Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 46 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo quarenta e seis

 

 

A busca estava em andamento quando cheguei ao apartamento de JT. Duas viaturas da polícia de Miami-Dade estavam paradas na entrada. Um policial fardado estava na porta. Em vez de tentar explicar que eu era o cunhado que costumava morar ali e ainda pagava o aluguel, apenas mostrei meu distintivo, me identifiquei como promotor assistente e entrei. Encontrei JT perto da porta, sentado no chão com as costas encostadas na parede, agarrado a uma caixa vazia de cereal. As mãos dele tremiam, seu corpo era uma pilha de nervos.

— Você está bem? — perguntei.

Já vira o apartamento completamente bagunçado, mas nada que chegasse perto daquilo. O carpete tinha sido arrancado. Os móveis, afastados das paredes. As almofadas estavam espalhadas pelo chão. E isso era só na sala. JT olhava direto para frente, uma expressão vazia no rosto.

— Eles jogaram fora o resto da minha comida.

Olhei na direção da cozinha, que estava quieta, e não havia nenhum policial à vista. Mas eu podia ouvi-los do outro lado do corredor do quarto de JT.

— Entregaram uma cópia do mandado para você?

JT abriu o punho e me entregou o mandado, que ele tinha transformado em uma bola de papel de jargão jurídico.

Abri o papel amassado e li a descrição do item a ser confiscado: “um celular pré-pago, fabricante desconhecido.” De repente, eu me dei conta do motivo por trás daquilo, e não porque Brian Belter tinha mencionado o celular pré-pago no café três horas antes.

— Eu sabia que iam vir atrás de mim — comentou JT, sem fôlego, como ficava quando estava prestes a ter um ataque de pânico. — Essa merda acontece quando você coloca essas malditas tornozeleiras. Preciso tirar esta porcaria, Abe.

— Ninguém está atrás de você, JT. Estou aqui agora. É um problema que podemos resolver. Só espere aqui.

— Certo, tudo bem.

A voz dele tremia, o que não era bom sinal, mas eu precisava resolver isso aqui.

Fui até o quarto, onde encontrei a agente Santos e a detetive Reyes. O policial de Miami-Dade estava revirando as gavetas da cômoda. Outro estava vasculhando o closet. Santos me parou na porta.

— Espere no corredor, por favor.

Dei um passo para trás, tecnicamente saindo do quarto.

— Você sabe que não está aqui — eu disse.

— Como é?

— Você sabe muito bem que meu cunhado não estava falando com Tyla Tomkins em um celular pré-pago.

— Vamos descobrir.

Um dos policiais levantou o colchão e colocou contra a parede. Não encontrou nada.

— Isso é uma busca vazia — eu disse. — A chata da Quarta Emenda impede que vocês entrem aqui sem uma causa provável, então vocês estão fingindo procurar um celular, que vocês sabem que não está aqui, e torcendo para encontrar outra coisa. Você está tão desesperada assim?

— Você está tão preocupado assim que outra coisa vá aparecer?

— JT já declarou que não autoriza a busca por qualquer coisa que não esteja listado no mandado de busca.

— Boa sorte com isso — disse ela.

Promotores e advogados de defesa discutem todo dia por causa de itens confiscados que não estão listados em mandados: uma arma encontrada em busca por contrabando, uma faca encontrada em uma busca por um par de sapatos. Se a polícia procura a arma de um homicídio e não encontra, a defesa explora esse argumento no julgamento. É melhor procurar um celular e torcer para encontrar um facão ensanguentado.

— O que você está procurando, Santos?

— Um celular.

— O que você está procurando de verdade? Só me diga. Se eu souber onde está, entrego para você, e vocês não precisam virar o apartamento do JT do avesso.

Ela não respondeu. Um oficial saiu do closet. Ele tinha terminado. Nada.

— Procure lá fora no deck — instruiu Santos.

— Espere — eu disse, enquanto lia o mandado.

