Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 58 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo cinquenta e oito

 

 

Estacionei ao lado do carro novo e brilhante de Jeffrey Winters e entrei correndo no prédio. O elevador estava lotado, sem espaço para mim, então subi as escadas. O suor se acumulou na minha sobrancelha, e eu estava ofegante quando entrei no escritório, passei correndo pela recepcionista e entrei na sala dele. Angelina e os pais estavam com Winters.

— Angelina, preciso falar com você — anunciei.

Eles olharam para mim confusos, provavelmente se perguntando por que eu estava arfando como um cachorro.

— Desculpe, eu subi correndo — expliquei. — Mas, Angelina, é urgente. Me dê cinco minutos a sós e escute o que tenho a dizer. Não vim correndo até aqui para dizer para você demitir seu advogado.

Ela olhou para Winters, que deu sinal verde.

— Vocês podem usar a sala de conferência — disse ele.

Atravessamos o hall juntos. Não era tão grande quanto a sala de Winters, mas havia bastante espaço para os dois. Assim que fechei a porta, eu me perguntei se havia grampos na sala e se Winters podia ouvir tudo. Não importava. Eu só estava feliz de ter a atenção completa de Angelina. Sentamos na mesa de reunião.

— O que está acontecendo, Abe?

Eu ainda estava ofegante e demorei um instante.

— Andei pensando na sua história.

— Não é uma “história” — disse ela. — É a verdade.

Ela estava começando a falar como o advogado.

— Certo, me deixe começar de novo.

Fiz uma pausa. Eu sabia que Winters só me daria meus cinco minutos e logo bateria na porta. Mas o que eu precisava dizer não era algo que podia ser simplesmente vomitado. Era uma situação delicada.

— Angelina, já conheci muitas vítimas como promotor. Muitas delas sofreram coisas terríveis. Ninguém quer falar sobre isso. Nunca é fácil. Algumas conseguem se lembrar de tudo e são capazes de descrever tudo com uma impressionante riqueza de detalhes. Algumas se lembram do que aconteceu, mas não conseguem falar sobre isso. Algumas poucas parecem não ter nenhuma lembrança do ocorrido. Elas bloqueiam como um mecanismo de sobrevivência.

— Do que você está falando?

— Estou falando de você — respondi.

— Não é o que parece.

— Estou preocupado com a sua história.

— Não é uma…

— Desculpe, sua declaração. Pode ser “a verdade” — eu disse, fazendo aspas no ar — mas nem tudo parece ser verdade. Ela tem lacunas. Estou tendo dificuldade de acreditar nela. Acho que o público também não vai acreditar.

— É a sua opinião.

— Vou ser mais específico. Eu acredito que você ficou com medo depois que eu saí. Você de fato saiu de casa achando que estaria mais segura do Cortador caso se escondesse. Talvez você até estivesse tão brava comigo que decidiu me machucar e penhorar o anel de Samantha.

— Eu não fiz por uma questão de despeito.

— Continue me acompanhando — pedi. — Talvez você tenha ido parar num bairro perigoso às duas da madrugada, e alguma coisa ruim tenha acontecido.

— Eu não fiz nada de errado.

— Sei que não. Quando digo que algum ruim aconteceu, quero dizer que algo ruim aconteceu com você.

Ela não respondeu.

— Alguma coisa sobre a qual você não quer falar. Que você não quer ter de descrever em detalhes dolorosos para mim, para sua mãe, seu pai, para a polícia, para um júri ou para qualquer outra pessoa.

Ela balançou a cabeça, mas me pareceu mais confusão do que discordância.

— Por que você acharia isso?

— Começou por causa do seu celular. Você não tinha uma boa explicação para como ele foi parar na Tamiami Trail perto do local onde o corpo de Tyla foi recuperado. E disse que o Mãozinha obrigou você a entregar o aparelho. Quando pedi uma explicação melhor, tudo o que você conseguiu dizer é que eu não estava perguntando para a pessoa certa. De repente me ocorreu que talvez a “pessoa certa” tenha feito mais do que levar seu celular.

— Você está analisando demais isso, Abe.

