Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
5.1 O orçamento preliminar de produção AL
O cancelamento de um projeto a esta altura do processo é uma situação pouco desejada para a Produtora, já que implica na distribuição de recursos sem possibilidade de nenhuma recuperação (com muita sorte, poderia vender os direitos sobre a escaleta, mas para um projeto avaliado como inviável, seria pouco provável). É para reduzir as possibilidades de se chegar a esta situação que a Metodologia DPA tem várias instâncias intermediárias de avaliação, que permitem ir vislumbrando com maior antecipação a viabilidade do projeto. Trata-se das instâncias que vimos ao final de cada documento do roteiro, onde o Produtor Executivo reúne os líderes da equipe e pede sua opinião. Depois, leva os resultados à Produtora para sua aprovação final, que pode cancelar o desenvolvimento a qualquer momento, antes de continuar investindo recursos em um projeto no qual tudo leva a pensar que é inviável.
A seguir, detalhamos passo a passo cada um dos processos de produção e de marketing. Também exploramos as funções dos documentos elaborados pelas equipes de cada uma das áreas. Explicaremos suas características, formatos e técnicas de elaboração.
5.1 O orçamento preliminar de produção AL
Para projetar o custo da produção do filme, o Diretor de Produção primeiro deve elaborar um orçamento preliminar de produção “abaixo da linha” (AL). Não permitimos utilizar a palavra “preliminar” (que é um pouco redundante para um orçamento) para diferenciá-lo do “orçamento de produção abaixo da linha” que será realizado uma vez que estiver aprovada a versão final do roteiro.
Começamos definindo o que é um orçamento “abaixo da linha”. Em todo orçamento, as diferentes variáveis são agrupadas ao redor de categorias que facilitam sua organização. Por exemplo, temos uma categoria referente aos processos de laboratório, outra referente ao aluguel de equipamentos, etc. O orçamento de produção AL contabiliza todas as categorias que não influenciam significativamente o valor agregado do produto audiovisual e cujo valor não varia significativamente de um projeto para o outro. Referimo-nos à compra de bens e serviços e à contratação de pessoal cujos honorários são mantidos em valores similares, independente de quem realizar a função (por exemplo, o chefe de produção, o encarregado de acessórios cenográficos, o assistente de produção, etc.). Trata-se, de maneira geral, de categorias cujo valor não difere significativamente de um projeto para o outro e que não influenciam diretamente no valor agregado que o projeto terá para o público. Um mesmo projeto gera mais interesse no público se, por exemplo, o diretor já tiver realizado outros filmes de sucesso, ou se os atores têm antecedentes em filmes que tiveram grande aceitação no público ao qual nos dirigimos. Ao tratar o orçamento preliminar de produção SL falaremos mais sobre o valor agregado.
5.1.1 Modelo de orçamento de produção
As divisões de orçamento de produção em “abaixo da linha” e “acima da linha” obedecem a várias razões. Por um lado, porque a inclusão de uma ou outra pessoa no orçamento final determina grandes mudanças em relação ao potencial de exploração comercial. E, por outro lado, porque seu custo pode variar enormemente; uma mesma personagem pode ser interpretada por um ator popular que pode receber uma cifra várias vezes superior.
A confecção do orçamento preliminar de produção AL (abaixo da linha) exige, por parte do Diretor de Produção, uma grande quota de experiência já que deve pressupor uma grande quantidade de variáveis. O caminho correto para realizar um orçamento propriamente dito exige a elaboração prévia de um desdobramento e um plano de rodagem. Mas, por tratar-se de um orçamento preliminar, o Diretor de Produção faz uma estimativa em linhas gerais dos elementos relevantes para o desdobramento e um cálculo geral dos dias de rodagem.
Em um primeiro momento, o Diretor de Produção determina (com base no seu conhecimento e experiência) a qual escala de produção o projeto corresponde: pequena, média ou grande. Apesar de não ter sentido realizar um desdobramento, o Diretor de Produção deve identificar na escaleta os recursos significativos em termos de produção que ajudam a dar uma ideia geral do nível de projeto de que se trata. Se, por exemplo, falarmos de uma história com uma grande quantidade de atores e cenários, as personagens pertencem a uma classe social alta (o que exige figurinos, cenografia, acessórios cenográficos e penteados mais caros); com reconstrução de época ou efeitos especiais, evidentemente se trata de uma grande escala de produção. Se, ao contrário, for uma história de 4 personagens de classe média em 10 locações, trata-se de uma escala pequena. Ao definir a escala, o Diretor de Produção conta com um parâmetro para medir com que valores máximos e mínimos irá trabalhar.
