Uma Mulher Perfeita

James Grippando · Capítulo 15 de 67

Páginas do PDF

Uma Mulher Perfeita

Capítulo quinze

 

 

O apartamento de JT ficava a uma viagem curta de carro da minha casa. Nossa conversa por telefone claramente o tinha deixado confuso, então liguei enquanto dirigia para explicar o que estava acontecendo.

— Que secretária eletrônica? — perguntou ele.

JT não fazia ideia, o que não me surpreendeu. Fazia mais de um ano que ele morava no nosso antigo apartamento e só tinha aprendido a mexer na cafeteira há pouco tempo. Nada de computador. Ele iria se lembrar de uma secretária eletrônica?

— Na verdade, eu não confio nesses aparelhos — disse meu cunhado.

Eu nem perguntei.

A secretária eletrônica estava ligada ao telefone fixo no balcão da cozinha. Era uma máquina jurássica, mas eu tinha mudado muito pouca coisa que Samantha e eu tínhamos compartilhado, então ela continuou ali. A memória digital estava totalmente cheia. Você tem 87 novas mensagens, a voz mecânica me informou.

JT realmente nunca tinha visto aquilo. A mais recente tinha mais ou menos um mês. A “nova mensagem” mais antiga datava de mais de um ano, o primeiro dia dele no apartamento. Eu devia ter começado da mais recente para trás. Em vez disso, eu me aventurei no território mais perigoso de todos: mensagens antigas que já tinham sido ouvidas, mas não apagadas, mensagens de Samantha para mim. Algumas eram aleatórias, apenas o som da voz dela. “Abe, por que você não está atendendo seu celular? Me ligue.” Outras me fizeram sorrir até os dedos dos pés: “São onze horas, sabe onde sua esposa está? No trabalho. Desculpe, querido. Não me espere acordado.” Uma deixou meu coração apertado. “Oi, amor, você está em casa? Sou eu. Atenda se estiver ouvindo…”

E então veio a facada no meu peito. “Abe, odeio fazer isso, mas você pode mudar nossa reserva para amanhã à noite? A dra. Berch quer me levar até Jackson para alguns exames, e sete da noite é o único horário que o laboratório consegue me encaixar esta semana. Tenho certeza de que não é nada, mas a dra. Berch está tão nervosa que conseguiu me deixar tensa. Vou compensar. Eu prometo. Eu amo você. Feliz aniversário de casamento.”

Lá estava: a médica chata pedindo um monte de exames que marcariam o começo de uma longa e dolorosa jornada sem volta. O engraçado era que, na primeira vez que ouvi a mensagem, acreditei em Samantha e concordei que provavelmente não seria “nada”. Algumas semanas depois eu estava lendo vários sites sobre câncer, aprendendo que mamografias costumavam não detectar muita coisa em mulheres com tecidos mais densos e rezando para que Samantha não fosse mais um número na terrível estatística de que mulheres negras tinham o dobro de chance de desenvolver câncer de mama triplo negativo e o dobro de chances de morrer antes dos quarenta. Sabendo disso tudo, e sabendo como a história terminava, eu podia ouvir a preocupação na voz de Samantha ao ouvir a antiga mensagem na nossa secretária eletrônica. Ela sabia que alguma coisa estava errada. Tão errada que tinha cancelado nosso jantar de aniversário de casamento.

“Sou eu de novo, Abe.”

Fiquei paralisado. A voz de Tyla Tomkins estava saindo da minha antiga secretária eletrônica.

“Você obviamente preferiu ignorar minhas mensagens, mas isso não é um truque para envolver você. Isso é real. Eu disse mais do que deveria na minha última mensagem. Isso prejudica minha firma e meu cliente. Estou confiando que você vá ser discreto, então, por favor, apague esta mensagem e as outras que deixei no seu celular. Se não quiser falar comigo, tudo bem. Mas pelo menos tenha o bom senso de dar continuidade com o velho cortador de cana que mencionei na última mensagem. Ele sabe de tudo.”

Houve um silêncio, mas a mensagem não tinha acabado. Finalmente, a voz dela voltou com um último pensamento: “Angelina, você não me conhece, e eu não conheço você, mas, se pegar este recado, não sou uma antiga namorada tentando dar em cima do seu marido. Por favor, faça o Abe ouvir isto. É importante.”

Fim da mensagem, disse a máquina. Rebobinei para conferir a data e o horário: 12 de dezembro, 20h31.

Apertei o “stop” e peguei papel e caneta da gaveta para fazer uma linha do tempo. Eu não tinha as datas exatas na cabeça, mas sabia pelo registro do celular pré-pago que a última das mensagens deletadas no meu celular tinha sido na primeira semana de dezembro. A mensagem me pedia para deletar as anteriores. Elas de fato tinham sido deletadas, e eu sabia que ia ser difícil convencer qualquer um de que não tinha sido por mim.

