Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 21 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo vinte e um

 

 

A agente Santos compareceu ao velório de Tyla, mas ninguém nunca saberia. Era como ela queria. O disfarce não era elaborado, e com certeza não parecia em nada com o que uma agente usaria para uma operação secreta. Mas a peruca loira, o chapéu que combinava com o serviço fúnebre e a discrição foram suficientes para impedir qualquer um de reconhecê-la. Até Abe Beckham tinha passado direto. Andar pelo salão, sem que ninguém soubesse que ela era uma agente do FBI, era uma forma excelente de captar comentários soltos que de outra maneira não seriam compartilhados com as autoridades — alguma verdade não embelezada sobre Tyla ou sobre alguém que ela conhecia que pudesse ajudar a pegar um serial killer. Podia ser um amigo manifestando suas suspeitas sobre um ex-namorado dela. Ou talvez um parente se perguntando em voz alta sobre um primo que gostava um pouco demais de Tyla.

Pelas estimativas de Victoria, a cerimônia tinha atraído quase setecentas pessoas. Era de se esperar, considerando a morte trágica de uma mulher tão jovem e bem-sucedida, sócia de um escritório de advocacia de prestígio, morta de um jeito tão absurdo. Em algum momento Victoria tinha olhado para todos eles. A maior parte das pessoas era da BB&L ou de outros escritórios de advocacia importantes, muitos estavam tristes ou até tomados pela dor.

Alguns estavam ali puramente por obrigação profissional, assinando o livro de presença, oferecendo condolências para a família e saindo antes das eulogias. Um terceiro grupo não tinha nada a ver com a vida de Tyla na BB&L. Convidados mais velhos consolavam os pais dela, sentados no sofá para descansar os pés inchados. Outros estavam presentes por causa dos dois irmãos mais velhos de Tyla. Outros, ainda, mal conheciam qualquer um dos presentes, não estavam falando com ninguém, talvez velhos amigos dos tempos de escola ou do bairro onde ela tinha crescido, e que perderam contato com ela anos antes, mas sentindo a perda mesmo assim.

O interesse de Victoria não estava em nenhum deles, mas não porque não se importasse. Ela procurava um lobo solitário em meio à multidão. Por causa de sua experiência, tanto em Quantico quando no trabalho de campo, ela sabia que, em se tratando de serial killers, os estereótipos eram, muitas vezes, verdadeiros. Voltar para a cena do crime aumentava a excitação, ajudava na caça, até mesmo comparecer ao funeral e visitar o túmulo da vítima poderia estimular o assassino. O velório das vítimas anteriores do Cortador tinham sido bem pequenos, e teria sido arriscado demais para um estranho aparecer do nada. O caso de Tyla era bem diferente. Se fizesse parte de seu perfil psicológico, o Cortador faria uma aparição.

Victoria se afastou da multidão e encontrou um canto atrás de um arranjo de margaridas e crisântemos brancos, onde fez contato com a polícia local, que estava monitorando o estacionamento. Ela não estava usando um microfone, mas mandar uma mensagem de texto era uma maneira menos óbvia de se comunicar com um policial uniformizado naquela situação.

Alguma coisa?, escreveu ela.

A resposta chegou em menos de um minuto: Fique de olho no sujeito de terno azul barato e tênis All Star. Parece um pouco suspeito.

Victoria já tinha reparado nele. Era o chefe um pouco excêntrico do departamento de litígio comercial da BB&L, um dos advogados mais bem-cotados dos Estados Unidos, conhecido por aparecer no tribunal usando ternos amarrotados e tênis. Fazia parte de seu apelo com o júri.

Eu conheço. Não é um suspeito, respondeu ela.

A família se sentou na primeira fileira. A maior parte dos presentes tinha se acomodado, e os retardatários estavam ocupando os poucos assentos restantes. A única opção era ficar de pé, e Victoria deu uma última volta pelo salão, fingindo procurar um lugar para sentar perto de alguém conhecido, procurando um assassino que ela estava louca para conhecer. Sua busca a levou para o fundo da sala. Nenhum suspeito. Ela entrou no lobby e conferiu as mensagens dos policiais. Nada. As portas estavam fechadas, e a agente era a única pessoa ali quando o alto-falante no teto vibrou com a voz de um pastor.

