Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 48 de 67

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Uma Mulher Perfeita

Capítulo quarenta e oito

 

Eu deveria ter ido deitar, mas dormir estava fora de questão.

Parte de mim queria ir falar com Luther e perguntar o que tinha acontecido com o facão. Havia dois problemas nisso.

Um: ele com certeza estava dormindo àquela hora. Dois: ele provavelmente não se lembrava disso. Pelo que eu sabia, ele tinha perdido a memória enquanto trabalhava com jardinagem quando Truman era presidente.

Tenha uma boa noite de sono. Esse tinha sido o conselho de Carmen. Eu ia fazer o teste de polígrafo pela manhã, um teste com perguntas “melhores”. Eu precisava estar descansado e pronto. Mas estava cansado de outras pessoas ditarem minhas necessidades.

A segunda-feira tinha chegado fazia uma hora e meia quando cheguei a Little Havana. Parei depois da Pawn 24 que, claro, estava aberta. Da calçada, pelas barras de ferro e pelo vidro grosso da vitrine, eu podia ver Manny com um cliente no balcão. Eles estavam negociando sobre o valor de “empréstimo” de um relógio de pulso roubado ou algo assim. Não entrei. Manny e o tio já tinham nos dado toda ajuda que estavam dispostos a dar. Manny tinha visto dúzias de fotos da delegacia, e nenhuma delas era do sujeito que tinha vendido o anel de Samantha. A polícia tinha percorrido as ruas por horas e perguntado a todos os desabrigados do bairro sobre o anel. Nada. O problema era que a polícia tinha feito sua busca à tarde, não depois da meia-noite, quando a venda foi feita. Tinham me dito para deixar a investigação para eles, mas tínhamos passado das primeiras 48 horas desde que Angelina tinha desaparecido e não tínhamos pistas. Minhas opções eram ficar deitado na cama acordado ou fazer alguma coisa. A decisão foi fácil.

— Ei, você tem um segundo? — perguntei ao primeiro sujeito que vi.

Ele estava parado na entrada recuada de uma farmácia que tinha fechado à meia-noite, montando sua cama de papelão.

— Suma — ele grunhiu. — Este canto é meu.

Dei um pouco de dinheiro ao homem e mostrei uma foto do anel de Samantha no meu iPhone.

— Sabe de alguém vendendo um anel igual a esse?

— Não.

Mostrei uma foto de Angelina.

— Estou procurando essa mulher.

Ele olhou mais de perto, como se de fato quisesse ajudar, e se afastou.

— Não perca seu tempo. Pior boquete da minha vida.

Não ia ser fácil. As seis conversas seguintes foram ainda menos produtivas, e não só porque meu espanhol era risível. O sétimo pegou meu celular. Consegui não tirar a mão do aparelho, mas ele não quis soltar até eu jogá-lo no chão.

— Cretino! Por que você me entregou o celular se não quer que eu fique com ele?

Ele ficou no chão, o que me fez sentir ainda pior. O homem me lembrava um pouco de JT. Eu estava voltando para o meu carro quando vi uma mulher do lado de fora de uma loja de charutos. O mundo dela estava embalado em um saco de lixo verde dentro de um carrinho de supermercado que ela empurrava pela calçada.

— Posso fazer uma pergunta?

A mulher parou, parecendo surpresa que eu estivesse falando com ela. Mostrei a foto do anel e fiz a mesma pergunta que fiz aos outros.

— Mãozinha vendeu esse anel — disse ela.

Minha vez de ficar surpreso.

— O que você disse?

— Meu amigo Mãozinha vendeu um anel de diamante igual a esse.

— Quando?

— No fim de semana. Quinhentos dólares. Ou foi o que ele disse. O bosta não me deu nem dez centavos, então chamei ele de mentiroso.

Meu coração começou a bater mais forte.

— Seu amigo é perigoso?

— Se você fosse perigoso, iria deixar as pessoas chamarem você de Mãozinha?

Fazia sentido, mas ele também não parecia o principal suspeito no desaparecimento da minha esposa.

— Como eu encontro o Mãozinha?

Ela levantou uma sobrancelha, negociando.

— Você quer muito encontrar o Mãozinha?

— Dou dez dólares para você.

Eu não queria parecer ansioso demais.

— Eu não diria em que cidade ele está por dez dólares.

Dane-se parecer ansioso.

— Então quanto?

— Cinquenta. Levo você para onde ele dorme.

