Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
3.1.3 O Produtor Executivo
seguramente começará a mudar o esquema irregular e muito
encontrado entre os projetos “pessoais” de muitos “Carlos” que
utilizam o trabalho do resto da equipe, mas retêm os direitos de um
produtor.
3.1.3 O Produtor Executivo
Os objetivos principais do Produtor Executivo na etapa de
desenvolvimento do projeto são assegurar a rentabilidade e obter o
financiamento necessário para as etapas de desenvolvimento,
produção e comercialização. Isto coloca o Produtor Executivo
claramente no nível gerencial. É uma espécie de gerente geral do
projeto e, como tal, é a instância superior na tomada de decisões
estratégicas (não essenciais) sobre o produto audiovisual. Sua
função é, junto à do produtor ou da Produtora, a única que cobre
todas as etapas do processo, desde o desenvolvimento do projeto
até a comercialização
FIGURA 19 – O Produtor Executivo
O trabalho do Produtor Executivo tem dois lados; em seu aspecto
externo, é a cara visível do projeto e o encarregado de estabelecer
os vínculos com potenciais coprodutoras, investidores privados e
organismos de financiamento, para conseguir os recursos
necessários para o desenvolvimento, produção e comercialização do projeto. É, por exemplo, quem realiza a apresentação ou pitching
do projeto para conseguir financiamento; também se encarrega de
assinar alguns contratos menores (aqueles que não implicam
obrigações típicas de uma Produtora) e de negociar condições com
outras entidades (por exemplo, um coprodutor, um sindicato, um
fundo de ajuda, o INCAA, etc.)
Um aspecto fundamental de seu papel é zelar pela rentabilidade e
qualidade do projeto. Para isto, deve manter um delicado equilíbrio
entre as demandas de qualidade dos processos artísticos e o
investimento.É indiscutível que um produto audiovisual de boa
qualidade (em termos não somente artísticos, mas também de
valores de produção) pode ser mais fácil de comercializar que um
de baixa qualidade; porém isto não significa que se torne mais
rentável. Um bom projeto pode se tornar caro demais para recuperar
o investimento no mercado ao que está dirigido e muitas vezes o
Produtor Executivo deve decidir a forma de baixar os custos,
conservando um padrão de qualidade.
Entretanto, também pode acontecer o contrário; um bom projeto
pode ver-se limitado em seu potencial por um orçamento restrito.
Levando-se em conta que o Produtor Executivo deve zelar pela
rentabilidade, torna-se óbvio que neste caso deve ampliar o
orçamento para potencializar a exploração do filme.
Seja para ampliar ou para reduzir o montante de investimento, o
segredo está no mercado potencial. Sua correta definição
proporciona ao Produtor Executivo ter um parâmetro através do qual
possa avaliar o potencial de rentabilidade do projeto. Ilustremos isto
com um exemplo: o Produtor Executivo ordena à equipe de
desenvolvimento de roteiro que trabalhe sobre uma história de
aventuras e define o público-alvo como sendo crianças de ambos os
sexos, nível socioeconômico médio, e idade entre 6 e 10 anos.
Tempos depois, o Roteirista-Editor apresenta uma primeira versão
de roteiro e se elabora um orçamento de acordo com o tamanho do
mercado (crianças de 6 a 10 anos). Porém, com a evolução do
projeto, o Produtor Executivo se dá conta de que a história pode tornar-se interessante também para um público adulto. Isto amplia o
potencial de rentabilidade do projeto, ainda que requeira um maior
investimento para a contratação de atores conhecidos e a
incorporação de outros elementos que se tornem atrativos para o
público adulto. Evidentemente, isto implica um aumento dos valores
do orçamento, o que iria contra o conceito de rentabilidade; porém,
se o Produtor Executivo determinar que a não inclusão destes
valores de produção provocaria uma redução nos lucros potenciais,
a correta decisão seria aprovar a ampliação do orçamento.
Dissemos anteriormente que o papel de Produtor Executivo tem um
aspecto externo e outro interno. No aspecto interno do projeto, o
Produtor Executivo possui três funções básicas:
Traçar as estratégias: quer dizer, definir o conjunto de regras
fundamentais para levar adiante o desenvolvimento, a produção
e a comercialização de modo a assegurar a decisão mais
benéfica a cada momento. Estas estratégias têm a finalidade
última de converter o projeto em um bom negócio para a
Produtora.