O apartamento de JT tinha um quintal mais ou menos do tamanho da sala. A Home Depot e eu tínhamos construído aquele deck de acordo com especificações de Samantha.

O policial passou por mim e saiu. Fui atrás dele.

— Você não tem um mandado para a parte externa — eu disse.

Ele continuou andando pela sala, na direção da porta de vidro da cozinha. Peguei meu iPhone e comecei a filmá-lo.

— Pode parar — avisei. — O mandado não cobre o deque nem nenhuma área externa do apartamento. Essa é uma busca ilegal.

Isso chamou atenção da agente Santos.

— Não vá lá fora — ela deu a ordem ao policial.

Santos não parecia feliz, mas minha leitura do mandado estava correta.

Outro policial a chamou de volta ao quarto. Fui atrás dela pelo corredor, começando a me sentir um pouco como um ioiô.

Ela me fez parar na porta, mas eu tinha uma visão clara do quarto.

— Dê uma olhada nisso — disse ele.

A última gaveta do criado mudo de JT estava aberta. Uma pequena pilha de revistas estava empilhada no chão, como se o policial as tivesse tirado da gaveta, uma por uma, e parado quando algo chamou sua atenção. Santos olhou dentro da gaveta, mas eu não conseguia enxergar tão longe.

— Se não for um telefone, coloque de volta — avisei.

Santos colocou luvas de látex e tirou um jornal lá de dentro.

Eu estava ficando nervoso. Qualquer coisa pode ser embrulhada em jornal.

— Não vi nenhum periódico mencionado no mandado — eu disse.

Ela abriu o jornal. Não parecia estar escondendo nada, pelo menos de onde eu estava. Mas Santos estava hipnotizada, pelo jeito, pela notícia. Ela se aproximou de mim com o jornal na mão, e parou a mais ou menos um metro na minha frente. O jornal estava amarelado pela passagem do tempo. E me mostrou a manchete.

 

“Companhia de Açúcar Indiciada por Trabalho Escravo”

 

Era um exemplar do Miami Tribune — de 1941.

— Eu sei o que você está pensando — eu disse. — Um serial killer ataca as vítimas com um facão e joga os corpos em um canavial. Aqui está JT, um sujeito com ficha na polícia, um histórico de instabilidade emocional e que provavelmente nunca leu um jornal na vida. Mas por algum motivo ele guarda um jornal velho sobre cortadores de cana em seu criado mudo.

— Se você tiver uma explicação, sou toda ouvidos.

— O pai de JT era cortador de cana da Companhia Nacional de Açúcar em 1941. Foram sujeitos como ele que fizeram a empresa ser indiciada.

— Você está dizendo que esse jornal pertence ao pai de JT?

Comecei a responder, mas parei.

— Na verdade, não estou dizendo nada. Nem o JT. Exceto para declarar, mais uma vez, que o único item listado no mandado de busca é um celular.

Santos foi até o outro lado do quarto e deixou o jornal no criado mudo.

— Continue procurando — ela instruiu o policial.

— Isso é uma perda de tempo — eu disse. — Você sabe que o JT não está com o aparelho. E sabe que ele não é o assassino. JT estava bem aqui, em prisão domiciliar e com uma tornozeleira, quando a última vítima foi assassinada.

Ela olhou para mim do outro lado do quarto, mas senti mesmo assim.

— JT estava em prisão domiciliar quando a última vítima foi encontrada. O médico legista estimou o horário do óbito pelo menos duas horas antes de JT iniciar a prisão domiciliar.

De repente, entendi por que tinha sido tão difícil comparar a foto de Angelina com o rosto da vítima. Depois de tanto tempo nos Everglades, o inchaço e a decomposição podiam tornar o reconhecimento facial problemático.

Santos veio até mim de novo.

— Você sabe onde seu cunhado estava naquela noite?

Não respondi.

— Achei que não mesmo — ela disse. E, para o policial: — Embale o jornal. Até onde sei, é evidência. Vamos deixar o juiz decidir se é admissível na corte.