Nesta instância preliminar também não faz sentido realizar um plano de rodagem, por isso, o Diretor de Produção calcula um tempo aproximado de rodagem, de acordo com a complexidade que sua experiência diz que pode ter este tipo de história. Um padrão da indústria é calcular 3 páginas de roteiro por jornada de rodagem (neste caso, seria 1 página e meia página de escaleta por jornada). Em um filme de 100 minutos (50 páginas de escaleta), calcula-se 6 a 7 semanas de rodagem. Dependendo da duração do filme e da complexidade que pode ter a rodagem, o Diretor de Produção estima um número x de semanas. A estas semanas, adicionamos o tempo de pré-produção (geralmente entre 2 e 3 meses) e o de pós-produção (que pode variar entre 4 e 5 meses). Considerando os elementos sensíveis identificados na sua leitura e o tempo de pré-produção, rodagem e pós-produção estimado, o Diretor de Produção elabora o orçamento preliminar AL.
Para estimar um valor para os diversos itens, elabora uma base de dados com fornecedores de materiais, equipamentos e serviços. Também deve considerar, de maneira especial, a legislação (leis trabalhistas, convênios sindicais, aspectos fiscais, etc.) e a regulamentação referente a fundos de ajuda, caso o projeto planeje aplicar algum deles (condição indispensável se for um filme de longa-metragem). Por exemplo, na Argentina, o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA) exige que as Produtoras apresentem certificados de “livre dívida” de alguns sindicatos (SICA, AAA, SUTEP e SADEM). Isto determina que o orçamento preliminar de produção AL contemple os valores mínimos exigidos pelos sindicatos que representam os extras, técnicos, atores e músicos, assim como também uma série de condições contempladas nos seus respectivos convênios coletivos de trabalho. Também deve considerar as condições específicas da entrega da ajuda (crédito ou subsídio) que podem incidir no orçamento preliminar de produção AL.
Para mais informações, recomendamos revisar a regulamentação pertinente e consultar os organismos do seu país comprometidos com a indústria audiovisual. Na Argentina:
Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA): <www.incaa.gob.ar>.
Governo de San Luis, Fondo de ayuda audiovisual San Luis Cine: <www.sanluiscine.com>.
Sindicato da Indústria Cinematográfica Argentina (SICA, que representa os técnicos de cinema):
<www.sicacine.org.ar>.
Asociación Argentina de Actores (AAA): <www.actores.org.ar>.
Sindicato Único de Trabalhadores do Espectáculo Público (SUTEP, que representa os extras):
<www.sutep-ra.com.ar>.
Sindicato Argentino de Músicos (SADEM, que representa os intérpretes de música):
<www.sadem.com.ar>.
Sociedad Argentina de Autores y Compositores (SADAIC, que representa os autores de música):
<www.sadaic.org.ar>.
Sociedad General de Autores de la Argentina (Argentores, que representa os roteiristas):
<www.argentores.org.ar>.
Sindicato Argentino de la Televisión (SAT, que representa os técnicos de televisão):
<www.satv.org.ar>.
Elaborar um orçamento preliminar de produção (AL) é uma tarefa complexa que requer um conhecimento teórico e uma experiência ganha ao longo de anos de trabalho em uma produção de campo impossíveis de abarcar neste livro. De todos os modos, o objetivo da Metodologia DPA não é ensinar a elaborar os documentos aqui descritos e sim proporcionar ao leitor uma série de parâmetros com os quais possa avaliar a qualidade de cada um deles.
A seguir, apresentaremos um modelo de um orçamento de produção utilizado na Argentina. Cabe esclarecer que não existe um único modelo padrão em nível internacional, nem sequer nacional. Dentro do mesmo país, podem conviver tantos modelos quantas Produtoras existirem, no entanto, em todos eles encontraremos as mesmas categorias e itens (ou subcategorias) que cobrem a totalidade dos custos de realização de um filme (apenas os agrupamos de maneira diferente).
