Uma Mulher Perfeita
Capítulo quarenta e nove
Mãozinha soluçou e chorou, me implorando para deixá-lo ir, até que a viatura da polícia de Miami-Dade chegou e o colocou no banco de trás. Segui atrás no meu carro até a delegacia. Rid nos encontrou lá, mas imediatamente me excluiu do processo. Encontrei um banco no corredor e esperei do lado de fora da sala de interrogatório enquanto Rid e outro detetive faziam seu trabalho. Pouco antes de uma da manhã, a porta se abriu, e meu amigo veio até mim.
— Mãozinha não faz ideia do que aconteceu com Angelina — avisou ele.
Era difícil saber se isso era boa ou má notícia.
— Tem certeza?
— Existem detetives mais antigos por aí, Abe. Mas estou neste trabalho há um tempo. Tempo suficiente para saber. Mas não me entenda mal. Ele não vale nada.
— Quero saber.
— Ele é um agressor sexual registrado no estado de Nova York. Foi seu último endereço conhecido.
— Qual foi o crime?
— Múltiplos atos de má conduta sexual. Pelo jeito, Mãozinha é um grande fã de futebol feminino adolescente. Contanto que possa ficar do outro lado da cerca e se masturbar.
Finalmente, uma explicação definitiva para o apelido. Não me deixou exatamente tranquilo.
— Mas se existe um histórico de má conduta sexual, ele não se torna ainda mais suspeito?
— Abe, a situação é a seguinte: sua mulher e o anel de Samantha desapareceram, mas não há sinal de arrombamento na sua casa. Uma possibilidade é que o culpado fosse alguém conhecido e que Angelina o tenha deixado entrar.
— Ou ele morava lá — completei. — A teoria da agente Santos.
— Certo — continuou Rid. — Ou ele era um estranho e tinha a chave. É por isso que estamos verificando cada estacionamento possível onde Angelina possa ter deixado o carro no último mês, para ver se alguém fez uma cópia da chave. Mãozinha não se encaixa no perfil de alguém que poderia colocar as mãos na chave da sua casa, quanto mais alguém capaz de encontrar o anel de Samantha e de fazer sua mulher desaparecer, tudo sem deixar nenhum tipo de evidência.
— Então como ele conseguiu o anel?
— Não sei.
— Ele disse que foi com Angelina.
— É a versão dele, e Mãozinha não está arredando o pé — disse Rid. — Ele obviamente está mentindo, protegendo um amigo, ou com medo de dar nomes.
— É tão óbvio assim que é mentira?
— Para mim é.
Fui até o banco, tentei sentar, mas minha mente estava em disparada. Voltei para onde Rid estava.
— Não é possível que ele tenha conseguido o anel com Angelina?
Ele suspirou, irritado.
— Abe, acabei de descrever os cenários prováveis: alguém que ela conhecia ou um estranho que tinha a chave.
— E os cenários improváveis? — Fiz uma pausa, tomando o cuidado de formular a frase direito. — E se ela tiver ido embora?
— Simplesmente ido embora? No meio da noite. Puf. É isso que você está dizendo?
— É.
— Por que ela faria isso?
— Para me ensinar uma lição.
Rid bufou.
— Abe, você precisa dormir.
— Estou falando sério, Rid. Me escute. Sempre incomodou Angelina que eu estivesse apegado à memória de Samantha. De repente, ela desaparece, e a única coisa que está faltando na minha casa são as joias de Samantha, incluindo o anel de noivado, que foi vendido em uma loja de penhores em Little Havana por uma fração do valor. Isso não é mandar uma mensagem: “Tire essa porcaria da minha casa”?
— Abe, foi uma semana difícil. Você está muito cansado.
— E, para completar, o anel de Angelina estava na cômoda. Que ladrão subiria até a última prateleira do meu closet para pegar os anéis de Samantha, mas deixaria outros muito mais acessíveis bem na cômoda?
— Tudo bem, é estranho, eu concordo. Mas deve haver uma explicação melhor do que Angelina tentar ensinar uma lição para você.