— Vinte para me levar para o canto dele — negociei, tirando a nota da carteira. — Cinquenta se Mãozinha estiver mesmo lá.

Ela arrancou os vinte da minha mão.

— Feito.

Eu me ofereci para empurrar o carrinho, mas ela teria preferido cortar um braço a aceitar. Podia ser o meu braço. A mulher foi na frente, e fui atrás ouvindo o barulho das rodinhas na calçada rachada. Aquele trecho da Calle Ocho era mão única e ficava a alguns quilômetros do centro de Miami, mas seguimos nessa direção. Andamos por cinco quarteirões e, quando a viagem começou a parecer inútil, ela parou do lado de fora do supermercado El Presidente. Do outro lado da rua havia um terreno baldio. Uma enorme placa de “Vende-se” indicava que ele funcionaria tanto para fins comerciais quanto residenciais, “aprovado para 323 unidades”. Meu olhar foi além da cerca de corrente, em direção ao fundo do terreno, onde os sem-teto tinham decidido não esperar que as unidades aprovadas fossem construídas.

— Mãozinha está ali — afirmou a mulher.

— Você precisa me mostrar quem é se quiser seu dinheiro — avisei.

— Muquirana — murmurou a mulher.

Atravessei a rua atrás dela, que sabia exatamente onde estava a abertura não autorizada na cerca, que era grande o bastante para acomodar seu carrinho. O chão estava lotado, trechos de grama e mato aqui e ali. As escavadeiras tinham deixado algumas árvores em pé no fundo do terreno, e quando mais nos afastávamos da rua, mais desabrigados apareciam. Havia casas de papelão atrás das árvores. Pedaços de plástico serviam de cobertor. Um cheiro pungente de urina vinha de trás das moitas. Se eu apertasse os olhos, transformando a noite em uma filmagem em preto e branco granulada, parecia uma cena de Vinhas da Ira.

Bem no fundo do terreno havia diversas mesas de piquenique, imagino que roubadas de um parque próximo e trazidas para cá para servir de abrigo. Nós nos afastamos mais da iluminação da rua, mas sob o luar vi a silhueta de um homem deitado no chão, embaixo de uma das mesas.

— É ele — disse a mulher.

Comecei a me aproximar da mesa, mas ela me parou.

— Você me deve trinta dólares.

Cumpri o acordo.

— Mais dez se você fizer uma boa apresentação.

A mulher sorriu, pegou a nota de dez, e gritou na escuridão:

— Ei, cretino! Tem um idiota aqui que quer falar com você!

Então guardou o dinheiro em um de seus muitos bolsos e saiu empurrando seu carrinho de volta para a Calle Ocho. O homem se mexeu e se sentou, mas não saiu de baixo da mesa de piquenique.

Fiz uma avaliação rápida. Eu sabia que não estava lidando com o Cortador, um serial killer com os meios para dispor de múltiplas vítimas nos canaviais do condado de Palm Beach a mais de 140 quilômetros de distância e evitar ser pego por mais de dois meses. Em teoria, ainda era possível que esse fosse o homem que levou minha esposa e talvez até a matado. Mas alguma coisa me dizia que se Mãozinha de fato fosse o responsável pelo penhor, o anel de Samantha tinha chegado a ele por outra pessoa, talvez até uma terceira. Segui meus instintos e levei em conta essa premissa.

— Posso falar com você? — perguntei, me aproximando.

— Fique onde está!

Parei a alguns metros. Devagar, abaixei o corpo até ficar agachado. Estávamos no mesmo nível, mas, nas sombras embaixo da mesa, o rosto dele mal estava visível.

— Sua amiga disse que você vendeu um anel de diamante no fim de semana.

— Ela não é minha amiga.

Mãozinha não negou a venda.

— Você pode me dizer onde conseguiu o anel?

— Você pode ir se foder?

Mãozinha de fato era um cretino.

— Escute, amigo. Não sou um policial. Não estou aqui para causar problemas para você. Só preciso de umas informações.

Ele não respondeu, e eu continuava sem conseguir ler seu rosto. Mãozinha estava encoberto pela escuridão completa sob a mesa, as árvores em volta.

— Só me diga como você conseguiu o anel — pedi. — Eu pago pela sua ajuda.

— Quanto?

Meu dinheiro estava acabando.

— Vinte dólares.

— Cem.

— Não tenho esse tanto comigo.