FIGURA 47 – Modelo de um orçamento de produção argentino
Categoria Item Descrição Preço Unid. Quantidade Preço IVA %
Unitário medida Total $
$ $
1 Roteiro
1 Obra original Corresponde ao orçamento SL
2 Roteiro Já calculado no orçamento de
cinematográfico DESENVOLVIMENTO
3 Pesquisa
4 Outros
Custo total
categoria
2 Direção
1 Diretor Corresponde ao orçamento SL
2 Outros
Custo total
categoria
3 Produção
1 Prod. Executivo Corresponde ao orçamento SL
2 Custos de Já calculado no orçamento de
desenvolvimento DESENVOLVIMENTO
3 Outros
Custo total
categoria
4 Equipe Técnica
1 Equipe Técnica
2 Outros
Custo total
categoria
5 Elenco
1 1ª categoria Corresponde ao orçamento SL
2 2ª categoria Corresponde ao orçamento SL
3 3ª categoria
4 Pontas maiores
5 Pontas menores
6 Pontas maiores
dublagem
7 Pontas menores
dublagem
8 Extras
9 Outros
Custo total
categoria
6 Cargas sociais
1 Sindicato atores Corresponde ao orçamento SL
2 Sindicato técnicos
3 Sindicato músicos
4 Sindicato extras
5 Outros
Custo total
categoria
7 Figurino
1 Compra
2 Realizações
3 Acessórios
4 Aluguéis
5 Manutenção e
limpeza
6 Outros
Custo total
categoria
8 Maquiagem
1 Compra
2 Aluguéis
3 Realizações e FX
4 Outros
Custo total
categoria
9 Objetos
cenográficos
1 Aluguéis
2 Compra
3 Realizações
4 Outros
Custo total
categoria
10 Cenografia
1 Locações
2 Compra materiais
3 Realizações
4 Outros
Custo total
categoria
11 Mobilidade
1 Veículos Produção
2 Veíc. acessórios
cenográficos e
cenografia
3 Táxis, transporte
público
4 Motor-home,
trailers, caminhões
de cargas
5 Viagens
reconhecimento
6 Passagens para o
interior
7 Passagens para o
exterior
8 Fretes de
equipamentos e
acessórios
cenográficos
9 Outros
Custo total
categoria
12 Refeições e
alojamento
1 Buffet nas
filmagens
2 Refeições e
comissões
diversas
3 Alojamento
4 Outros
Custo total
categoria
13 Música
1 Compositor Corresponde ao orçamento SL
2 Músicos
3 Estúdio de
gravação
4 Direitos dos Corresponde ao orçamento SL
fonogramas
5 Outros
Custo total
categoria
14 Filme virgem
1 Negativo cores
2 Positivo cores
3 Negativo de som
4 Internegativo
5 Foto fixa
6 Vídeo
7 Outros
Custo total
categoria
15 Processos de
laboratório
1 Revel. neg. cor
2 Campeão
dosificado
3 Revelação som
4 Transfer
5 Títulos
6 Foto fixa
7 Outros
Custo total
categoria
16 Processos de
som
1 Transcrição em
magnético
2 Aluguel de sala
3 Revelação óptica
4 Regravação
5 Dublagem
6 Sonorização
7 Edição FX
8 Regalias
9 Outros
Custo total
categoria
17 Força motriz
1 Aluguel gerador
2 Combustível do
gerador
3 Combustível
veículos
4 Outros
Custo total
categoria
18 Equipamento de
câmeras e
iluminação
1 Equipamento de
câmeras
2 Equipamento de
luzes
3 Equipamento de
som
4 Reposição de
lâmpadas
5 Equipes de
comunicação
6 Outros
Custo total
categoria
19 Efeitos especiais
1 Contratação
2 Outros
Custo total
categoria
20 Administração
1 Aluguel escritórios
2 Entregadores e
serviço de
mensagens
3 Serviços públicos
4 Insumos de
escritório
5 Pessoal de
administração
6 Honorários
advogado
7 Honorários
contador
8 Outros
Custo total
categoria
21 Seguros
1 Equipamentos
extras
2 Pessoal extra
3 Outros
Custo total
categoria
22 Segurança
1 Pessoal de
segurança
2 Outros
Custo total
categoria
Custo total
orçamento
O orçamento de produção –– assim como todos os documentos da pasta de projeto –– deve ser claro e de fácil leitura. O Produtor Executivo nem sempre estará presente para explicá-lo, portanto é importante que seja absolutamente autoexplicativo. Em um processo de avaliação (onde quem determina o investimento de capital ou dá um prêmio tem de ler mais pastas do que gostaria), um orçamento confuso pode ser uma boa desculpa para descartar um projeto.
Começaremos explicando questões gerais sobre o modelo de orçamento de produção apresentado.