— Que o Senhor esteja convosco — disse ele com a voz solene.

Victoria rezou com eles, ainda que da sala ao lado, mas saiu antes da primeira eulogia. A temperatura tinha caído desde o entardecer, e o ar fresco da noite era reconfortante. A área ao redor da funerária parecia mais residencial do que comercial, e muitos dos comércios das adjacências ficavam em terrenos grandes, que costumavam ser residências familiares. Era uma noite sem lua, e a densa cobertura de carvalhos de galhos largos e os muitos flamboyants transformavam o bairro em uma floresta suburbana e escura. Havia centenas de carros estacionados enfileirados na rua, mas a polícia estava redirecionando o trânsito para as ruas perpendiculares dos dois lados, então tudo estava totalmente tranquilo. Assustadoramente tranquilo.

Victoria parou na varanda e olhou para a escuridão, absorvendo tudo. Um casal jovem veio correndo pela calçada, obviamente atrasado. Ela abriu a porta e os deixou passar. Além da viatura que monitorava o terreno principal, havia muito pouca coisa em que prestar atenção. Um ou outro movimento nas folhas por causa da brisa. Um coro de grilos ao longe. E um pequeno ponto laranja brilhante no estacionamento lotado do outro lado da rua.

O que era aquilo?

Victoria apertou os olhos, tentando enxergar melhor. O ponto laranja ainda estava lá, mas parecia ter se movido muito de leve. Alguém estava fumando.

Jeffrey Dahmer era um fumante compulsivo. Assim como muitos dos outros serial killers que ela tinha estudado e analisado.

Ela mandou uma mensagem para um dos policiais ali fora, alertando para que ele fosse ver o ponto laranja, mas, antes que pudesse apertar o botão enviar, o ponto laranja desapareceu.

— Merda!

Victoria desceu os degraus às pressas e correu direto para o policial no estacionamento. Ninguém queria um escândalo no velório de Tyla, mas ela precisava confiar em seus instintos. Muitas viaturas estavam na área para controlar o trânsito, mas ela não tinha ouvido nenhum motor dando a partida nem faróis se acendendo depois que o cigarro foi apagado. Ela pegou o rádio do policial e mandou o melhor alerta que conseguiu articular.

— Interceptar a figura a pé saindo do estacionamento da Seaver. Ainda não temos a identidade. Com certeza é fumante, então pode estar cheirando a cigarro ou estar portando um maço.

— Um fumante? — perguntou o guarda ao lado dela. — É tudo o que você sabe?

— É tudo o que vamos saber se você não ajudar. Vá!

Victoria ficou com o rádio dele, empunhou sua própria arma e atravessou a rua correndo até o estacionamento. O policial foi para a esquerda, se aproximando por outra entrada. Uma das viaturas de trânsito parou, as luzes piscando. Dois policiais desembarcaram. Um acendeu a lanterna e percorreu o estacionamento, enquanto o outro procurou entre as fileiras de veículos, arma empunhada. Em um mar de carros, a polícia era o único sinal de movimento. Um deles deu a volta até Victoria e perguntou:

— O que você viu, exatamente?

— Alguém fumando um cigarro, parado por ali. Observando.

O policial tinha um pouco de experiência e pareceu entender o significado de um homem parado no escuro observando o funeral de uma jovem do outro lado da rua. Ele acionou o rádio e reiterou a mensagem anterior.

Victoria respirou fundo, grata pelo reforço do policial, mas ciente de que a janela de oportunidade estava se fechando. O ponto laranja tinha desaparecido, assim como o fumante. Não havia muito a fazer. Naquele momento, a menos que o sujeito fosse burro o bastante para ser pego correndo pela rua com um cigarro aceso na mão, era improvável que nenhum controle do perímetro na vizinhança pudesse ajudar.

— Veja isso — chamou outro policial.

Ele estava apoiado em um joelho, a lanterna iluminando um trecho preto de asfalto atrás de um carro estacionado. Cinzas não forneceriam DNA da saliva nem nada com que ela pudesse trabalhar. Mas havia esperança.

— Procure bitucas de cigarro, em tudo, no estacionamento inteiro. — Victoria levantou, olhando do outro lado da rua na direção da funerária lotada. — Um erro. É tudo o que precisa acontecer. E vamos encontrar esse sujeito.