Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
4.3.7 O subtexto
vida da personagem foi marcada por uma série de figuras
masculinas abusivas e figuras femininas protetoras, podemos
entender o ódio que sente pelos homens e sua incapacidade para
matar uma mulher. Isto é apenas um exemplo muito simples para
esclarecer o conceito; porém, temos que considerar que poucas
vezes a psique tem uma relação tão simples e direta.
4.3.7 O subtexto
Poucas vezes as pessoas agem de acordo com o que desejam; em
muitos casos, sequer sabem o que realmente querem. Como
roteiristas, temos que ter conhecimento de como funciona a psique
do ser humano. Não é necessário que sejamos formados em
Psicologia, mas sim que tenhamos alguns conhecimentos e uma
profunda capacidade de observação e análise do comportamento
humano. Esta é uma característica que não costuma ser comum e o
desconhecimento da psicologia humana não faz mais que colaborar
contra a possibilidade de que o público “acredite” nas personagens,
provocando assim seu afastamento emocional. Apesar de a maioria
das pessoas ser incapaz de analisar e compreender o
comportamento humano, todos temos uma espécie de “detector de
mentiras” inconsciente que faz com que identifiquemos
automaticamente quando uma personagem é autêntica, real,
verdadeira, crível, e quando não o é. O trabalho sobre as
contradições internas das personagens nos ajuda a dar
tridimensionalidade às mesmas, de forma que sejam críveis para o
público.
Isto nos leva a outro conceito que ajuda na credibilidade das
personagens: o subtexto. O texto em uma obra é o humanamente
perceptível; se falamos de um filme, são as imagens e a trilha
sonora. Mas por baixo deste texto subjaz o subtexto, que nos fala do
que realmente está acontecendo, do que as personagens estão
sentindo, pensando e fazendo através do que não dizem e do que
não fazem. Isto que está acontecendo por baixo do que percebemos
através dos nossos sentidos poucas vezes condiz com o texto (tal
como acontece na vida real). Sobre isto, McKee comenta:
Nada é o que parece ser. Este princípio exige que o roteirista
seja sempre consciente da duplicidade da vida, que reconheça
que tudo existe em pelo menos dois planos e que, por
conseguinte, deve escrever com uma dualidade semelhante: em
primeiro lugar, deve criar uma descrição verbal da superfície
sensorial da vida, com imagens e sons, atividades e palavras;
em segundo lugar, deve criar o mundo interno dos desejos
conscientes e subconscientes, das ações e das reações, dos
impulsos e do “elo” freudiano, dos imperativos genéricos e da
experiência. Na ficção ocorre o mesmo que na realidade: oculta-
se a verdade atrás de uma máscara vital, os verdadeiros
pensamentos e sentimentos das personagens atrás do que
dizem e fazem.
Há uma antiga expressão utilizada em Hollywood que diz: «Se a
cena trata do que trata a cena, estamos dando mancada».
Significa que estamos escrevendo «sem filtros», que estamos
escrevendo diálogos e atividades nos quais se expressam os
pensamentos e sentimentos mais profundos das personagens
com o que dizem e fazem -– estamos escrevendo o subtexto
diretamente no texto.
Significa que estamos escrevendo, por exemplo, o seguinte:
duas pessoas atraentes estão sentadas, uma em frente a outra,
ao redor de uma mesa onde uma vela brilha acesa, cuja luz é
refletida no cristal das taças de vinho e nos olhos emocionados
dos amantes. Uma suave brisa move as cortinas. Escuta-se
Chopin como música de fundo. Os amantes acariciam as mãos
e, olhando um para o outro com amor nos olhos, dizem: «Te
amo, te amo»... e realmente é o que querem dizer. Trata-se de
uma cena que não pode ser interpretada e que morrerá muito
rápido48. (T.N.)
O subtexto é necessário não apenas para tornar a história crível e
dar profundidade, mas também é fundamental para que o público
mergulhe no universo da história. É o que lhe permite interagir ou
“brincar” com as personagens, completando sentidos e significados
que não estão na superfície. A arte de contar histórias tem muito de
lúdico. Quando nos propomos a contar uma história ao espectador, estamos convidando-o a brincar com nossas personagens (que são
nossos brinquedos). Se depois nós ficamos com todos os brinquedos
e o espectador não tem outra função além de ver-nos brincar, fica
entediado e, caso isso aconteça, deixa de ver o filme e com isso já
não importa se a história é a mais brilhante que se escreveu até hoje.
McKee afirma que o subtexto serve também para outro propósito: dar
ferramentas aos atores e ao diretor para a composição das
personagens. O ator interpreta o texto a partir do subtexto. Ao
encontrar-se com um diálogo se pergunta o que é que estas
personagens realmente estão querendo dizer quando falam: “Te
amo”. Se o roteirista não constrói o subtexto da história, de cada
personagem, de cada cena e cada diálogo, o ator não tem
ferramentas para realizar seu trabalho interpretativo. Um bom ator
buscará o subtexto sempre e, se não o encontrar, corremos o risco
de que ele ou o diretor inventem um próprio que pode terminar
distorcendo o sentido da história.
O subtexto está relacionado com o oculto, com o que não se mostra;
mas isto não implica que as personagens tenham que ser hipócritas
para ser tridimensionais. Sobre isto, McKee esclarece:
Este princípio não implica que as personagens sejam pouco
sinceras. Trata-se de reconhecer, baseando-nos no bom senso,
que todos levamos uma máscara em público. Dizemos e
fazemos o que sentimos que deveríamos dizer e fazer enquanto
pensamos e sentimos algo totalmente diferente. Como deve ser.
Percebemos que não podemos ir pela vida dizendo e fazendo o
que na realidade pensamos e sentimos. Se assim o fizéssemos,
a vida seria um manicômio.
[…] Na realidade, é virtualmente impossível que uma pessoa
expresse totalmente o que está acontecendo no seu interior,
mesmo se estiver louca. Não importa quando desejamos
manifestar nossos sentimentos mais profundos, porque sempre
nos iludem. Nunca expressamos totalmente a verdade, porque
poucas vezes a conhecemos. Consideremos uma situação na
qual estamos desesperados para expressar nossos sentimentos
e pensamos sinceramente – a psicanálise –: um paciente se