Uma Mulher Perfeita
Capítulo dezoito
Fiz compras no caminho de volta de Belle Glade e as deixei no apartamento de JT. O mundo quase acabou quando ele viu que eu tinha comprado sua cerveja escura em latas de 350 ml em vez de garrafas de 350 ml, mas eu tinha a distração perfeita: estávamos indo visitar Luther.
Eram três da tarde, a versão geriátrica do happy hour, quando chegamos à casa de repouso Sunny Gardens em Miami Shores, o que significava um monte de gente em cadeiras de rodas estacionadas em um semicírculo no pátio assistindo ao animador da sexta à tarde. Meu sogro tinha um lugar privilegiado, bem no centro, perto da fonte. O mágico tinha sua atenção completa.
— Prestem atenção na rainha de ouros — disse o mágico para a plateia de idosos.
— Ela está no seu bolso esquerdo — gritou Luther.
Ele já tinha visto aquele número. Cem vezes. Mas eu estava feliz em vê-lo envolvido. Não era sempre que isso acontecia. Em geral, a noite era mais difícil que o dia. O entardecer era o pior momento — síndrome do pôr do sol, era como chamavam. Por sorte, tínhamos chegado antes do jantar.
— Abe! — chamou ele.
— Seu filho também está aqui — disse JT.
— Devon?
— Não, Devon morreu, pai. É o JT.
Uma senhora nos pediu silêncio. O homem ainda mais velho ao lado dela fez careta e gritou:
— Cale a boca a senhora! O que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas.
Eu não fazia ideia do que o pobre velho estava falando. Levei a cadeira do rodas de Luther para o outro extremo do pátio, onde pudéssemos conversar.
— Você parece bem, meu velho — eu disse.
— Até parece — devolveu Luther.
A verdade era que eu mal o reconhecia. Ele tinha perdido quase dez quilos no último ano, e estava visível em seu rosto. O barbeiro tinha feito um corte militar para impedi-lo de arrancar os cabelos em seus surtos ocasionais de confusão, mas isso deixava sua aparência ainda mais esquelética.
— Como vai sua namorada? — perguntei.
— Ah, ela já era. Estou de olho numa belezinha de Carol City. Ela se mudou para cá na quinta.
— Boa sorte.
— Como você está? — perguntou Luther. — Está namorando? Samantha iria querer que você encontrasse alguém, sabe.
Eu tinha contado muitas vezes que tinha me casado de novo. Ou ele continuava esquecendo, ou nunca tinha registrado a informação.
— A vida vai bem — respondi, deixando passar.
— Bom. Que bom. A vida é boa.
— Abe está trabalhando nos canaviais — contou JT.
Lancei um olhar para ele, deixando claro que preferia não tocar no assunto.
Os olhos de Luther ficaram cobertos de preocupação.
— Ah, não, Abe. Você não quer fazer isso. Vão cobrar pelo cobertores, vão cobrar pela faca, vão cobrar pela água que você bebe e pelo penico onde mija. Você nunca vai ganhar dinheiro cortando…
— Luther, não é isso. Não se preocupe. Não estou cortando cana.
— Ele está tentando pegar um serial killer — explicou JT.
Os olhos de Luther se arregalaram.
— Um serial killer?
— Alguém matou a namorada dele.
— JT, chega.
— Namorada? — Luther quis saber. — Você tem uma namorada?
— Não mais — continuou JT. — Alguém a assassinou com um facão.
— Meu Deus — exclamou meu sogro.
— JT, pare — eu pedi.
— Eles acham que foi o Abe.
Segurei JT pelo pulso e pedi para Luther nos dar licença por um minuto. A audição dele não era boa, especialmente no ouvido direito, então não precisei levar JT longe para atacá-lo.
— JT, que diabos você está fazendo?
— Você acha que eu não estava ouvindo você falar com a agente do FBI e com aquele detetive ontem à noite? Eu estava bem acordado no meu quarto. Aquele apartamento é como uma lata de sardinha. Eu consigo ouvir tudo.
— A agente Santos nunca disse que Tyla era minha namorada, e com certeza nunca disse que eu era um suspeito pela morte dela.
— Não com essas palavras. Eu podia ouvir na voz dela.
— Você não sabe do que está falando, JT. Apenas pare. Você nem estava na sala, e não ouviu nada na voz da agente Santos.
— Claro que ouvi, Abe. Eu sou bom em ouvir vozes. Lembra? Você disse para a juíza que sou bipolar.
Agora eu tinha entendido. Ele ainda estava chateado comigo por causa da audiência.
— JT, só porque você é bipolar não significa que você tem alucinações e ouve vozes. Isso é um estereótipo.
— Só porque você acha que sou bipolar não quer dizer que eu seja.
— Foi o diagnóstico do seu médico.
— O médico está errado, o que é mais uma razão por que você não deveria ter dito para a juíza que sou bipolar.
— JT, pela última vez: eu nunca disse para a juíza que você é bipolar.
— Você gosta de ser atacado com acusações idiotas? Não é legal, é?
— Não acusei você de nada, JT.
— Você deveria ter falado a verdade para a juíza. Deveria ter dito que eu tenho transtorno de estresse pós-traumático.
— JT, você não tem transtorno de estresse pós-traumático.
— Todos aquele anos cortando cana me deixaram com transtorno de estresse pós-traumático.
— Não tem graça, JT. E não é legal fazer piadas sobre ser um cortador de cana quando meu escritório está investigando esses assassinatos.