Categoria Item Descrição Preço Unid. Quantidade Preço IVA %
Unitário $ medida Total $ $
No cabeçalho, temos as colunas Categoria e Item que agrupam os recursos necessários para a produção divididos em categorias. A coluna Descrição indica o nome da Categoria ou Item correspondente. Preço Unitário $ refere-se ao valor que tem 1 unidade da categoria ou item correspondente e a moeda utilizada para o seu cálculo. Isto dependerá da Unidade de medida utilizada para a categoria ou item correspondente e que pode ser dias, metros, comidas, honorários, etc. É sumamente importante que a unidade de medida seja expressa claramente para possibilitar o entendimento do orçamento. Em alguns casos, veremos que é possível utilizar diferentes unidades de medida para um mesmo item, por isso devemos decidir qual é a forma mais fácil de fazê-lo. Por exemplo, um contador pode ser pago por mês de trabalho ou combinar um “pacote” ou um honorário por todo o trabalho que tem que fazer. No primeiro caso, indica-se da seguinte maneira:
Categoria Item Descrição Preço Unid. Quantidade Preço IVA %
Unitário medida Total $ $
$
20 7 Honorários $5.000 Meses 4 $20.000 -
contador
Por outro lado, se combinamos com o contador um valor total que cubra todas as tarefas que deve realizar, independente do tempo que leve para realizá-las (normalmente isto é o mais conveniente, já que nunca é possível prever se a produção será estendida ou adiada), deve-se indicar da seguinte maneira:
Categoria Item Descrição Preço Unid. Quantidade Preço IVA %
Unitário medida Total $ $
$
20 7 Honorários $20.000 Honorário 1 $20.000 -
contador
Seguindo com a descrição das colunas, Quantidade se refere a quantas unidades de medidas estamos contabilizando e Preço Total $ é o resultado da multiplicação do Preço Unitário $ pela Quantidade.
A coluna IVA $ corresponde ao que se paga em imposto ao valor agregado que possui a maioria dos bens e serviços. Esta coluna é computada à parte por razões contábeis, já que, se a Produtora for uma agente retentora de IVA (isto é, quando fatura seus produtos, cobra o IVA aos seus clientes), poderá descontar o que já pagou do que deve pagar ao Estado. De fato, quando compramos a maioria dos bens e serviços, pagamos não apenas seu valor, mas também o imposto de valor agregado, que em muitos países, como a Argentina, representa uma porcentagem bastante importante (no nosso país –– Argentina –– é igual a 21% para a maioria dos bens e serviços).
Vejamos um exemplo. Vamos supor que contratamos os serviços para rodagem de uma empresa de buffet (que é agente retentora de IVA) e pagamos $121. Isto significa que pagamos $100 pelo serviço e $21 de IVA. A empresa é agente retentora de IVA, o que significa que ela cobra o imposto do cliente e depois paga ao Estado. Esses $21 de IVA que pagamos nos geram um crédito fiscal, isto é, quanto mais adiante tenhamos que pagar ao Estado o que arrecadamos em seu nome em IVA, podemos descontá-lo.
Agora, se nossa Produtora for agente retentora de IVA, quando vendemos nossos serviços também cobramos esse imposto aos nossos clientes. Suponhamos que vendemos serviços de scouting a um cliente no valor de $121, isto é, o cliente nos paga $100 pelo serviço e $21 de IVA para que o paguemos ao Estado. Mas ao chegar nesse momento, podemos pedir ao Estado que desconte dos $21 de IVA que retivemos em seu nome os $21 que já pagamos por este mesmo conceito à empresa de catering. Em outras palavras, estamos utilizando o crédito fiscal que foi gerado quando pagamos para descontar a dívida fiscal que foi gerada quando cobramos o IVA ao nosso cliente. Como consequência, não temos que pagar nada ao Estado.
Se nossa Produtora não for o agente retentor de IVA, nossos serviços seriam mais baratos (já que o IVA não seria adicionado), mas não poderia descontar nada do que pagamos ao adquirir bens e serviços gravados com esse imposto. Este tema é muito mais complexo do que este exemplo e portanto sugerimos buscar a assessoria de um contador especializado na indústria audiovisual na hora de determinar a estrutura impositiva da Produtora.
Às vezes, a questão do IVA pode ter consequências a mais do que teriam outras empresas, dependendo de se houve pedidos de créditos, subsídios ou outros tipos de ajudas do Estado. Por exemplo, na Argentina, o INCAA não contabiliza o IVA como parte do custo do filme. Como consequência, os limites de crédito ou subsídio, calculados sobre a base do custo do filme, são mais baixos que os que a Produtora realmente paga. Apesar de que nem todos os recursos solicitados para a produção paguem IVA, os totais abonados neste imposto podem representar uma cifra muito alta que nem sempre é possível recuperar como crédito fiscal, já que a Produtora deveria faturar cifras milionárias para descontar o que pagamos como imposto.