Uma Mulher Perfeita
Capítulo cinquenta
Dormi três horas, mas não mais do que isso. Eu podia ter ficado na cama e olhado para o teto do JT por mais duas horas. Em vez disso, levantei, tomei banho e fui até a casa de repouso Sunny Garden.
Luther acordava cedo, e cada ano antecipava uma hora em seu relógio interno. Seis da manhã, sem problema. Aliás, era praticamente hora do almoço para ele. Quando entrei em seu quarto, Luther estava sentando em uma cadeira perto da janela, totalmente desperto e vestido, a camisa de flanela abotoada até o pomo-de-Adão. Ainda melhor, ele estava lúcido.
— Veja só, é o sr. Lincoln.
— Não precisa se levantar.
— Não se preocupe.
Sorri como se nada estivesse errado e, na cabeça de Luther, não estava. Eu não tinha mencionado nem uma palavra sobre Angelina, e meu sogro era a antítese do maníaco por notícias. Se não aparecesse na ESPN, não existia.
Puxei outra cadeira.
— Como você está, meu velho?
— Velho. É basicamente isso.
Era mesmo. Metade do tempo ele não conseguia lembrar que eu tinha me casado de novo, então, mesmo nas melhores circunstâncias, qualquer menção a Angelina era confusa para ele. Uma conversa sobre seu desaparecimento com certeza acabaria mal. Depois que Samantha morreu, eu me perguntei quanto tempo levaria até o próximo funeral, imaginando que seria o de Luther. De jeito nenhum eu achei que seria da minha segunda esposa.
Um barulho veio do corredor, bem do lado de fora do quarto de Luther. Torci o pescoço para espiar e vi os paramédicos empurrando uma maca do quarto. Um lençol branco cobria o corpo. Fui fechar a porta, mas Luther me fez parar.
— Perdemos alguém? — perguntou ele.
— Pelo jeito. Do outro lado.
— Oh, é a Barbara. Triste, triste, triste. Não era a hora dela.
— Quantos anos ela tinha?
— Noventa e quatro.
Desviei os olhos e voltei a encará-lo.
— Sem querer ofender, Luther, mas ela tinha 94 anos. Não era a hora dela?
— Eu sei como você pensa. Ela é velha. Está pronta. Mas não estava. Não estava pronta, quero dizer.
— Ela queria chegar aos cem?
— Não, não. Barbara desejou a própria morte cinquenta anos atrás.
— Ela fez o quê?
Luther se inclinou para a frente e me olhou nos olhos, ainda que um dos olhos meio que estivesse virado para outra direção.
— Preste atenção, rapaz. Existe uma diferença entre querer morrer e estar pronta para morrer.
Pensei no assunto e decidi que o que ele estava dizendo fazia sentido.
— Por que ela não estava pronta?
— Pela mesma razão por que desejava estar morta. Coração partido.
— Como o coração dela se partiu?
Luther recostou e cruzou os braços.
— Não faço ideia.
— Então como você sabe?
— Sou tão velho quanto Noé. Eu reconheço um coração partido quando vejo um. Sim, senhor. Aquele coração parou de bater ontem à noite. Mas Barbara morreu muito tempo atrás.
— Que triste.
— Não tem nada mais triste. — De novo ele se aproximou, dessa vez, levantando um dedo para deixar uma coisa clara. — Você sabe o que eu sempre digo, não sabe, Abe?
Meneei a cabeça.
— Morrer não é uma vergonha.
E então Luther concluiu:
— Mas é uma pena morrer por causa de um coração partido.
Eu podia ter começado a divagar nesse momento, deixar minha mente voltar para a primeira vez que ouvi Luther falar de corações partidos. Mas me recusei a fazer isso.
Ele apontou para a jarra sobre a bandeja.
— Você pode me servir um copo d’água?
— Claro.
Levantei e enchi o copo. A cena me fez pensar na conta que ele tinha com a Companhia Nacional de Açúcar, como estava registrado nas fichas de controle e nos canhotos de setenta anos que eu tinha acabado de ver no depósito. A empresa tinha cobrado dele por uma água que não era suja demais para beber, parte dos 19 dólares que Luther devia ao fim da primeira semana cortando cana.
— Luther, nós já conversamos sobre seus dias cortando cana?
Ele firmou o copo e tomou um gole.
— Provavelmente não.
— Você se importa se eu perguntar sobre isso?
— O que você quer saber?
— Encontrei uma caixa que Samantha guardou. Tinha algumas coisas de quando você era cortador de cana.
Os olhos dele se iluminaram de leve, não por causa das lembranças dos canaviais, mas por causa da menção ao nome de sua filha.
— Samantha dizia que aquelas coisas deviam estar em um museu. Acho que ela nunca encontrou nenhum interessado.
— Acho que não. Ainda está tudo lá — comentei, parando por um segundo antes de falar do que de fato importava. — Menos o facão.
— Meu facão de corte não está lá?
— Não. Todo o resto. Menos a faca.
— Raios, eu paguei um dólar e cinquenta por aquela faca. Mais cinquenta centavos pelo amolador.
Isso me fez pensar no comentário de JT: se Luther comprou, então ele guardou.
— Luther, quero que você pense com cuidado. Quando foi a última vez que você viu seu facão?
— Nossa, não sei.
— Foi quando você cortava cana para a Companhia Nacional de Açúcar? Só quero saber se você o trouxe para casa do canavial.
— Ah, eu tenho certeza. Se alguma coisa valia a pena guardar, era aquela faca.
— Certo, isso me ajuda. Agora pense antes de responder: você guardava o facão junto com todas as outras coisas dos seus tempos de cortador de cana?
— Não vejo essas coisas há anos, Abe.
— Eu sei. Faz muito tempo. Mas é importante. É possível que você guardasse o facão em outro lugar? Numa caixa de ferramentas? Num galpão?
— É possível, acho.
— Ele pode ter se perdido? Ou ter sido jogado fora? Talvez alguém tenha roubado?
— Quando?
— Tanto faz.
— Merda, Abe. Estamos falando de mais de setenta anos.
— Eu sei — respondi, meu tom mais urgente do que eu pretendia. — Mas eu preciso saber: é possível?
— Abe, claro que é possível. Isso foi antes da Segunda Guerra. Quem sabe onde aquela faca foi parar? Pode estar em qualquer lugar.
Sentei e respirei fundo. Era o melhor que ele podia me oferecer, e era a realidade da situação, quer eu gostasse ou não.
— Você tem razão — eu disse. — Em qualquer lugar.