Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta e seis
A busca estava em andamento quando cheguei ao apartamento de JT. Duas viaturas da polícia de Miami-Dade estavam paradas na entrada. Um policial fardado estava na porta. Em vez de tentar explicar que eu era o cunhado que costumava morar ali e ainda pagava o aluguel, apenas mostrei meu distintivo, me identifiquei como promotor assistente e entrei. Encontrei JT perto da porta, sentado no chão com as costas encostadas na parede, agarrado a uma caixa vazia de cereal. As mãos dele tremiam, seu corpo era uma pilha de nervos.
— Você está bem? — perguntei.
Já vira o apartamento completamente bagunçado, mas nada que chegasse perto daquilo. O carpete tinha sido arrancado. Os móveis, afastados das paredes. As almofadas estavam espalhadas pelo chão. E isso era só na sala. JT olhava direto para frente, uma expressão vazia no rosto.
— Eles jogaram fora o resto da minha comida.
Olhei na direção da cozinha, que estava quieta, e não havia nenhum policial à vista. Mas eu podia ouvi-los do outro lado do corredor do quarto de JT.
— Entregaram uma cópia do mandado para você?
JT abriu o punho e me entregou o mandado, que ele tinha transformado em uma bola de papel de jargão jurídico.
Abri o papel amassado e li a descrição do item a ser confiscado: “um celular pré-pago, fabricante desconhecido.” De repente, eu me dei conta do motivo por trás daquilo, e não porque Brian Belter tinha mencionado o celular pré-pago no café três horas antes.
— Eu sabia que iam vir atrás de mim — comentou JT, sem fôlego, como ficava quando estava prestes a ter um ataque de pânico. — Essa merda acontece quando você coloca essas malditas tornozeleiras. Preciso tirar esta porcaria, Abe.
— Ninguém está atrás de você, JT. Estou aqui agora. É um problema que podemos resolver. Só espere aqui.
— Certo, tudo bem.
A voz dele tremia, o que não era bom sinal, mas eu precisava resolver isso aqui.
Fui até o quarto, onde encontrei a agente Santos e a detetive Reyes. O policial de Miami-Dade estava revirando as gavetas da cômoda. Outro estava vasculhando o closet. Santos me parou na porta.
— Espere no corredor, por favor.
Dei um passo para trás, tecnicamente saindo do quarto.
— Você sabe que não está aqui — eu disse.
— Como é?
— Você sabe muito bem que meu cunhado não estava falando com Tyla Tomkins em um celular pré-pago.
— Vamos descobrir.
Um dos policiais levantou o colchão e colocou contra a parede. Não encontrou nada.
— Isso é uma busca vazia — eu disse. — A chata da Quarta Emenda impede que vocês entrem aqui sem uma causa provável, então vocês estão fingindo procurar um celular, que vocês sabem que não está aqui, e torcendo para encontrar outra coisa. Você está tão desesperada assim?
— Você está tão preocupado assim que outra coisa vá aparecer?
— JT já declarou que não autoriza a busca por qualquer coisa que não esteja listado no mandado de busca.
— Boa sorte com isso — disse ela.
Promotores e advogados de defesa discutem todo dia por causa de itens confiscados que não estão listados em mandados: uma arma encontrada em busca por contrabando, uma faca encontrada em uma busca por um par de sapatos. Se a polícia procura a arma de um homicídio e não encontra, a defesa explora esse argumento no julgamento. É melhor procurar um celular e torcer para encontrar um facão ensanguentado.
— O que você está procurando, Santos?
— Um celular.
— O que você está procurando de verdade? Só me diga. Se eu souber onde está, entrego para você, e vocês não precisam virar o apartamento do JT do avesso.
Ela não respondeu. Um oficial saiu do closet. Ele tinha terminado. Nada.
— Procure lá fora no deck — instruiu Santos.
— Espere — eu disse, enquanto lia o mandado.