Não era mentira.

— Fico com o seu telefone.

— Não posso dar meu celular para você.

— Então não posso ajudar.

Paciência, eu disse a mim mesmo, mas a raiva estava surgindo de algum lugar bem profundo, irreversível.

— Me diga onde você conseguiu o anel — insisti.

Era uma voz tão ameaçadora que eu mal reconheci como minha. Era um aviso, mesmo que ele não pudesse ver a raiva nos meus olhos.

— Me dê seu celular.

— Não tenho celular.

— Todo mundo tem.

Abri a carteira e peguei todo o meu dinheiro.

— Dou sessenta dólares para você.

— E o celular.

Em outra noite, eu teria feito o jogo dele ou, pelo menos, chamado uma viatura e feito isso de acordo com o protocolo. Mas minha mulher estava desaparecida e, depois do assassinato de Tyla, a prisão domiciliar de JT e uma montanha de incômodos da agente Santos, algo se rompeu. Eu o ataquei, agarrando-o pela camisa e o tirei de baixo da mesa. Mãozinha era muito menor do que eu e, rapidamente, ele foi dominado por mim e estava virado para baixo. Eu estava sentado nos rins dele, minha mão em sua nuca, forçando sua testa no chão.

— Não me machuque! — ele implorou.

Agarrei seu cabelo sujo e puxei sua cabeça para trás.

— Você quer meu telefone? — perguntei com uma voz furiosa. — Aqui está. Olhe, seu filho da puta. Olhe para essa foto!

Continuei segurando a cabeça dele, o celular na minha mão livre. O retrato de Angelina estava diante dos olhos de Mãozinha.

— Olhe para ela! O que você sabe sobre essa mulher?

Era uma ordem, não um pedido. Ele não respondeu. Afundei o rosto dele na terra e então puxei a cabeça para trás até ele conseguir ver a foto de Angelina de novo.

— O que você sabe? — eu gritei.

— É ela — disse Mãozinha.

— Quem?

— A mulher que me pediu para penhorar o anel.

— Não minta para mim!

— Não estou mentindo! Ela disse que se eu entrasse na loja e vendesse o anel, podia ficar com cinquenta dólares.

— É mentira.

— É verdade!

O corpo dele tremia sob o meu peso. Puxei o cabelo com mais força.

— Não se atreva a mentir para mim!

O corpo de Mãozinha não estava mais tremendo. Eram ondulações sísmicas, a diferença entre 5.0 e 7.0 na escala Richter. E ele chorava incontrolavelmente.

— Não estou mentindo! Era ela. É a mulher!

Senti minha força diminuir e o cabelo escorregar pelos meus dedos. O queixo de Mãozinha caiu, ele chorava na terra. Levantei e parei diante dele, sem saber o que pensar.

— Se eu descobrir que você machucou a mulher da foto…

— Eu nem encostei nela! Só vendi a porcaria do anel.

Eu queria chamá-lo de mentiroso, um mentiroso completo, mas minha cabeça estava girando, e a acusação não veio. Peguei Mãozinha pelo colarinho e o obriguei a ficar de pé.

— O que você está fazendo, cara?

Continuei segurando a camisa, forçando-o a andar comigo.

Ele estava quase correndo para me acompanhar quando atravessamos o terreno baldio e saímos pela abertura na cerca. Mãozinha estava com medo demais, cansado demais e era covarde demais para resistir.

— Aonde você está me levando?

Não respondi, mas estávamos a menos de dois quarteirões da Pawn 24. Eu já tinha visto Manny pela vitrine, então sabia que ele estava trabalhando. Demorei menos de um minuto para chegar, mesmo arrastando Mãozinha. Toquei a campainha. Manny atendeu a porta, mas não esperei até ele destrancar. Enfiei o rosto de Mãozinha contra o vidro e, com a outra mão, mostrei meu distintivo. Manny pareceu assustado por um instante, mas me reconheceu da outra manhã.

— Foi ele? — gritei. — Foi ele que vendeu o anel?

O rapaz tatuado observou o rosto pelo vidro. Só levou alguns segundos. Em seguida, ele assentiu.

— Eu devolvo o dinheiro para você — disse Mãozinha. — Mas não me machuque, ok?

Eu o arranquei da vitrine e o fiz sentar na calçada.

— Não se mexa — avisei, enquanto ligava para Rid. — Vamos descobrir que diabo está acontecendo.