Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
3.1.5 O Diretor de Marketing
Para a Metodologia DPA torna-se imprescindível que aquele que for
ocupar o papel de Chefe de Pesquisa de roteiro tenha excelentes
capacidades organizativas, de liderança, didáticas e de
comunicação. As capacidades organizativas são necessárias para
poder coordenar e controlar o trabalho de sua equipe de pesquisa,
estabelecendo tarefas concretas, prazos, etc. Para isto, também é
necessária uma considerável cota de liderança que lhe permita
dirigir a equipe. As capacidades didáticas são absolutamente
determinantes para o processamento e organização da informação,
assim como também para a elaboração de seus relatórios. Por
último, as capacidades comunicativas servem a um duplo propósito;
para com seu superior (o Roteirista-Editor), para apresentar e
explicar os relatórios; e com seus subordinados, para comunicar
corretamente o que espera de cada um deles.
3.1.5 O Diretor de Marketing
É um papel bastante conhecido em produtoras de televisão ou
grandes produtoras de cinema, porém praticamente desconhecido
na maioria dos projetos “pessoais” (que constituem a maioria dos
casos). Isto se deve, em parte, ao fato de que em nosso país (e em
geral em toda a América Latina) exista um escasso desenvolvimento
do Marketing audiovisual. A ausência de um Diretor de Marketing
em uma equipe de desenvolvimento de um projeto “pessoal” é uma
grande desvantagem, já que se trata dos projetos que dele mais
necessitam, devido à escassez de recursos; por esta razão, a
Metodologia DPA recomenda a inclusão desta função na equipe
técnica.
Os principais objetivos do Diretor de Marketing são dois: um
específico e outro geral. O objetivo específico (e exclusivo da etapa
de desenvolvimento) é comunicar eficazmente o projeto para torná-
lo o mais atrativo possível para um potencial investidor, coprodutor,
etc. O geral é de assegurar que se explore ao máximo o potencial
de comercialização do produto audiovisual que se está
desenvolvendo, assim como também de outros produtos auxiliares
(mercado discográfico, merchandising, remake, etc.).
FIGURA 26 – O Diretor de Marketing
Para compreender o trabalho do Diretor de Marketing, faz-se
necessário primeiro definir o que é marketing. Em meu livro
“Marketing Audiovisual: el mercado del entretenimiento audiovisual”,
explico que:
Em um sentido amplo, dizemos que o marketing é o ato ou
processo de comprar e vender em um mercado. Em um sentido
mais específico, podemos dizer que é o processo de
planejamento e execução de estratégias que ajudem a
satisfazer os objetivos do consumidor e do produtor no
processo de intercâmbio de bens e serviços. Para isto, o
marketing utiliza uma série de variáveis enquadradas no que
conhecemos como o “marketing mix” (produto, preço,
distribuição e comunicação).
O cinema é uma das indústrias com maior valor agregado e o
marketing cumpre um papel fundamental, não somente no
momento da distribuição do filme terminado, como também na
concepção de uma estratégia de desenvolvimento de projeto
que nos permita levar em conta as expectativas, desejos,
gostos e interesses do público21. (T.N.)
O Diretor de Marketing é o encarregado de propor as estratégias de
marketing que se implementarão para fazer do produto audiovisual e
seus produtos auxiliares um bom negócio. Estas estratégias estão contidas no “Plano de Marketing” que elabora e leva ao Produtor
Executivo para sua discussão e aprovação.
As ferramentas com as quais conta um Diretor de Marketing são as
variáveis de marketing: produto, preço, distribuição e comunicação.
Para explicar estes conceitos, vejamos a descrição extraída de meu
livro anterior:
Diremos que o marketing é uma disciplina cuja função é
desenvolver o máximo potencial possível no intercâmbio de
produtos desde os produtores até os consumidores. Isto se
realiza gerenciando-se uma série de variáveis que se agrupam
no que se denomina o “Marketing Mix”. O marketing mix
descreve quais são as variáveis que um gerente de marketing
pode controlar para cumprir com sua função. A estas variáveis
também se denominam os “4 Ps” de marketing. A saber:
Produto.
Preço.
Local ou distribuição.
Promoção ou comunicação.
[…] Para trabalhar sobre o produto, o gerente de marketing
deverá saber quais são as necessidades do público de maneira
tal que, ao incluir no produto elementos que as satisfaçam,
obterá uma vantagem diferencial sobre um produto que a
concorrência não possua. Nesta tarefa, será de crucial
importância a pesquisa de mercado, já que lhe proporcionará a
informação necessária para fazer as mudanças22. (T.N.)
O produto, no caso do desenvolvimento de projetos, se refere ao
projeto em si. As necessidades do público podem ser muito diversas
de acordo com o público-alvo: entretenimento, educação, gozo
estético, etc. Os elementos que satisfazem essas necessidades
estão contidos, por um lado, no roteiro, mas também no projeto em
si; como, por exemplo, na inclusão de um músico determinado para
a trilha sonora de um diretor que aporte uma estética ou estilo
audiovisual particular, ou de um elenco conhecido, etc.
A etapa de desenvolvimento é o momento ideal para realizar
mudanças na variável “produto” e aquela em que o custo de fazê-lo
é mínimo comparado com o de fazê-lo quando o filme já tiver
entrado na etapa de produção. Efetivamente, mudar uma sequência
durante o desenvolvimento implicará o trabalho do Roteirista e do
Roteirista-Editor; porém, fazê-lo quando o filme está sendo filmado
implica em um investimento tão grande que pode pôr a Produtora
em um grave risco financeiro.