Ouvi a mensagem de Tyla de novo e transcrevi tudo com letra de mão, fazendo algumas anotações e perguntas. Eu tinha mais questões na cabeça e esperava encontrar mais recados de Tyla que oferecessem algumas respostas. Demorei quase meia hora para chegar à última mensagem. O cartão de memória chegou ao limite em 29 de dezembro. Depois de 12 de dezembro, eram só ligações de telemarketing; mais nada de Tyla.

JT entrou na cozinha e foi até a geladeira.

— Não tem mais nada — comentou ele, com a porta aberta. — Você pode ir ao mercado para mim amanhã?

— Claro, JT. Vou pedir que algumas pessoas venham pegar esta máquina.

— Estou indo para a cama.

— Tudo bem.

— Encontrou o que estava procurando?

O bloco ainda estava sobre o balcão, e olhei para a mensagem de Tyla transcrita.

— Honestamente, não sei o que encontrei.

A resposta pareceu satisfazê-lo. JT foi deitar. Liguei para Rid do meu celular, tão ansioso para falar com ele que contei os toques. Mas algo me fez desligar antes que ele atendesse. Eu estava incomodado com a grossa camada de gelo entre mim e o FBI, e se estava derretendo, estava acontecendo em uma velocidade absurdamente lenta. Minha primeira ligação sobre essa descoberta precisava ser para a pessoa certa.

Liguei para a agente Santos.

 

Eu estava gravando a mensagem de Tyla no meu celular quando Santos bateu na porta de JT.

Eu reproduzi a mensagem diversas vezes enquanto esperava por ela. De repente, uma imagem aterrorizante surgiu na minha mente, uma cena antiga do filme Missão Impossível, a secretária eletrônica começando a chiar e se autodestruindo diante dos meus olhos, levando a mensagem de Tyla junto. O backup do celular impedia a minha autodestruição.

— Entre — eu disse.

Fiquei feliz em ver Rid entrar atrás dela. Ele identificou e ensacou a secretária eletrônica como evidência da investigação do Cortador enquanto Santos e eu ouvíamos a mensagem no meu celular, repetidas vezes.

— Toque mais uma vez — pediu Santos.

Rid se juntou a nós na mesa para a quinta audição. Num intervalo de duas horas, tínhamos basicamente trocado a cozinha de Angelina pela de Samantha, nos transportado do presente para o meu passado, o que parecia quase metafórico, considerando a maneira como a noite tinha se desenrolado. Santos fez outra página de anotações em seu bloco amarelo enquanto o recado de Tyla tocava de novo. Quando acabou, eu estava mais do que pronto para ouvir as impressões dela.

— O que você acha? — perguntei.

— Vamos começar pelo óbvio — disse ela. — Parece que Tyla estava tentando contar a você alguma coisa sobre um dos clientes da BB&L, supostamente algo que prejudicava o escritório e o cliente. A referência ao “velho cortador de cana” que “sabe de tudo” sugere que o cliente era da Açúcar Cortinas.

— Até o momento, concordo com você — comentei.

— O que é interessante — interveio Rid — porque Brian Belter nos contou que Tyla estava trabalhando para a Açúcar Cortinas antes de morrer.

— Mas ela não podia estar ligando para Abe por causa de algo em que estava trabalhando recentemente — disse Santos.

— Por que não? — perguntei.

Santos conferiu suas anotações.

— As palavras exatas de Tyla foram que um velho cortador de cana “sabia de tudo”. Faz duas décadas desde que as empresas de cana substituíram o trabalho manual por máquinas. Então Tyla só podia estar falando de algo que aconteceu pelo menos vinte anos atrás. Talvez mais.

— O que traz à tona uma pergunta importante — eu disse. — Como advogada, Tyla sabia que, depois de um certo tempo, o estatuto de limitação impediria um processo criminal. Então, se ela estava ligando para me avisar de um crime, muito poucos não prescrevem em duas décadas ou mais.

— É o caso de assassinato — comentou Rid.

— Com certeza é um deles — eu disse. — Basicamente, estamos falando de um delito que resulte em morte ou que implique em uma pena de prisão perpétua ou pena de morte.

— Um delito que resulte em morte pode ser qualquer tipo de negligência criminosa — disse Santos. — Não vamos nos precipitar em concluir que ela estava falando de assassinato a sangue frio.

— Mas também não vamos ser rápidos demais em voltar no tempo também — disse Rid. — Talvez Tyla não estivesse falando de um assassinato antigo. Talvez estivesse falando de um assassino antigo.

— Entendo o que você está falando — disse Santos. — Mas acho que é forçar a barra.

— Estou perguntando mais do que afirmando — explicou Rid. — É possível que, quando mencionou um velho cortador de cana que “sabe de tudo”, Tyla estivesse falando do Cortador? Do nosso Cortador?

— Um serial killer velho não se encaixa no nosso perfil — emendou Santos. — Aliás, não se encaixa em nenhum perfil que eu já tenha visto.

— Não estou falando de um idoso — retomou Rid. — Alguns cortadores de cana trabalhando com o visto H-2 tinham 18 ou 19 anos. Um cortador de cana “velho” ainda pode ter trinta e muitos ou quarenta e poucos.