— Estou? Qualquer um que tenha visto o noticiário nos últimos dois dias sabe tudo sobre Tyla Tomkins, sabe onde o corpo foi encontrado, e sabe que a polícia está procurando um serial killer. Essa é uma informação que alguém pode usar em vantagem própria se vir uma mulher sozinha em uma loja de penhor no distrito de Little Havana. Vamos dizer que está tarde, a mulher está desesperada e precisa de uma carona. O homem para. Ela sabe que não deve entrar no carro, mas ele a força a entrar e a molesta. Por alguma razão o homem a deixa ir embora, ou talvez ela tenha resistido e fugido. Mas ele está com a bolsa e com o celular da mulher, e quer despistar a polícia. E joga o celular da vítima pela janela do carro na Tamiami Trail. O que faz a polícia procurar pelo Cortador, não por ele.

Estávamos chegando à marca dos cinco minutos, mas dei trinta segundos para Angelina pensar no que eu tinha dito. Se ela fosse uma estranha, eu teria sabido o que dizer na sequência. Eu teria dito que nada daquilo era culpa dela, que não havia por que se envergonhar de ter sido uma vítima e que agora ela era uma sobrevivente. Teria explicado que muitos crimes sexuais não eram registrados, e que era importante pegar quem tinha feito isso com ela para que não acontecesse de novo. Mas o roteiro não funcionava em se tratando de Angelina e, por mais que tentasse, eu não sabia o que estava se passando pela cabeça dela. Finalmente, Angelina falou.

— Abe, eu entendo o que você está fazendo. Sei que você está tentando ajudar. Mas você não pode colocar palavras na minha boca. Isso seria uma história.

— Angelina, por favor.

— Não, Abe. O que você acabou de dizer pode soar mais como a verdade. Mas vou ficar com a verdade real.

Houve uma batida na porta, e Winters entrou.

— Você pode nos dar mais um minuto, por favor? — eu pedi, incomodado.

— Vocês dois precisam ver isso — ele respondeu, pegando o controle remoto. A TV de tela plana se acendeu, e Winters colocou no noticiário matutino do canal Action News.

— Estão na sua casa de novo — explicou ele.

— A mídia? — perguntei.

— A polícia — ele corrigiu, e aumentou o volume.

Na tela estava a mesma repórter da Action News que tinha me entrevistado no sábado depois que Angelina desapareceu. Ela pareceu muito menos contida nessa transmissão, com um ar genuíno de animação.

— Esperamos ver Angelina Beckham voltar para casa hoje de manhã — disse ela para a câmera, microfone na mão. — Em vez disso, foi a polícia de Miami-Dade quem voltou. Enquanto não temos informações do que os investigadores estão procurando, claramente a residência dos Beckham continua sendo uma cena de crime.

A câmera abriu o ângulo da calçada e percorreu o jardim e a entrada. Reconheci o carro da agente Santos parado atrás das viaturas da polícia de Miami-Dade.

— Não é um dos seus amigos? — perguntou Angelina.

— A agente Santos, você quer dizer?

— Não. O sujeito atrás da repórter. Não é o detetive Riddel?

Levantei e dei a volta na mesa de reunião para olhar para a TV mais de perto. No fundo, atrás da repórter do Action News, um homem estava correndo pela minha entrada tentando se livrar dos outros jornalistas a caminho da minha casa.

— Ele mesmo — respondi.

Winters foi até o telefone.

— Isso precisa acabar. Vou falar diretamente com o chefe de polícia sobre isso.

Fui até ele e apertei o botão para desconectar o telefone, encerrando a discagem.

— O que você está fazendo? — perguntou ele.

Olhei para Angelina.

— Você jura que estou errado? Que estou falando um absurdo? Que o que acabei de descrever para você não aconteceu?

Ela me encarou.

— Não aconteceu.

— Então eu cuido do Riddel.

Ela me olhou preocupada.

— Como?

— Vou para casa.

— Isso é loucura — disse Winters. — É um vespeiro. Você não pode ir para lá.

— Ah, não? — respondi.

— Que diabos você acha que vai fazer quando chegar lá? — ele perguntou.

Olhei de novo para o televisor para ver um enxame de repórteres empurrando a fita de isolamento da polícia e chamando o nome do meu amigo, que passou pela porta e desapareceu.

— Vou confrontar Rid — respondi.