O preço, no caso do cinema, é outra das variáveis que o gerente de
marketing utiliza para melhorar os processos de intercâmbio com o
consumidor. No entanto, no caso de um produto audiovisual, esta
variável tem características que a diferenciam dos demais produtos:
Trata-se de uma variável que, em alguns casos, se pode
controlar e em outros, não. A produtora pode controlar o preço
no caso da venda de direitos de TV e a venda de cópias de
vídeos / DVDs. Porém, é uma variável não controlável na
exploração em salas. Neste caso, quem fixa o preço é a própria
sala e se trata de um preço que nada tem a ver com o custo do
produto (a entrada tem o mesmo valor tanto para um filme com
um orçamento de US$ 100 milhões quanto para outro de US$ 1
milhão). Por outro lado, se o vemos do ponto de vista do
público, isto sempre ocorrerá, independentemente do tipo de
exibição; o aluguel de um filme em vídeo, DVD ou pay-per-view,
é fixo para qualquer filme, da mesma maneira que o preço da
entrada do cinema23. (T.N.)
A terceira variável, a distribuição, se refere às diferentes formas de
exibição do produto audiovisual. No caso do cinema, o filme se
exibe primeiro em salas e, algum tempo depois, passa ao mercado
local (vídeo e sistemas de pagamento individual como pay-per-view
ou VOD). Mais tarde, vendem-se os direitos a canais de televisão (a
princípio, canais pagos “Premium”, logo de “assinatura básica” e,
por último, televisão aberta). Também se explorará o mercado
externo mediante a venda de licenças para sua distribuição
internacional.
A quarta e última variável é a comunicação. Esta se refere não
somente a como se comunica o projeto a potenciais investidores (ou
comitês de seleção), mas também a como se comunicará o filme ao
público durante o lançamento no mercado. Na etapa de
desenvolvimento de projeto, o Diretor de Marketing deve determinar
que conceitos transmitir a cada um dos destinatários do projeto. Por
exemplo, se deve convencer os potenciais investidores de que o
projeto é um bom negócio; os comitês de seleção, de que é um bom
filme; etc. Para esta tarefa, tem à sua disposição as peças de
comunicação, que nesta etapa são principalmente a pasta, o
website e o pré-trailer (mais detalhes sobre isto mais adiante).
A equipe de Marketing
FIGURA 27 – Organograma da equipe de Marketing
O Diretor de Marketing determina a estratégia de comunicação e
delega sua execução ao “Designer Gráfico” (que faz parte de sua
equipe e se encarrega da concepção do pôster, do website e da
pasta de projeto) e ao “Roteirista de pré-trailer” (que se encarrega
de escrever o pré-trailer que será produzido pela equipe do Diretor
de Produção). Para isto, o Diretor de Marketing deve escrever vários
briefings ou relatórios que indicam aos encarregados de comunicar
o filme o que é importante a ser destacado, qual é o objetivo da
comunicação e qual é o público-alvo (seja para o projeto ou para o
filme).
É importante ressaltar que o Designer Gráfico deve receber o
relatório para poder fazer seu trabalho já que não conta com a
capacidade de elaborar uma estratégia de comunicação. Em alguns
projetos “pessoais”, é comum o erro de enviar a um designer gráfico
uma sinopse e pedir-lhe que desenhe um pôster para a capa da
pasta do projeto. Este erro obriga o designer gráfico a definir questões para as quais não está preparado profissionalmente.
Necessita saber qual é o público, o que se quer comunicar, qual é o
posicionamento do produto, etc. Todas estas são decisões de
marketing ou de publicidade e excedem a tarefa do designer –– que
é comunicar visualmente a mensagem determinada pelo diretor de
marketing ou o publicitário que solicita a peça gráfica.
Um dos elementos de comunicação mais importantes do projeto é o
“pré-trailer”. Trata-se de uma espécie de trailer do filme, que se
realiza antes de produzir o filme (daí seu nome) para abordar o
potencial investidor, coprodutor ou jurado de um concurso, uma
mostra o mais próxima possível do produto final. De fato, a frase
que afirma que “uma imagem vale mais que mil palavras” não
poderia ser mais acertada neste caso. De todos os elementos que
formam parte da pasta de projeto, o pré-trailer é o que mais se
aproxima do produto final, devido a sua natureza audiovisual.
Ademais, permite à Produtora demonstrar o que a equipe é capaz
de produzir e as habilidades do diretor, motivo pelo qual pode tornar-
se determinante para a aprovação de um projeto. Sua realização
fica sob o encargo do “Diretor de Produção”, que supervisionará o
trabalho do diretor e sua equipe técnica.
Igualmente ao caso do Designer Gráfico, o roteirista do pré-trailer
deve receber das mãos do Diretor de Marketing o “relatório de pré-
trailer” onde figuram dados imprescindíveis, como qual é o público-
alvo (do filme), e os objetivos que deve atingir este pré-trailer. Estes
objetivos geralmente se relacionam com a percepção do investidor
de que a equipe de produção pode fazer um bom produto, atrativo
para o público, convertendo assim o projeto em um bom negócio.
É recomendável que o Roteirista do pré-trailer seja alguém com
conhecimentos e experiência em publicidade. A figura ideal seria um
híbrido entre um publicitário e um roteirista. Por esta razão, muitas
vezes é uma pessoa diferente do Roteirista ou do Roteirista-Editor
do longa-metragem que se está desenvolvendo.
Em projetos “pessoais”, costuma-se ignorar a verdadeira função do
pré-trailer – o que não é surpreendente se levarmos em conta que muitos filmes já produzidos costumam cair no mesmo erro. O que