melhor que eu podia fazer era passar um pente no cabelo. Eu inspirei, peguei as chaves e saí do carro para a escuridão do começo da noite.
Você precisa fazer isso.
O estacionamento estava enchendo rápido. Os visitantes chegavam de várias direções, alguns tinham deixado o carro a um ou dois quarteirões de distância; outros, no estacionamento comum em frente à funerária. Uma mulher estava chorando e enxugando suas lágrimas. Outras pessoas pareciam entorpecidas ou, pelo menos, sem palavras. Olhei para o outro lado, só para ver o carro preto da funerária parado embaixo do pórtico do prédio. A ideia de Tyla indo em direção a um cemitério era quase incompreensível, mas ela não descansaria tão cedo. A família não queria adiar mais o velório, mas o enterro teria de esperar até que as autoridades dissessem que não havia mais nenhuma esperança de o restante do corpo ser recuperado. A busca nos Everglades estava em andamento, e parecia que todo mundo, menos a família de Tyla, tinha feito as pazes com o fato de que a cabeça dela jamais seria encontrada.
— Espere, Abe.
Era Carmen. Parei por tempo suficiente para ela me alcançar, e juntos fomos até a entrada.
— Como você está? — perguntou ela.
Carmen sabia da história de Samantha na Seaver.
— Melhor do que achei que estaria.
Havia um pequeno grupo de convidados na área de registro no hall de entrada. Deixei Carmen assinar primeiro e, de alguma forma, eu me senti melhor sobre ir ao velório de Tyla e ver meu nome logo embaixo do dela, como se isso tornasse aquilo mais legítimo ou, pelo menos, razoável.
Diversos outros grupos conversando baixo estavam espalhados pela sala. Buquês de rosas brancas e de crisântemos adornavam as mesas antigas. Tudo muito discreto e tradicional, com exceção da fotos ampliadas de Tyla que nos receberam no salão. Sua infância estava à direita. À esquerda, fotos de Tyla, a estrela da corrida, nem um grama de gordura no corpo, enquanto atravessava a linha de chegada da corrida de oitocentos metros. Ao lado, ela estava de beca carmim, no dia da formatura da Faculdade de Direito de Harvard. E assim por diante, ao longo da parede, uma imagem de cada fase da sua vida.
— Tem certeza de que você está bem com isso? — perguntou Carmen em voz baixa.
— Tenho.
A resposta mal tinha saído dos meus lábios quando tudo piorou. Sem dúvida eram as fotos, mas, por alguma razão, as palavras que Carmen dissera para mim em sua sala de que Tyla era “um sintoma de um homem fazendo o luto à deriva” estava martelando minha cabeça: Abe, eu não sou cega. Tyla é uma linda mulher. E se parece muito com Samantha.
Aquilo me deixou com o estômago embrulhado.
— Obrigado pela presença — disse um jovem. Virei, mas ele estava falando com Carmen. O rapaz se apresentou como irmão de Tyla. — Nossa família fica muito grata que a promotora pública tenha se dado ao trabalho de comparecer.
Ela ofereceu suas condolências e me apresentou. Apertei a mão dele, sem fazer menção a quanto tempo fazia que eu conhecia Tyla.
— É tão doloroso — disse ele. — Não queríamos fazer dois velórios, mas a quantidade de pessoas da firma de Tyla foi impressionante. A BB&L foi muito boa para ela.
— Está claro que ela era muito querida no escritório — comentei.
— Muito — concordou ele, os olhos indo na direção da foto de formatura de Tyla. — No último Dia de Ação de Graças, Tyla e eu tivemos uma boa conversa. Ela me contou que tinha sido promovida. Deixaria de trabalhar para a Açúcar Cortinas, o que todo mundo na BB&L faz, para cuidar das questões legais da família Cortinas, o que é como um convite para um santuário particular. Ela estava tão orgulhosa. Eu trabalho em Washington DC, e a única pessoa que já vi mais feliz com uma promoção foi um amigo meu que ganhou uma credencial de imprensa para a Casa Branca.
O irmão sorriu com nostalgia diante da lembrança, e sorri com ele, mas era a primeira vez que eu ouvia falar sobre Tyla fazer parte do “santuário particular” da família Cortinas. Isso lançava um pouco mais de luz na mensagem de voz deixada por ela.
— Vão em frente e sentem — indicou ele. — Vamos começar logo.
O rapaz se afastou. Atravessei o corredor com Carmen. Havia mais fotos, todas separadas umas das outras por um impressionante arranjo de flores. Passamos por um arranjo de rosas magnífico a caminho de um fileira de assentos vaga. Era, de longe, o maior do salão, e fui ver de quem era o cartão.
“Nossos mais profundos sentimentos, família Cortinas.”
Sem dúvida era condizente com o que o irmão de Tyla tinha acabado de me contar. Encontramos lugares para sentar naquela fileira, e dei uma olhada no folheto sobre a cadeira. Outra imagem de Tyla adornava a capa, mas fui direto ver a lista de discursos fúnebres. Brian Belter seria o primeiro a fazer uma eulogia. Eu estava prestes a apontar o nome dele para Carmen, mas Maggie Green tinha estrategicamente se sentado ao lado dela e atraído sua atenção. Eu não conhecia Green muito bem, mas a agente Santos tinha me dito que a ex-promotora federal tinha participado da reunião que ela e Rid tiveram na BB&L.
Green estava pegando pesado com Carmen.
— Não é o momento adequado, mas preciso dar um retorno sobre a busca nos arquivos do computador e nos e-mails de Tyla na firma. Recebi um mandado hoje do FBI e gostaria de coordenar isso tanto com o seu escritório quanto com a agência federal — disse.
— Maggie, você tem toda razão — disparou Carmen. — Não é o momento adequado. Mas estou à disposição.
Um jovem advogado apareceu, mais do que servil, sem dúvida em seu primeiro ou segundo ano no escritório, com pouco mais status do que de um mensageiro.
— Desculpe interromper, dra. Green.
Ela pareceu incomodada.
— O que foi?
— Parece que a senhora vai ter que fazer o discurso.
— O quê?
— O dr. Belter não pode comparecer esta noite.
Carmen olhou na minha direção. A ausência súbita era intrigante, mas minha chefe manteve a fachada.
— Oh, não. Brian está doente?
— Teve que sair da cidade — respondeu o jovem. — Inesperadamente.
— Entendo. Essas coisas acontecem — comentou Carmen.
Green apertou a mão da promotora e agradeceu.
— Entrarei em contato.
— Vou esperar sua ligação — respondeu Carmen.
Green e o advogado da BB&L saíram, e Carmen e eu voltamos para nossos assentos.
— Duvido que ele tenha saído da cidade — sussurrou ela por entre os dentes. — Covarde.
— Do pior tipo — concordei.
— Mas continuo feliz que a gente tenha vindo — emendou ela.
Eu estava pensando nas palavras do irmão de Tyla, curioso com o que ela podia ter descoberto nesse “santuário particular” e me perguntando o que o “Michael Phelps do corte de cana” me diria quando eu fosse atrás da pista de Ed Brumbel.
— Eu também.