— Como você sabe que estou brincando? Talvez eu esteja alucinando.
— Eu nunca disse que você tinha alucinações.
— Então pronto. Eu tenho transtorno de estresse pós-traumático.
— Você não cortava cana. Seu pai cortava cana.
Ele fez uma pausa, e eu torci para JT ter se cansado do seu próprio jogo, o que em geral era o que acontecia, contanto que eu não perdesse a paciência. Mas então ele apertou os olhos e virou seu olhar intenso na direção de Luther.
— Aquele filho da mãe maluco não é meu pai.
— Nunca mais diga isso. Seu pai ama você.
— Se ele é meu pai, por que minha medula óssea não era compatível com a de Samantha?
Era a quingentésima vez que tínhamos essa conversa. Doses altas de quimioterapia e radioterapia deveriam ter matado as células cancerosas de Samantha, mas também destruíram sua medula óssea, onde os glóbulos são formados. JT tinha sido nossa última esperança.
— Foi o que os médicos disseram: irmãos costumam ser a maior chance, mas a compatibilidade não é garantida.
— Se eu tivesse doado a medula óssea, Samantha não teria morrido.
— Você não era compatível, JT. Não foi sua culpa.
— Talvez outro exame tivesse mostrado que eu era compatível.
— Nós fizemos todos os exames — eu expliquei. — E mais alguns.
— Talvez tenham cometido um erro. Outro exame teria visto esse erro. Já pensou nisso?
— Eles não cometeram um erro.
— Não me diga que médicos nunca erram — disse ele irritado.
— Fale baixo, por favor. Eu não disse que médicos nunca erram.
— Então como você sabe que meu médico não cometeu um erro quando disse que sou bipolar?
Eu estava prestes a perder a paciência.
— JT, essa conversa está ficando estúpida.
— Retire o que disse, Abe. Só porque fui cortador de cana não quer dizer que eu seja estúpido.
— JT, você não cortou cana.
— Você está dizendo que eu sou estúpido?
— Não, estou dizendo…
Parei para respirar. Eu mal acreditava que estava fazendo o jogo dele como se isso fosse uma conversa racional, mas conversar pacientemente com JT durante esses surtos de embate verbal era a única forma de garantir que eles não acabassem mal, com JT andando de um lado para o outro a noite toda ou pulando pelo quarto até amanhecer.
— JT, a última vez que um americano cortou cana na Flórida foi em 1941. Você é afro-americano, não jamaicano, e nunca cortou cana.
Luther se inclinou na cadeira de rodas e gritou:
— Parem de falar merda, seus filhos da puta.
Pelo jeito, a audição do velho era melhor do que parecia. Ou talvez estivéssemos falando mais alto que eu imaginava. JT e eu nos entreolhamos uma última vez, meu último esforço de fazer meu cunhado se controlar.
— Respire fundo, JT.
— Ainda estou com raiva de você, Abe.
— Eu sei. Só respire, pode ser?
Meu celular tocou. Pedi para JT aguentar firme, me afastei um pouco mais dele e de Luther e atendi. Era Ed, que ainda estava no escritório da Farm Aid.
— Você nunca vai para casa? — perguntei.
— Esta é minha casa.
Eu tinha esquecido.
— O que foi?
— Eu estava vasculhando as caixas…
— Ed, por favor. Você não precisa fazer isso.
Tínhamos deixado combinado que eu iria para lá no fim de semana e faria isso por conta própria.
— Não tem problema — disse ele. — Se existe uma chance de solucionarmos um crime cometido pela Açúcar Big, conte comigo. De todo jeito, tenho o nome de um cortador para você.
— Certo, mas se você me disser que o nome dele é JT e ouvir um estrondo, é porque estourei meus miolos.
— O quê?
— Nada, continue.
— Vernon Gallagher. Kingston, Jamaica. Ele cortou cana para a Açúcar Cortinas de 1981 a 1986.
— O que faz ele se destacar?
— Eu chequei os registros de pagamento. A Cortinas mantinha fichas diárias de cada cortador porque pagava por fileira. Alguns levavam dois dias para cortar uma única fileira. Gallagher conseguia cortar duas em um único dia. Durante seis anos ele cortou mais tonelagem do que quase qualquer outra pessoa no canavial. Esse sujeito era um animal, o Michael Phelps do corte de cana. Ele poderia ter ganhado mais do que qualquer pessoa na ação coletiva.
— Mas ele se retirou do processo — eu concluí, intrigado.
— Ele saiu. Lembre, se um cortador não fizesse nada e apenas ignorasse a notificação, ele participava da ação e dividia qualquer dinheiro que ganhássemos. Mas Gallagher se deu ao trabalho de ler um documento legal de oitenta páginas com fonte pequena, assinar o formulário para ser excluído, colocar um selo no envelope e levá-lo ao correio. Ele não queria ter nenhuma relação com um processo contra a Açúcar Cortinas.
— Interessante — comentei.
— Ou o sujeito estava sendo pago pela empresa por fora — disse Ed — ou estava morrendo de medo deles.
— É um chute bem alto a esta altura.
— Para você, talvez. Mas não para mim.
— Por que não para você? — perguntei e, de algum jeito, eu sabia que ele estava sorrindo do outro lado da linha.
— Você não conhece a história — disse ele. — Mas eu conheço. Havia muita merda acontecendo na Cortinas em 1986. Muita merda.