O apartamento de JT tinha um quintal mais ou menos do tamanho da sala. A Home Depot e eu tínhamos construído aquele deck de acordo com especificações de Samantha.
O policial passou por mim e saiu. Fui atrás dele.
— Você não tem um mandado para a parte externa — eu disse.
Ele continuou andando pela sala, na direção da porta de vidro da cozinha. Peguei meu iPhone e comecei a filmá-lo.
— Pode parar — avisei. — O mandado não cobre o deque nem nenhuma área externa do apartamento. Essa é uma busca ilegal.
Isso chamou atenção da agente Santos.
— Não vá lá fora — ela deu a ordem ao policial.
Santos não parecia feliz, mas minha leitura do mandado estava correta.
Outro policial a chamou de volta ao quarto. Fui atrás dela pelo corredor, começando a me sentir um pouco como um ioiô.
Ela me fez parar na porta, mas eu tinha uma visão clara do quarto.
— Dê uma olhada nisso — disse ele.
A última gaveta do criado mudo de JT estava aberta. Uma pequena pilha de revistas estava empilhada no chão, como se o policial as tivesse tirado da gaveta, uma por uma, e parado quando algo chamou sua atenção. Santos olhou dentro da gaveta, mas eu não conseguia enxergar tão longe.
— Se não for um telefone, coloque de volta — avisei.
Santos colocou luvas de látex e tirou um jornal lá de dentro.
Eu estava ficando nervoso. Qualquer coisa pode ser embrulhada em jornal.
— Não vi nenhum periódico mencionado no mandado — eu disse.
Ela abriu o jornal. Não parecia estar escondendo nada, pelo menos de onde eu estava. Mas Santos estava hipnotizada, pelo jeito, pela notícia. Ela se aproximou de mim com o jornal na mão, e parou a mais ou menos um metro na minha frente. O jornal estava amarelado pela passagem do tempo. E me mostrou a manchete.
“Companhia de Açúcar Indiciada por Trabalho Escravo”
Era um exemplar do Miami Tribune — de 1941.
— Eu sei o que você está pensando — eu disse. — Um serial killer ataca as vítimas com um facão e joga os corpos em um canavial. Aqui está JT, um sujeito com ficha na polícia, um histórico de instabilidade emocional e que provavelmente nunca leu um jornal na vida. Mas por algum motivo ele guarda um jornal velho sobre cortadores de cana em seu criado mudo.
— Se você tiver uma explicação, sou toda ouvidos.
— O pai de JT era cortador de cana da Companhia Nacional de Açúcar em 1941. Foram sujeitos como ele que fizeram a empresa ser indiciada.
— Você está dizendo que esse jornal pertence ao pai de JT?
Comecei a responder, mas parei.
— Na verdade, não estou dizendo nada. Nem o JT. Exceto para declarar, mais uma vez, que o único item listado no mandado de busca é um celular.
Santos foi até o outro lado do quarto e deixou o jornal no criado mudo.
— Continue procurando — ela instruiu o policial.
— Isso é uma perda de tempo — eu disse. — Você sabe que o JT não está com o aparelho. E sabe que ele não é o assassino. JT estava bem aqui, em prisão domiciliar e com uma tornozeleira, quando a última vítima foi assassinada.
Ela olhou para mim do outro lado do quarto, mas senti mesmo assim.
— JT estava em prisão domiciliar quando a última vítima foi encontrada. O médico legista estimou o horário do óbito pelo menos duas horas antes de JT iniciar a prisão domiciliar.
De repente, entendi por que tinha sido tão difícil comparar a foto de Angelina com o rosto da vítima. Depois de tanto tempo nos Everglades, o inchaço e a decomposição podiam tornar o reconhecimento facial problemático.
Santos veio até mim de novo.
— Você sabe onde seu cunhado estava naquela noite?
Não respondi.
— Achei que não mesmo — ela disse. E, para o policial: — Embale o jornal. Até onde sei, é evidência. Vamos deixar o juiz decidir se é admissível na corte.