Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA

5.6.2 Estilo de redação

O formato correto do roteiro não é uma questão menor; com base na quantidade de páginas, os profissionais encarregados dos processos de produção podem calcular questões muito importantes, como a quantidade de dias de rodagem até a quantidade de material virgem que deve ser comprado e processado, etc. Como existem softwares especializados, não há desculpas para escrever um roteiro em um formato incorreto, o que nos daria uma imagem pouco profissional e dificultaria o trabalho do resto da equipe de desenvolvimento. No entanto, é importante esclarecer uma coisa: os programas de escrita de roteiro não possuem inteligência artificial, por isso, dependem dos roteiristas para chegar a uma página por minuto. De fato, para que o processo de “uma página por minuto” funcione, o Roteirista deve fazer duas coisas: descrever a ação da maneira mais fiel possível e logo ler o roteiro cronometrando a duração das páginas.

 

Daremos algumas recomendações para ajudar o Roteirista nesta tarefa. Em primeiro lugar, as ações complexas devem estar decompostas em uma série de ações simples para manter a proporção da concentração de informação. Vejamos um exemplo de uma ação complexa escrita incorretamente: “Pablo e Diego brigam ferozmente”. Descrito desta forma, ao realizar os cálculos de tempo, o programa não pode fazer mais que concluir que esta ação durará uns poucos segundos, quando na realidade sabemos que levará muito mais tempo contar a luta feroz entre Pablo e Diego. O Roteirista deve decompor este tipo de ações completas em outras mais simples. Por exemplo: “Pablo lança com força o seu punho e acerta em cheio o rosto de Diego. Diego, por um momento atordoado pelo golpe, toca o próprio rosto e observa um instante o sangue que emana do seu lábio. Enfurecido, devolve o golpe com tal força que desequilibra a Pablo, que cai sobre a mesa...” E assim podemos continuar com a descrição até que consideremos que foram descritas ações suficientes que definem o que é uma “briga feroz”. Uma vez terminada a escrita, o Roteirista deve ler em voz alta a cena e cronometrar sua duração para constatar se é adequada. Caso seja necessário ocupar mais espaço para manter a relação entre páginas e minutos, é possível escrever uma oração por linha. Uma vez terminada a primeira versão do roteiro, o Roteirista deve ler o roteiro completo e cronometrar o tempo para realizar as correções necessárias.

 

5.6.2 Estilo de redação

 

Antes de passar para a questão dos diálogos, é conveniente fazer algumas recomendações relativas ao estilo de redação do roteiro. Na minha experiência como consultor, encontrei alguns vícios de escrita que é melhor evitar. A seguir, uma série de recomendações que ajudam a melhorar o estilo de redação:

 

Evite utilizar palavras como “vê-se” e “escuta-se” (ou similares). Se descrevemos a parede de um quarto onde há um pôster, já o estamos vendo. Se descrevemos o som rítmico do teclado do computador no qual a personagem trabalha, estamos escutando-o. É redundante, incômodo e pouco profissional escrever “Vê-se um pôster. Escuta-se o som rítmico das teclas de computador”.

Não se deve repetir os cabeçalhos da cena na descrição da mesma. Se o cabeçalho diz INT RESTAURANT DIA, é redundante começar a descrição da cena com: “Leandro está no restaurante”.

Concentre-se em escrever sobre coisas “que podem ser filmadas”: No roteiro, temos que escrever o que os atores podem atuar e o diretor, filmar. Vejamos um exemplo: “Sara se dirige para a casa da sua mãe para pedir dinheiro”. Esta frase não tem sentido em um roteiro. O que o público verá é Sara caminhando – a menos que escutemos a voz da personagem em off dizendo “Agora vou pedir dinheiro para a minha mãe”. O público só percebe o que pode ser visto e escutado.

Outro erro diz respeito à narração do tipo literária. No tratamento, permite-se o uso de certos recursos próprios da literatura, já que uma das suas funções é transmitir sensações, climas,

etc. Mas o roteiro não é literatura. Vejamos um exemplo: “Os ondulados cabelos de Sara lembram as ondas de um mar embravecido, golpeando com fúria contra os rochedos”. É impossível que o diretor, por mais que conte com o melhor cabeleireiro do mundo, possa filmar isso. Será mais útil descrever como são os cabelos de Sara, caso seja relevante para a história. E se não o for, é melhor eliminar toda referência a eles.

 

Por outro lado, há processos internos de um personagem que são possíveis de filmar e, portanto, devem ser descritos no roteiro. Por exemplo:

 

INT – BAR DON BETO – DIA

Juan segura as mãos de Ana e a olha nos olhos.

 

JUAN

 

Se eu traí você com Carolina,

é porque eu me lembrava de você

 

Ana, não acredita nele.

 

A frase “Ana, não acredita nele” é algo que a atriz pode interpretar, o diretor pode filmar e o espectador perceber e compreender.

 

Evite descrever a ação no diálogo: Os parênteses em um diálogo servem apenas para esclarecer questões que têm a ver com o que a personagem diz. O que a personagem faz deve ser indicado como descrição. Vejamos um exemplo do que NÃO deve ser feito:

 

JUAN

 

(segurando as mãos de Ana

e olhando-a nos olhos)

Se eu traí você com Carolina,

é porque eu me lembrava de você

 

Esta descrição entre parênteses não se refere ao que Juan diz. Se dissesse “humilhado”, “sentido” ou desesperado, aí sim seria correto colocá-lo entre parênteses no lugar correspondente ao diálogo. As descrições de ação entre parênteses não só são desagradáveis para o leitor, como também ocupam mais linhas do que realmente correspondem e, como consequência, distorcem a relação entre páginas e minutos.

 

Evite referências técnicas: Especificações como “primeiro plano sobre” ou “panorâmica lateral” não deveriam estar no roteiro. O enquadramento e a colocação em cena são incumbência específica do diretor, não do roteirista. A linguagem técnica tem um lugar e esse lugar é chamado roteiro técnico – que é elaborado pelo diretor. Isto não significa que o roteirista tenha que abster-se de contar como ele visualiza a história em imagens. Ao contrário, quando falamos de estilo na seção dedicada ao tratamento, vimos que uma das ferramentas que o roteirista tem para expressar o seu estilo é a colocação em cena e o enquadramento. Ao escrever uma cena, o roteirista pode visualizá-la como se estivesse vendo o filme. Um bom roteirista transmitirá a colocação em cena e o enquadramento sem que o leitor perceba. E não é porque queira enganar o diretor e sim porque deve tentar conseguir a conexão emocional para que o leitor mergulhe na viagem emocional da qual tanto falamos. Um roteiro cheio de tecnicismos não faz mais que lembrar ao leitor que o que ele está lendo são palavras em um papel ao invés de permitir que este imagine a história em imagens e sons. Vejamos um exemplo de como escrever um enquadramento ou colocação em cena sem que seja algo técnico: “Uma lágrima cai lentamente pelo rosto de Ana”. Esta