Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 12 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo doze

 

Às quatro encerrei meu dia no tribunal. Às 16h15 eu estava no Graham Building, depois de ser chamado pela própria promotora.

O Bumerangue.

Eu podia passar semanas sem colocar o pé no escritório de Carmen, então duas visitas em tantos dias em circunstâncias tão desconfortáveis excediam minha cota. O retorno não era exatamente uma surpresa. A edição matutina do Tribune tinha feito uma matéria sobre o Cortador e a investigação intercondados, e uma citação de uma “fonte anônima” sobre minha “transferência devido a um possível conflito de interesses” levantava mais perguntas do que respostas. Eu não fazia ideia de quem era a fonte, mas o escritório da promotoria não era diferente de uma delegacia de polícia: ambos podiam ser peneiras de informação.

— Temos um problema, Abe — anunciou Carmen.

Éramos só nós dois desta vez, Carmen atrás de sua mesa, e eu em uma poltrona na frente dela. Ela tinha aberto mão do RH, o que considerei um bom sinal.

— Eu sei. Eu li o artigo do Tribune — respondi.

— Esse não é o problema.

Carmen deslizou seu iPad pela mesa. A tela estava acesa com ícones, cada um deles com uma imagem. Todas eram em preto e branco, um pouco granuladas, com a data e o horário indicados na parte de baixo. Pareciam ser quadros do vídeo de uma câmera de segurança. Minha mão tremeu ao tocar a tela, aumentando cada imagem e partindo para a seguinte. Eu nunca as tinha visto antes, mas não havia dúvida sobre elas: éramos eu e Tyla Tomkins.

Engoli em seco, olhando por sobre a mesa de Carmen.

— Nós saímos para jantar.

— Estou vendo pelas fotos — respondeu ela ao pegar o iPad de volta das minhas mãos.

Minha chefe mostrou uma imagem específica e colocou o tablet sobre a mesa, a foto virada para mim.

— Estou vendo uma garrafa de vinho entre vocês.

— Foi depois do trabalho.

— Vocês dois parecem estar se divertindo.

— Não aconteceu nada — eu disse. — Eu a encontrei em uma convenção da Ordem dos Advogados em Orlando. Ela me convidou para jantar para conhecer um amigo que estava pensando em ir trabalhar no escritório da promotoria. Quando cheguei ao restaurante, estava só ela. Nós jantamos, tomamos vinho, e foi isso.

— Tudo bem, Abe. Como quiser. O problema é que você me disse na minha sala que não via Tyla há mais de uma década. Estas fotos têm a data da câmera de segurança registradas. Você está me dizendo que as datas estão erradas em uma década?

— Não. O jantar foi em setembro passado.

— Então você mentiu para mim?

Engoli em seco, pego no flagra.

— Foi um erro.

— Por que você mentiu?

Por quê. Claro que tinha começado como todas as mentiras começam, com algo pequeno. “Não” tinha sido a minha resposta para a pergunta da agente Santos sobre meu contato recente com Tyla. Uma palavra, uma sílaba, tinha me encurralado. Daquele ponto em diante, eu estava preso a uma mentira.

— Porque eu vi que a agente Santos já tinha decidido que eu tinha alguma coisa com Tyla. Eu sabia que ia ser removido do caso baseado no que tinha acontecido dez anos atrás. Mas eu não queria que circulasse pelo escritório que fui tirado porque dormi com Tyla e traí Angelina. Isso nunca aconteceu, Carmen. Mas os rumores se tornam realidade, então escondi o jantar. Eu não imaginava que houvesse fotos.

— Ou registros telefônicos mostrando ligações para o seu celular do aparelho pré-pago de Tyla?

— Carmen, eu juro. Nunca recebi nenhuma mensagem de voz de Tyla, e nunca conversei com ela por telefone. Ontem à noite eu passei quase duas horas com minha operadora de celular tentando resolver isso. Não consigo obter nenhuma explicação de ninguém, mas ainda acho que tem alguma coisa a ver com o pré-pago que Tyla estava usando.

Ela recostou na cadeira e depois olhou pela janela.

— Você não deveria ter mentido, Abe.

— Eu sei. Me desculpe.

— Isso é uma confusão.

Eu não tinha como discordar.

— Posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— Como você conseguiu essas fotos?

— Elas estavam anexadas a um e-mail. Remetente anônimo de uma lan house. Mas tenho uma teoria.

— Posso saber qual é?

— O detetive Riddel e a agente Santos tiveram uma reunião com Brian Belter e Maggie Green na BB&L ontem. O número de Belter estava na lista de ligações do pré-pago de Tyla. Riddel tocou no assunto só para fazer um teste e ver se Belter e Tyla podiam ter mais do que uma relação profissional.

— É mesmo? — comentei. — O que eles conseguiram?

— Foi o estopim do incêndio — respondeu ela. — Como disse o detetive Riddel colocou muito habilmente, se você pergunta a um homem se ele é casado, e a resposta não é um simples “Sim”, mas “Sim, muito bem casado”, isso gera um alerta.

— Você acha que Belter mandou essas fotos para você?

— A sincronia chama atenção, você não acha? Fizemos um disparo para o lado deles; eles retaliaram? Eles têm acesso aos e-mails e à agenda de Tyla. Podia haver uma referência ao jantar com você. A BB&L com certeza tem os recursos para mandar um investigador checar a fita das câmeras de segurança do restaurante.

— Então o objetivo deles aqui é forjar uma aliança desconfortável de destruição mútua garantida: a promotoria ataca a BB&L; a BB&L ataca a promotoria.

— É o que estou supondo — disse Carmen.

Fiquei sentado em silêncio, pensando na situação em que me encontrava.

— Não posso nem começar a dizer o quanto eu sinto por isso.

— Você sabe que eu devia suspendê-lo, não é? Você mentiu para mim.

Balancei a cabeça.

— Por quanto tempo?

— Dois dias. Não remunerados.

Foi um alívio, na verdade.

— Obrigado.

— Para sua sorte, Abe, estou me sentindo misericordiosa. Eu sigo as regras por aqui, e até trouxe o RH ontem. Mas estamos fora dessas regras. Vou deixar o RH fora disso. Não vou suspender você.

Fiquei surpreso, mas grato.

— Obrigado.

— O que estou tentando dizer é que estou preocupada com você.

— Você não precisa se preocupar comigo — eu disse.

Carmen recostou o corpo, o olhar passeando pelo porta-retrato na mesa. Era seu finado marido. Um câncer no pâncreas o tinha matado em uma questão de meses.

— Depois que Sebastian morreu, as pessoas me deram um pouco de tempo para me recompor. Mas não demorou muito para começarem a perguntar: “Então, Carmen, quando você vai começar a namorar?”

— Me fizeram a mesma pergunta com a Samantha — respondi.

— Claro que sim. Não existe resposta certa, com exceção de: “Não comece até estar pronto.”

— É um bom conselho.

Carmen se inclinou para a frente, os olhos tomados de preocupação.

— Eu gostaria de ter dito isso para você há um ano. Mas sou sua chefe e não quis interferir. Fiquei de boca fechada. Me perdoe por falar agora, mas sempre tive medo que você começasse cedo demais. Eu sei que você e Angelina namoraram antes de você conhecer Samantha, que vocês têm uma história. Mas o luto leva tempo. Estou falando como sua amiga agora, não como sua chefe. Vejo Tyla como um sintoma de um homem perdido em meio ao luto.

— Eu não traí Angelina.

— Abe, eu não sou cega. Tyla é uma linda mulher. E se parece muito com Samantha.

Era verdade. Eu já tinha pensado nisso, mas era a primeira vez que ouvia da boca de outra pessoa.

— Não aconteceu nada, Carmen.

— Só escute o que estou dizendo. Você é uma boa pessoa. Você passou pelo inferno com a morte de Samantha e agora está ocupado com uma esposa nova, sem contar o seu cunhado em prisão domiciliar. Se você cometeu um erro, assuma. Não para mim, não é da minha conta. É entre você e Angelina.

Não respondi, mas entendi o que ela estava dizendo.

— Certo, a mamãe aqui acabou o sermão — disse Carmen com um sorriso fraco. — Vá dar uma volta, Abe.

— Obrigado — respondi, me levantando.

— Não precisa agradecer. Só não minta para mim de novo.

— Nunca mais — prometi.

E falei sério.