Uma Mulher Perfeita
Capítulo três
Às três da tarde, eu estava usando a terceira calça do dia. Risca de giz. Era o terno mais antigo no meu guarda-roupas que ainda servia, e eu o usava no tribunal sempre que precisava de sorte. Muita sorte.
— Estado da Flórida contra Jayden Tayshawn Vine — declarou o oficial de justiça, anunciando o caso.
A sala nove do Tribunal de Justiça Richard E. Gerstein era território familiar para mim. Era onde eu tinha afiado meus dentes como “assistente do fosso”, um promotor de nível básico no meu primeiro ano de crimes adultos, trabalhando sessenta horas por semana sob a orientação dos meus supervisores, ganhando a quantia astronômica de quarenta mil dólares por ano. Mas era a primeira vez que eu estava do lado da defesa na sala.
Jayden Tayshawn Vine era o irmão mais velho de Samantha.
— O que fazemos agora? — perguntou JT, sussurrando.
— Sente-se — eu disse com uma voz calma. — Vai ficar tudo bem.
Toda família tem bagagem. Na de Samantha essa bagagem era JT. Outro viúvo teria se afastado depois da morte dela, mas eu era a fortaleza de JT. Ele não tinha mais ninguém. E eu não queria que ele acabasse desabrigado de novo.
— Sr. Beckham, que bom vê-lo — disse a juíza. — Um rosto familiar em um lugar estranho.
— Sim, meritíssima — respondi, me levantando.
— O que ela quis dizer com isso? — JT me perguntou, com um pouco de urgência no sussurro.
— A juíza está apenas sendo educada — sussurrei de volta. — Vai ficar tudo bem.
O promotor no caso de JT era Leslie Highsmith, uma promotora assistente que estava tendo a oportunidade de conduzir o que era uma audiência bem rotineira de condenação. Apenas agressão em geral teria mandado JT para uma corte de delitos leves e uma sentença mínima. Infelizmente, a vítima era um funcionário da área de transporte, um motorista de ônibus, o que praticamente significava agredir um policial. Uma condenação anterior, dos tempos de JT morava na rua, não ajudava. Highsmith se levantou de sua cadeira — da cadeira que um dia já foi minha — e se dirigiu à corte.
— Meritíssima, a promotoria está disposta a aceitar a declaração de não contestação com pena de trinta dias de prisão domiciliar.
A juíza analisou o arquivo do caso que estava à sua frente.
— Ajude-me a lembrar, doutora. Tudo isso é por causa de um passageiro tentando descer de um ônibus?
— Correto — respondi.
A questão tinha sido direcionada à promotora, mas eu a interceptei. Não que eu não confiasse em Highsmith; em um escritório de mais de trezentos advogados, eu mal a conhecia. Mas JT tinha sua própria versão de tudo o que já tinha feito na vida, e não reagia bem a estranhos que mudavam a descrição da realidade como ele a conhecia.
— Abe, você não está na promotoria desta vez — disse a juíza, sorrindo para mim. — Vamos ouvir a doutora Highsmith primeiro.
A promotora agradeceu à juíza e continuou:
— Foi relatado que o sr. Vine estava andando pelo corredor do ônibus e esbarrando em outros passageiros. Quando o motorista pediu que sentasse, ele se recusou e continuou andando. Ele apertou o passo e finalmente começou a pular.
— Pular? — perguntou a juíza.
JT segurou minha manga.
— Não é verdade! — disse ele, furioso, mas conseguindo manter a voz baixa.
— Sim — disse Highsmith. — O sr. Vine então exigiu descer do ônibus. O motorista disse que ele deveria esperar até o veículo parar. Nesse momento o sr. Vine levantou a voz, dizendo que precisava descer imediatamente e ignorou os diversos pedidos do motorista para que ele se sentasse. Quando o veículo parou num semáforo vermelho, o sr. Vine correu para a porta. O motorista explicou que aquele não era um ponto de ônibus. O sr. Vine começou a esmurrar a porta. O motorista se levantou para impedi-lo de quebrar o vidro e se machucar. Então o sr. Vine o empurrou, e diversos passageiros se levantaram para contê-lo.
— Abe, ela é uma mentirosa — disse JT, a voz um pouco acima de um sussurro, mas alta demais para uma corte.
— Álcool ou drogas envolvidos? — perguntou a juíza.
— Acreditamos que não — respondeu Highsmith.
— Não estavam envolvidos — eu disse.
A juíza olhou na minha direção.
— Alguma informação que o senhor gostaria de acrescentar, doutor Beckham?
— O sr. Vine não consome álcool nem drogas. Ele interrompeu seus remédios e, o que a promotoria acabou de descrever, é o que acontece quando ele não segue o tratamento indicado.
— É por isso que estamos aceitando a não contestação sob a condição de prisão domiciliar por trinta dias — emendou a promotora. — Isso vai dar tempo para que os medicamentos recoloquem o sr. Vine em um estado menos agitado. O sr. Beckham concordou em monitorar o réu e acompanhá-los às consultas médicas regulares durante esse período.