— Nada que me ocorra, e tenho pensado muito sobre isso. A própria Angelina me disse isso uma vez: que eu sentiria sua falta quando ela não estivesse mais aqui. Que eu lhe daria valor.
Uns dois policiais passaram por nós no corredor. Rid esperou ele desaparecerem e balançou a cabeça para mim.
— Abe, pare com isso. Você está torcendo para sua mulher estar viva e em segurança. É natural. E a ideia de que Angelina tenha levantado e ido embora é um cenário muito melhor do que algumas das outras possibilidades que devem estar passando pela sua cabeça. Mas não comece a espalhar essa teoria com mais ninguém além de mim.
— Por que você está sendo tão intransigente?
— Porque, se você não estivesse em choque e privado de sono, eu diria que é a coisa mais egocêntrica que algum homem já afirmou.
— Do que você está falando?
— Em primeiro lugar, é uma loucura dizer que sua mulher desapareceu só para fazer você lhe dar mais valor. Sei que Angelina é geniosa, e que ela já quebrou seu nariz quando você a trocou por Samantha, mas a menos que existisse alguma coisa muito abusiva entre você dois…
— Não existe — eu interrompi.
— Tudo bem, não existe. Mas, para seguir o raciocínio, digamos que Angelina é a maluca mais descompensada do quarteirão e tem um lado maligno. Você viu os pais dela na TV à noite. Sei que você viu a mãe dela praticamente desabar diante da câmera. A ideia de que Angelina pudesse fazer isso com os próprios pais só para ensinar uma lição para você é… Abe, é…
Eu poderia ter esperado Rid terminar o raciocínio, mas não era necessário.
— Impensável? — sugeri.
— É o que eu diria.
Eu também. Talvez eu precisasse dormir.
— Certo. Isso é válido. Mas continuamos tendo o fato de que o anel foi parar com Mãozinha. Mostrei a foto de Angelina no meu celular. Ele admitiu que pegou o anel com ela. E disse a mesma coisa para você.
— Disse, mas…
— Mas o quê?
Rid me pegou pelo braço e me levou para a sala de interrogatório.
— Venha comigo.
— Para quê?
— Quer saber por que é mentira que Mãozinha pegou o anel direto com a sua mulher? Vou mostrar.
Ele abriu a porta, e nós entramos. Mãozinha estava sentado na mesa de frente para o outro detetive de Miami-Dade. E se encolheu ao me ver, a lembrança da nossa “discussão anterior” ainda fresca. Parei no canto perto da porta. Rid foi até o outro lado da sala e se inclinou sobre a mesa, olhando para Mãozinha. Havia um envelope de papel pardo sobre a mesa. Rid o abriu. Eu não conseguia ver o que havia dentro e, até Rid fazer uma pergunta para Mãozinha, eu não sabia que era uma foto.
— Foi essa a mulher que pediu para você penhorar o anel?
Mãozinha assentiu, rápido, nervoso.
— É, é ela. Essa é a mulher.
Rid guardou a foto, pegou o envelope e me levou de volta para o corredor, fechando a porta. Em seguida, ele me mostrou a fotografia.
Pisquei, confuso.
— Parece a Charlize Theron.
— É a Charlize Theron. Mãozinha disse a mesma coisa quando mostramos uma foto de Reese Witherspoon quinze minutos atrás. E de Kirsten Dunst dez minutos antes disso. Todas elas são loiras lindas, assim como sua mulher na foto do celular, e todas pediram para que ele penhorasse o anel.
Qualquer coisa que ainda restava dentro de mim logo se esvaiu — toda a empolgação de uma pista concreta, toda esperança de uma descoberta na investigação.
— Mas é claro que ele conseguiu o anel com alguém.
— Com alguém. Mas não com Angelina. Se você quer a minha opinião.
Olhei para o relógio na parede. Eram quase duas da madrugada.
— Está tarde — eu disse.
— Vá dormir um pouco — aconselhou Rid. — Você tem um teste de polígrafo em sete horas.
Respirei fundo e deixei todo o ar sair.
— Pois é. Talvez desta vez seja melhor eu estudar.