Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
4.3.5 A credibilidade nas motivações
utiliza o humor com alguma finalidade: usa para seduzir,
proteger-se, evitar compromisso, agredir, etc.?
Nível de tensão: É um parâmetro usado pelos atores que têm
uma escala que vai do um (relaxamento total) ao sete (tensão
total). Temos que determinar qual é o nível geral de tensão da
personagem.
Uso da linguagem: Refere-se concretamente à maneira de
falar. Possui um vocabulário amplo? Usa frases feitas o tempo
todo? Possui um discurso coerente e organizado ou é caótico?
Possui uma grande destreza?
Passatempos e paixões.
Autoenganos: Aqui, nos concentramos em quais são suas
intenções ocultas ou não assumidas, suas emoções profundas,
seus desejos não confessados, as mentiras que diz de si
mesmo.
Ilusões: Quais são seus sonhos e desejos?
Esta lista de aspectos é bastante extensa, por isso, temos que nos
concentrar apenas no que é relevante para a personagem em
relação à história que estamos contando. Como dissemos antes,
provavelmente a maioria desta informação nunca vai aparecer no
roteiro, mas pode ser fundamental para que o autor conheça o seu
personagem. De fato, o que aparece em um roteiro é apenas a ponta
do iceberg da caracterização. Mas, igual à ponta do iceberg, precisa
de uma massa de gelo abaixo da água que é várias vezes superior
em volume e que lhe dá sustento, da mesma forma, as personagens
precisam de uma biografia extensa que cubra vários aspectos da sua
vida. O exercício de realizar a biografia da personagem nos obriga a
fazer perguntas que nos permitem conhecer intimamente a
personagem, inclusive mais do que a personagem se conhece a si
mesma.
4.3.5 A credibilidade nas motivações
No tratamento, começam a aparecer novas questões, como a
credibilidade e a coerência interna em relação à história e às
personagens. As ações e motivações do protagonista e das demais
personagens devem ser justificadas e críveis.
A pesquisa da realidade é fundamental, no entanto, devemos
conhecer as características das pessoas de carne e osso apenas
como ponto de referência. Se transcrevermos literalmente estas
características às nossas personagens, elas serão críveis, mas
provavelmente muito óbvias, previsíveis, comuns ou enfadonhas.
Tomando a realidade como base de credibilidade na caracterização,
podemos trocar alguns elementos para conseguir personagens mais
interessantes. No entanto, para cada elemento que alteramos,
corremos o risco de que a personagem seja incomum, pouco crível
e, sendo assim, precisamos buscar o balanço perfeito. Temos que
estar preparados com um conjunto de explicações que tornem críveis
essas variações. Um cirurgião que se impressiona com sangue
certamente seria uma personagem incomum ou fora do comum; mas
também apresenta uma grande quantidade de perguntas que o autor
deve ser capaz de responder se não quiser que sua personagem
seja pouco crível (como, por exemplo: por que decidiu ser cirurgião?
como este problema afeta o seu trabalho? etc.). Voltamos aqui no
conceito de equilíbrio entre o “real” e o “incomum”, de Aronson, que
desenvolvíamos anteriormente.
Conhecer as características reais de uma personagem nos ajuda
como ponto de partida; se acreditávamos que era incomum, deve
haver uma lógica. Por que uma pessoa com um talento especial para
compor música teria de trabalhar como contador? Se não sabemos,
não estamos criando um contador “incomum e real”, simplesmente
estamos criando uma personagem incomum, mas pouco crível.
Talvez o nosso contador tenha escolhido essa carreira por imposição
familiar da qual não pôde se liberar. Talvez tenha baixa autoestima e
não acredite em si mesmo como um bom compositor. As
personagens fortemente ancoradas na realidade, mas com aspectos
fora do comum que as tornem críveis, são potencialmente mais ricas
e complexas.
Independentemente das características dos tipos de personagens
que podemos encontrar na realidade, a pesquisa mais essencial e
determinante na construção de personagens críveis tem a ver com o
único aspecto que todas elas compartilham: sua natureza humana. É aqui que nossa capacidade de observação, análise e reflexão do
roteirista é colocada à prova. Para isso, necessitamos contar com
conhecimentos básicos de psicologia que nos ajudem a
compreender os complexos processos que ocorrem no interior das
pessoas.
Na minha experiência como consultor de roteiro, foi surpreendente
descobrir que são muito poucos os roteiristas que compreendem a
enorme complexidade da conduta humana. Invariavelmente, isto se
reflete em personagens unidimensionais, estereotipados, enfoques
simplistas e justificativas pré-fabricadas ou pouco críveis. Após ter
trabalhado por algum tempo com muitos desses roteiristas, notei um
alto grau de desconhecimento não apenas da conduta do ser
humano em geral, mas inclusive sobre a própria conduta. Por outro
lado, atrás dos poucos roteiros com personagens críveis, complexas
e interessantes, encontrei roteiristas curiosos, analíticos, reflexivos e
conhecedores de, pelo menos, elementos básicos de psicologia.
Outro dos aspectos a considerar na credibilidade das personagens
se refere à sua maneira de agir no mundo. Devemos considerar que,
nas ações das personagens, impõe-se a lógica do menor esforço.
McKee comenta que a natureza é, em essência, conservadora no
uso da energia e os seres humanos, por extensão, realizam o menor
esforço possível para alcançar um determinado objetivo. Se uma
personagem quiser entrar em casa, a lógica seria usar a chave e a
maçaneta. Se, ao invés disso, destruir a porta a chutes, seria uma
ação forçada, não justificada pela simples motivação de entrar na
própria casa. No entanto, tudo depende do contexto. Por exemplo,
Pedro chega a casa, vê fumaça saindo por baixo da porta e escuta o
choro do seu filho. A motivação para entrar rapidamente é mais forte,
no entanto, seria ainda mais forçado que ele quebre a porta. Pedro
tenta abrir com as suas chaves, mas, devido ao seu nervosismo, elas
caem no chão e, ao tentar colocá-las na fechadura, suas mãos
tremem tanto que acaba sendo uma tarefa impossível. Seu filho dá
um grito de dor de dentro da casa, e Pedro, desesperado, começa a
chutar a porta até destruí-la e entra correndo. Esta ação agora está
plenamente justificada pela motivação de Pedro e pelo contexto da
ação.