— Certo — disse a juíza. — Mas estou vendo diversas prisões anteriores por uso de drogas em espaço púbico.
Ela estava se referindo à época em que JT viveu nas ruas.
— Isso faz muito tempo — eu disse.
— Pode ser — disse a juíza. — Mas quero que o monitoramento do sr. Vine seja feito por uma tornozeleira SCRAM.
SCRAM — Secure Continuous Remote Alcohol Monitor, ou monitor de segurança contínuo e remoto de álcool — era uma tornozeleira que detectava o uso de álcool pelo suor do usuário. A juíza estava falando de um dispositivo dual que incluía o monitoramento tradicional de prisão domiciliar por rádio frequência.
— A promotoria não tem objeções — disse Highsmith.
Os olho de JT estavam arregalados. O SCRAM não era o fim do mundo, mas era um desvio do que eu tinha apresentado para ele antes da audiência.
— Está tudo bem — eu disse a ele. — Mesmo, vai ficar tudo bem.
— Sem objeções — anunciei à corte.
— Muito bem — retomou a juíza. — Trinta dias, prisão domiciliar. A corte está oferecendo uma segunda chance muito generosa, sr. Vine. Não a desperdice.
A transcrição não mostraria isso, mas a juíza olhava direto para mim quando disse isso.
O escritório da promotoria ficava em frente ao tribunal de justiça, mas demorei duas horas para chegar lá.
O processo de colocar a tornozeleira aconteceu como o esperado. Apertada demais, solta demais, você tem outra cor? Levei JT para casa, coloquei os remédios no porta-comprimido e o fiz prometer pelo túmulo da irmã morta que os tomaria. Eu estava sentado atrás da minha mesa, revendo a transcrição de uma audiência de seleção de provas em um caso de assassinato marcado para dali a duas semanas quando meu telefone tocou. Era Victoria Santos.
— Você parece estressado — comentou Santos, trinta segundos depois de começarmos a conversar.
O telefone da minha mesa tocou. O identificador de chamadas mostrava que era JT. Deixei cair na secretária eletrônica, ainda que ela provavelmente estivesse cheia por causa das seis mensagens anteriores deixadas por ele, cada uma mais longa que a anterior.
— Eu? Estressado? Não.
— Eu só queria dar notícias — disse Santos.
— Obrigado. Como estamos na identificação da vítima?
— A pesquisa está em andamento para recuperar a cabeça dela. A decomposição está complicando a análise das impressões digitais. A equipe de perícia está trabalhando sem parar, então esperamos descobrir logo.
Peguei um lápis para fazer anotações.
— O que vocês têm até agora?
— Não muito mais do que você já sabe. Mulher afro-americana, trinta e poucos anos, 1,67 m. Considerando o peso médio de uma cabeça humana, o peso total está estimado em 55 quilos. Esmalte vermelho nas unhas das mãos e dos pés.
A ponta do meu lápis quebrou com a força que fiz. Foi uma reação totalmente exagerada de minha parte, mas não ouvi a pergunta seguinte de Santos.
— Abe, você ainda está aí?
— Desculpe. Eu tive… uma pequena distração.
— Está tudo bem?
— Está, sim.
— Você pode me encontrar no escritório do médico legista amanhã às sete horas? O doutor Hernandez vai fazer uma comparação dos ferimentos das vítimas para mim, e eu gostaria que você estivesse lá.
— Claro. Eu o conheço bem.
— Ele é o melhor, e me dá uma sensação boa saber que ele está trabalhando nisso. Vamos pegar esse cara.
— Eu sei.
— Mais uma coisa — disse ela. — Estou fazendo pressão na investigação de Miami-Dade. Nada contra o condado de Palm Beach, mas gosto da equipe que você está montando aí. Se a vítima mais recente for mais um assassinato do Cortador, minha preferência é fazer a acusação por Miami primeiro. E quero que você leve o caso a julgamento.
— Isso é uma decisão do promotor.
— Eu entendo. Estou pedindo a sua permissão para fazer uma solicitação usando seu nome.
Não precisei pensar muito.
— Permissão concedida.
— Obrigada, Abe. Vejo você amanhã às sete horas.
— Combinado.
Desliguei, respirando no silêncio do meu escritório. O lápis quebrado estava sobre meu bloco amarelo, vestígios do grafite sobre a última palavra que eu tinha escrito: vermelho.
Santos tinha fornecido apenas informações básicas e genéricas, que poderiam descrever milhares de mulheres. Mas, de vez em quando, do nada, mesmo depois de 19 meses, eu ainda tinha pequenos lembretes de como minha própria perda podia ser recente e crua, o que tornava desconcertante ouvir sobre uma vítima de homicídio descrita de uma maneira tão familiar, incluindo etnia, idade, altura, peso e cor do esmalte de unha.
Poderia ter sido Samantha.