Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
2.1.3 Etapa prévia à pré-produção
mesma quantidade de materiais e ferramentas e o mesmo tempo,
que neste caso será de 6 horas). O primeiro carpinteiro, por ser
mais eficiente, tem tempo de sobra para reforçar a cadeira e, em
consequência, esta suporta um peso muito maior que 100 quilos;
enquanto a cadeira do segundo suporta somente 100 quilos. Neste
caso, ambos foram igualmente eficientes (utilizaram os mesmos
recursos), porém, a cadeira do primeiro resultou mais eficaz.
Na sistematização dos processos de desenvolvimento, produção e
comercialização de um produto audiovisual, o que devemos
considerar como prioridade: a eficiência ou a eficácia? O objetivo
mais importante de um produto audiovisual, do ponto de vista da
produção, é recuperar o investimento e obter a maior margem de
lucro possível. Evidentemente, estamos falando de eficácia, já que
nos referimos ao desempenho do produto no mercado. Porém,
como neste mesmo objetivo estão implicados os recursos (o
investimento), uma melhora na eficiência dos processos nos dará
como resultado um filme que poderá recuperar mais rapidamente o
valor que foi investido e, portanto, nos deixará uma margem de lucro
maior.
Em outras palavras, poderíamos dizer que eficiência e eficácia são
conceitos intrinsecamente unidos; ao melhorar a eficiência nos
processos, possibilita-se que o resultado final seja mais eficaz. Um
produto audiovisual cujo investimento seja dilapidado por falta de
eficiência em seus processos de produção chegará ao público com
menos valores de produção (elementos atrativos que ficam em
evidência) que outro cuja eficiência permita que os recursos
utilizados apareçam mais no resultado que o público realmente
possa observar.
2.1.3 Etapa prévia à pré-produção
Geralmente, quando falamos das etapas pelas quais passa um
filme, nos referimos à pré-produção, à filmagem e à pós-produção
(estas três subetapas são englobadas no que chamamos de
“produção”). No entanto, devemos levar em conta que, para que um filme comece a ser pré-produzido, é preciso que tenha sido feito um
trabalho prévio, de 2 a 4 anos, o qual denominamos
desenvolvimento de projeto.
Não somente há uma etapa prévia à pré-produção, mas também
uma posterior à pós-produção. Ao terminar a pós-produção,
obtemos uma cópia “A” ou um master digital que de nada nos serve
se não chegar ao público; falamos, então, do marketing ou
comercialização do filme. Em outras palavras, um produto
audiovisual, para existir, deve passar pelos processos de criação,
produção e consumo, que conhecemos como desenvolvimento de
projetos, produção e comercialização.
FIGURA 11 – Etapas de produção audiovisual 1
A definição da Metodologia DPA fala de processos “prévios à pré-
produção”; entretanto, em que momento podemos determinar o
início de fato da pré-produção de um filme? Uma resposta simples
seria dizer que, no momento em que começamos a realizar tarefas
tais como formar o elenco (casting), contratar pessoal, organizar a
produção, fazer uma exploração de cenários, etc. Sem dúvida, se
estamos realizando estas tarefas, é porque estamos na pré-
produção de um filme; mas isto não nos serve para identificar o
momento preciso em que começa a pré-produção.
O desconhecimento de qual é o fato concreto que nos permite iniciar
a pré-produção, muitas vezes, leva a confundir esta etapa com a de
desenvolvimento de projetos (sobretudo no caso de um
documentário), o que geralmente deriva em uma má utilização dos
recursos. Mais de uma vez, nos encontramos com cineastas que,
apesar de não terem finalizado a escrita da versão final do roteiro, já
estavam realizando busca de cenários ou castings, sem saber
sequer se deles precisariam em algum momento. Para esclarecer o
tema, revisaremos quais são os limites em cada etapa de produção. Tomando como exemplo o caso de um longa-metragem, é claro que
somente podemos comercializar o filme uma vez que tenhamos
podido obter a primeira cópia positiva (cópia “A”, caso se trate de
um produto terminado em material fílmico, ou máster, se o trabalho
for concluído em formato digital) com a imagem e o som definitivos.