Gerenciar: uma vez definidas as estratégias, sua função será
organizá-las e conduzi-las enquanto delega aos cabeças das
equipes de roteiro, marketing e produção a elaboração das
táticas.
Controlar: o Produtor Executivo deve controlar a execução das
táticas para corrigir os desvios. Para isto, se encontra
periodicamente com o Roteirista-Editor, o Diretor de Marketing e
o Diretor de Produção para avaliar os avanços e realizar os
ajustes necessários.
O Produtor Executivo concebe, gerencia e controla todos os
processos, mas também é responsável direto pela elaboração de
alguns documentos que fazem parte da pasta de projeto: o
orçamento de produção above the line (dos talentos e dos
elementos que possam agregar valor ao produto final), o plano
financeiro de desenvolvimento e o plano financeiro de produção.
Mais adiante, veremos as características destes documentos.
A equipe de produção executiva
FIGURA 20 – Organograma da equipe de produção executiva
Para gerenciar o desenvolvimento de projetos, o Produtor Executivo
conta com a ajuda do Roteirista-Editor, o Gerente de Marketing e o
Diretor de Produção, mas também tem sua própria equipe que o
apoia com as tarefas administrativas. Esta equipe está composta
por: um Assistente de Produção, um Advogado e um Contador.
O Assistente de Produção libera o Produtor Executivo de tarefas
operacionais como organizar a agenda, realizar telefonemas, etc. O
Advogado o assessora fundamentalmente nos numerosos contratos
que deverá estabelecer ao longo da etapa de desenvolvimento (e
mais adiante, também durante a produção e a comercialização). No
entanto, também o assessora com questões legais gerais para além
da atividade cinematográfica ou televisiva propriamente dita (por
exemplo, constituição de sociedades, obrigações trabalhistas, etc.).
Para os padrões da Metodologia DPA, é de suma importância contar
com um advogado especializado em propriedade intelectual, já que
um erro em um contrato, durante o desenvolvimento, pode traduzir-
se em um processo dispendioso mais adiante.
É frequente que, durante a etapa de desenvolvimento de um projeto
“pessoal”, não se preste suficiente atenção ao assunto legal. No
desenvolvimento de projetos pessoais, as coisas costumam ser
acordadas “de boca”. Em um primeiro momento, faz sentido, já que
neste tipo de desenvolvimento pessoal, as pessoas costumam se unir por afinidade ou interesse pelo projeto, com o qual há mais
concordância do que diferenças. Porém, este comportamento pode
se converter em uma bomba-relógio, que explodirá no pior
momento: quando já foram comprometidos muito tempo, esforço,
energia e dinheiro.
Na Metodologia DPA, a contratação de um advogado especializado
em propriedade intelectual é uma condição indispensável (tanto
tratar-se de um grande projeto quanto de um pequeno) já que
garante a transparência do processo e permite à Produtora estar
segura de que o projeto está bem ancorado. Caso se trate de um
projeto “pessoal”, o Advogado não necessita ser contratado de
forma exclusiva, já que se pode pagar um honorário por consulta
individual.
A respeito do Contador, será de suma importância que tenha uma
especialização e experiência na indústria audiovisual se a produção
entrar em algum sistema de ajudas ou subsídios. No caso dos filmes
subsidiados, existe uma rede de complexos processos contábeis e
administrativos que, se não forem realizados corretamente, podem
significar a perda de grandes quantias. Por outro lado, um filme não
só requer um investimento enorme, mas também envolve um
faturamento de grandes dimensões, motivo pelo qual um pequeno
erro pode significar grandes perdas.
Em um projeto “pessoal” onde não há um sistema de ajudas ou
subsídios, podem ser utilizados os serviços de qualquer contador
durante o desenvolvimento. Não é indispensável que se especialize
no audiovisual, já que geralmente este tipo de projeto conta com
pouco ou nenhum capital, não há pessoal em relação de
subordinação e os processos contáveis são reduzidos.
Padrões de qualidade segundo a Metodologia DPA
Para cumprir seu papel, segundo os padrões de qualidade da
Metodologia DPA, o Produtor Executivo deve ter formação, não
somente em produção cinematográfica, como também em
administração de empresas e marketing. Da mesma forma, o Advogado necessita ser especializado em propriedade intelectual e