— Qual é a data do nosso primeiro assassinato de Palm Beach? — perguntei.

— Vinte e nove de novembro — respondeu Santos. — Quase duas semanas antes de Tyla deixar essa mensagem.

— Então talvez eu esteja no caminho certo — disse Rid. — O velho cortador de cana que sabe de tudo pode ser o Cortador?

Balancei a cabeça.

— Continua não fazendo sentido. Por que Tyla teria qualquer relutância em passar informações sobre um antigo cortador de cana que pode ser nosso serial killer? Ela me pediu para ser discreto porque podia prejudicar a firma e o cliente. Dar informações sobre um assassino não é esse tipo de informação confidencial.

— Existe outra possibilidade — disse Santos, os olhos se voltando diretamente para mim. — Talvez ela só quisesse que você ligasse de volta.

— Bom, ela claramente queria falar comigo — respondi. — É assim que um delator funciona.

— O que eu quero dizer é que era apenas isso o que Tyla queria — explicou Santos. — Que não houvesse outro motivo para a ligação.

— Vamos ver se eu entendi — eu disse. — Você está dizendo que ela queria fingir que estava transmitindo informações sobre um crime só para que eu ligasse de volta?

— Parece loucura — comentou Rid. — Mas, quando eu trabalhava na rua, multei uma mulher que jogou o carro em um sujeito que estava dirigindo um Porsche só para poder conhecê-lo.

— Uma mulher que faz uma coisa dessas não é a sócia bem-sucedida do maior escritório de advocacia de Miami.

— Não tenha tanta certeza — disse Santos. — Tyla parecia estar fazendo um grande esforço para tentar convencer você de que não era um truque. Até mencionou o nome da sua esposa caso ela ouvisse a mensagem, tentando deixar Angelina tranquila de que não estava dando em cima de você.

— Santos pode ter razão — disse Rid. — Quando uma mulher com o histórico de Tyla se esforça tanto para convencer um homem de que não está atrás dele, eu diria para ele tomar cuidado.

— Não pode ser — eu disse. — Tyla teria de ser algum tipo de sociopata.

Santos fez uma expressão de “se a carapuça servir…”.

— Estamos falando de uma mulher que tinha três anéis de noivado diferentes com aliança, que ligava para homens casados de um celular pré-pago para não ser pega, e que, pelo jeito estava dormindo com um sócio administrativo de sua firma. Você conhecia Tyla melhor do que eu, Abe. Mas o que descobri até agora não elimina pelo menos algumas tendências sociopatas.

— Bom, eu também não a conhecia muito bem — respondi. — Nós tivemos nossa história dez anos atrás. Saímos para jantar em setembro passado. Foi isso.

— Verdade? — perguntou Santos.

— Sim. É a verdade.

— Ela queria mais do que um jantar?

— Que diferença faz?

Lá estava eu de novo, respondendo uma pergunta com outra pergunta.

— Uma grande diferença — respondeu Santos. — Para alguém com o perfil sociológico dela. Se você a dispensou, isso faz de você aquele que disse não. Você era um desafio, uma montanha a ser escalada, o negócio que ela não fechou.

— Já entendi — eu disse, interrompendo a grande torrente de metáforas.

Santos apertou os olhos, insistindo no argumento, como se estivesse ligando o modo interrogatório.

— Isso vale duplamente se você levou Tyla a acreditar que a queria, mas no fim das contas estava só enrolando. Você terminou as coisas, por assim dizer. Você voltou para o seu quarto de hotel, e Tyla voltou para o dela. Ou talvez as coisas tenham sido ainda mais confusas. Talvez você dois estivessem a caminho do quarto dela, ainda sentindo os efeitos do vinho, perto demais ou talvez até se tocando no elevador. Mas quando ela abriu a porta e convidou você para entrar, talvez com palavras, talvez só com um olhar, algo tenha feito você parar. Algo fez você dar boa-noite e se afastar.

— Aonde você quer chegar com isso? — perguntei.

— Só estou tentando entrar na cabeça dela — respondeu Santos. — Tentando entender se Tyla tinha algo além de pistas de um crime em mente quando ligou para você. Mas não tenho como saber, não é, Abe? Só vocês dois estavam lá, e um de vocês está morto. Você é o único que pode dizer se Tyla queria mais do que um jantar.

Pensei no que Santos estava dizendo, considerando todas as insinuações. Não posso dizer que eu estava confortável analisando as motivações de Tyla em Orlando. Mas era interessante, para mim, do ponto de vista tático, como Santos tinha conseguido formular a questão estritamente em termos das intenções de Tyla, não das minhas. Sem nem ter estado lá, sem nunca ter conhecido Tyla, Santos parecia ter uma noção melhor de como as coisas tinham acontecido do que eu.

Ou ela simplesmente entendia como o ego masculino gostaria de lembrar daquilo.

— Não restam dúvidas — respondi. — Tyla queria mais.