O filme é estreado em salas e, logo depois de algum tempo (que
pode variar de uma semana a vários meses), sai de cartaz. Porém,
não termina aí sua comercialização já que, em se tratando de um
longa-metragem, logo passa ao mercado local e à televisão, por
meio dos quais o público pode ter acesso a ele por muitos anos.
Inclusive, se o filme se converter em um clássico, podem passar
gerações de espectadores que seguirão alugando-o, vendo-o pela
televisão, inclusive no cinema (se uma reestreia for feita). O mesmo
acontece com um programa de televisão, que pode seguir sendo
emitido muitos anos depois de sua estreia original.
Então, a comercialização de um filme não tem um limite definido?
Do ponto de vista do espectador, podem passar séculos e o filme ou
programa de TV pode continuar a ser visto, portanto, parece não
haver limites. No entanto, do ponto de vista da exploração
econômica, existe um limite estabelecido pelos direitos que o
produtor (ou quem os tenha adquirido) tem sobre o produto
audiovisual. A partir da morte de todos os autores (que segundo a
lei de propriedade intelectual 11.723, da Argentina, são o produtor, o
roteirista e o diretor), existe um período de tempo em que seus
herdeiros podem seguir usufruindo a exploração econômica do
filme. Entretanto, depois de um tempo (na Argentina, 70 anos), o
filme cai em “domínio público”. Isto significa que pode ser utilizado
livremente; quer dizer, sem a necessidade de solicitar autorização
ao titular dos direitos, nem pagar por ela.
A ideia por detrás do conceito de “domínio público” é que, assim
como os autores se inspiraram na cultura que os rodeia, é lógico
que depois de um tempo de prudência durante o qual os herdeiros
possam usufruir de seus benefícios econômicos, as obras voltam à
comunidade. Na Argentina existe, contudo, o conceito de “domínio
público pagante”. Isto significa que, ainda que possamos utilizar sem autorização as obras em domínio público, devemos pagar ao Fondo
Nacional de las Artes por isto.
FIGURA 12 – Etapas de produção audiovisual 2
Já sabemos, então, os limites que determinam a finalização das
etapas de produção (obtenção de cópia “A” ou master) e de
comercialização (a passagem ao domínio público). Agora nos resta
determinar os limites inicial e final da etapa de desenvolvimento de
projetos.
Todo filme começa a gestar-se a partir da aprovação de uma ideia
que irá tomando forma e se converterá em um projeto. Torna-se
evidente que, para aprovar uma ideia, deve existir alguém que a
proponha e alguém que a aprove. Em outras palavras, a etapa de
desenvolvimento de projetos começa com a formação de uma
equipe de desenvolvimento que proporá ideias, das quais
somente algumas serão aprovadas para seu desenvolvimento.
FIGURA 13 – Etapas de produção audiovisual 3
Cabe-nos, então, definir quando termina a etapa de
desenvolvimento de um projeto para dar lugar à pré-produção. Esta tarefa torna-se fácil se levarmos em conta que o propósito principal
do desenvolvimento é obter os recursos para converter o projeto em
um filme. E não nos referimos a uma parte destes recursos, senão
ao total. Apenas quando contamos com 100% dos recursos para
produzir o filme e chegar à cópia “A”, podemos dizer que
alcançamos o objetivo da etapa de desenvolvimento e podemos dá-
la por concluída. Mais adiante voltaremos a este tema.
FIGURA 14 – Etapas de produção audiovisual 4
Subetapas do desenvolvimento do projeto
Assim como na produção de um filme, podemos subdividir o
processo em 3 etapas (pré-produção, filmagem e pós-produção), no
desenvolvimento de projetos também há 3 instâncias:
FIGURA 15 – Subetapas de desenvolvimento
O pré-desenvolvimento: É a etapa prévia ao desenvolvimento
propriamente dito. Nesta etapa, nos concentramos
principalmente em organizar e obter os recursos necessários
para desenvolver um projeto: organização da equipe de