Uma Mulher Perfeita
Capítulo trinta e quatro
Cheguei ao escritório do médico legista pouco antes de meia-noite. Ed estava esperando do lado de fora da entrada. Entramos juntos, passando pelas portas pneumáticas e pelos corredor.
Ouvi alguém chorando do lobby à nossa frente. Não pequenos soluços. Uma dor enorme, lancinante, o tipo de lamento que só acontece em um tipo de infortúnio na terra: uma mãe que perde uma filha.
Parei no fim do corredor, sem conseguir entrar no lobby tão bem iluminado. Havia algumas cadeiras na parede do lado oposto. Sentado em uma delas, estava um homem mais ou menos da idade de Jake, consolando a mulher a seu lado. Ela tinha a aparência de Palm Beach, uma mulher atraente e bem-vestida que podia muito bem ser uma das amigas da minha sogra.
A agente Santos estava sentada ao lado dela, segurando sua mão. Ela me viu, pediu licença ao casal e veio na minha direção.
— Não é a sua esposa.
Não houve uma grande sensação de alívio. De repente, eu me senti… egoísta, autocentrado. Foi como um golpe entre os olhos, o fato de que estávamos lidando com um serial killer, o que, por definição, significava diversas vítimas e uma dor exponencial. Outras famílias estavam sofrendo. A mãe soluçante da última vítima do Cortador encostou no ombro do marido. Eu queria ir até lá e abraçar os dois.
— Eu não estava enrolando você — disse Santos. — Acabamos de confirmar a identidade. Eu precisava contar a eles antes de contar para você.
— Eu entendo.
— Instruí Riddel a retomar a busca em Miami-Dade. É melhor você ir.
— Certo. Vou avisar os pais de Angelina.
— Você pode fazer a ligação do lado de fora, por favor? Não quero que esses dois escutem.
— Claro — respondi.
Santos voltou para os pais de luto. Ed me acompanhou pelo corredor até a saída.
— Que boa notícia — comentou ele.
— Pois é. Para nós.
Continuamos andando.
— A propósito, Vernon Gallagher não deu em nada.
— Que Vernon?
— Lembra? O Michael Phelps do corte de cana? O cortador velho de quem Tyla Tomkins talvez estivesse falando na mensagem dela para você?
— Claro, claro.
— Achei mesmo que havia algo suspeito no acidente de carro que matou aquele político. Especialmente a maneira como todos os registros da investigação foram lacrados. Mas falei com a viúva de Conrad. No fim das contas, foi a família que mandou lacrar os relatórios, não a Açúcar Big. Conrad estava bêbado como um gambá, dirigindo rápido demais quando foi parar no canavial em chamas. O fogo invadiu a estrada, e foi isso. Ele bateu.
Ed tinha desviado tanto do assunto que eu mal estava conseguindo acompanhar.
— Que pena.
— O que estou dizendo é: não acho que o acidente de carro tivesse algo a ver com o crime de que Tyla estava tentado falar para você.
— Concordo. Vamos deixar isso tudo para lá.
— Não, não, não — disse ele, me cortando. — Não estou dizendo que devemos desistir. Se Tyla estava tentando dar informações sobre um crime cometido pela Açúcar Cortinas, nós com certeza precisamos descobrir o que era.
— Ed, neste momento, tudo o que eu quero é avisar meus sogros.
Saí andando pelo corredor, apertando o passo. Ele veio junto.
— Só me escute, pode ser? Acho que o crime de que Tyla estava tentando falar tem algo a ver com o acordo imobiliário em que o escritório dela trabalhou.
Pisei no capacho de borracha, as portas se abriram automaticamente, e continuamos do lado de fora.
— Acordo imobiliário?
— Quatro anos atrás a Açúcar Big fez um acordo bilionário para revender uma área produtiva para o estado da Flórida. Estava muito acima do valor de mercado, mas os ambientalistas não se opuseram porque o plano era tirar todos aqueles acres da produção de açúcar e fazer os Everglades voltarem ao seu estado natural. Mas então a Açúcar Big fez os políticos assinarem um acordo de leasing das mesmas terras por mais vinte anos de produção de açúcar por um aluguel ridículo de barato. Foi basicamente um roubo.
Estávamos do lado de fora do prédio. Tentei usar meu celular. Sem sinal.
— Droga!
Saí andando pela calçada, procurando sinal. O estacionamento ficava virando a esquina. Ed veio junto.
— Então, esse acordo pelas terras…
— Ed, chega — interrompi, incomodado. — O que um acordo imobiliário tem a ver com qualquer coisa?
— Pense comigo — respondeu ele. — Tenho certeza de que ninguém descobriu isso ainda, mas posso mostrar um mapa. Esse serial killer desovou cada uma das vítimas de Palm Beach em um canavial. Até agora, cada um deles faz parte do terreno do acordo.
Eu parei, incrédulo.
— Você enlouqueceu? O que você acha que isto é, O Código Da Vinci?
— Hã?
— Ed, eu não quero saber de um acordo imobiliário escuso.
— Você não está entendendo. Tudo está ligado ao serial killer. Acho que é uma mensagem.
Comecei a andar ainda mais rápido, mas a imagem absurda de um cartum antigo que meu antigo mentor tinha presa na porta me veio à mente, até Carmen obrigá-lo a tirá-lo dali: dois detetives olhando para um mapa da cidade, alfinetes marcando o local de cada crime, os pontos formando a frase “Vá se foder”, e um detetive perguntando ao outro, “você acha que existe um padrão?”
Olhei para meu celular. Continuava sem sinal. Eu precisava ir para o outro lado do prédio. Continuei andando.
— Abe, você está ouvindo o que estou dizendo?
— Não estou mais. Achei que você tivesse vindo até aqui porque era um gesto de amizade. Em vez disso, você está enchendo meus ouvidos por causa de um processo?
— Podemos pegar essa gente de uma vez por todas, Abe.
— Não estou interessado.
— Abe, você e eu, um time. Podemos vencer a Açúcar Big.
— Essa é a sua briga, Ed. Não a minha.
— Faça dela a sua briga, droga. O Cortador não é o único assassino na cidade, sabe. Esses malditos barões do açúcar estão matando os Everglades, e estão saindo impunes.
— Ed, tenho problemas maiores na minha cabeça, minha mulher desapareceu, e eu, honestamente, estou cagando!
Parei de repente. Tínhamos dado a volta no prédio e quase batido de frente com uma equipe de televisão. Uma repórter chocada estava olhando direto para mim. Eu tinha gritado, a parte que ela ouviu estava totalmente fora de contexto, e o câmera também tinha ouvido. Eu estava prestes a explicar, mas a repórter não me deu a chance. Pelo menos, não em off. Com um estalar de dedos, a câmera estava gravando.
— Com licença — disse ela. — O senhor não é Abe Beckham?
O microfone estava no meu rosto. A luz vermelha da câmera estava olhando para mim.
Outro homem talvez tivesse aprendido a lição com a mentira de uma palavra no escritório de Carmen, aquela sobre quanto tempo fazia desde o meu último encontro com Tyla Tomkins. Mas eu estava desesperado para sair dali rápido.
— Não — respondi, e corri para o meu carro.