Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
4.1.2 Estrutura clássica
narrativas, já que as mesmas constituem os alicerces na complexa
tarefa de construir o roteiro.
Em nenhum momento esta incursão pretende abarcar este tema em
profundidade; trata-se simplesmente de uma revisão de elementos
que temos que levar em conta e que podem ser mais pesquisados
recorrendo-se aos autores que mencionamos aqui. A princípio,
abordaremos a estrutura clássica e, em seguida, as estruturas
“alternativas” que permitem contar mais de uma história: estruturas
sequenciais e estruturas de múltiplos protagonistas.
4.1.2 Estrutura clássica
A estrutura clássica é um modelo que comprovou sua eficiência na
hora de contar histórias através dos tempos e de diferentes
disciplinas, como a literatura, o teatro, o cinema, etc.
A estrutura clássica pressupõe a existência de um protagonista ativo
que luta para resolver um conflito dramático principal. A história está
contada em 3 atos, que têm diferentes funções. No primeiro,
apresenta-se o conflito dramático; no segundo, desenvolve-se e, no
terceiro, resolve-se. Robert McKee resume as características típicas
da estrutura clássica nos seguintes termos:
O DESENHO CLÁSSICO implica em uma história ao redor de
um protagonista ativo, que luta principalmente contra as forças
externas antagônicas na perseguição do seu desejo, através de
um tempo contínuo, dentro de uma realidade fictícia coerente e
causalmente relacionada, até um final fechado de mudança
absoluta e irreversível 40. (T.N.)
Podemos resumir as características principais de uma história
organizada com uma estrutura clássica da seguinte maneira:
Três atos: apresentação, desenvolvimento e resolução do
conflito dramático; cada um deles com diferentes “pontos
estruturais”.
Um protagonista ativo: que toma decisões e as executa para
conseguir seu objetivo ao longo de toda a história.
Um conflito dramático principal: que deve poder ser enunciado
em termos de “O que o protagonista quer e o que o impede de
fazê-lo?”.
Causalidade: as ações seguem uma lógica de causa-efeito.
Final fechado e irreversível: no final da história, o espectador
deve ter a sensação de que o conflito foi resolvido (positiva ou
negativamente) e que não é possível voltar atrás.
Tempo linear.
Conflito externo: as forças antagônicas se concentram
principalmente no âmbito externo ao protagonista.
Realidade coerente.
A estrutura clássica funciona porque contém os princípios que fazem
a nossa percepção da realidade. Não é preciso dizer que pode haver
inúmeras variações neste desenho e que podem produzir diferentes
resultados. Mas quando alteramos algum dos seus elementos (por
exemplo, a linearidade do tempo), nossa mente realiza um processo
de reelaboração para organizar a informação em um formato
clássico. A ideia aqui não é explicar uma fórmula rígida para o
sucesso (que, na verdade, sequer existe) e sim explicar os princípios
que regem a estrutura clássica para poder compreender os efeitos
que podem causar a variação destes princípios e procurar soluções
para os mesmos.
A figura seguinte descreve os elementos que compõem cada uma
das três partes desta estrutura.
FIGURA 37 – A estrutura clássica
1º Ato: Normalidade, catalisador, pergunta ativa central, plano e
1º ponto de virada
Para situar os pontos estruturais aqui explicados, tomaremos como
exemplo um filme de 100 minutos. No início do primeiro ato,
apresenta-se a “normalidade” do protagonista. Este conceito não
deve ser encarado literalmente, a normalidade é o estado inicial do
protagonista no começo da história. Pode ou não fazer referência ao
seu cotidiano, o protagonista pode começar a história na sua casa ou
pode começar em uma ilha deserta onde o seu avião caiu.
Esta normalidade é mantida até aparecer o “catalisador”, que é um
fato que altera radicalmente a normalidade (aproximadamente entre
os minutos 10 e 15). Costuma ser um problema, um fato externo,
uma proposta ou uma possibilidade, ainda que às vezes seja uma
decisão de alteração por parte do protagonista. Seja qual for o caso,
o importante é que deve apresentar um risco ou problema dramático.
Geralmente, a normalidade costuma ser apresentada como algo
positivo e o catalisador deve ser um evento que rompe essa
normalidade ou a coloca em um alto nível de risco, obrigando o
protagonista lutar para restabelecê-la. Em outras ocasiões, a
normalidade não pode ser uma situação desejável para a
personagem, sendo assim, o catalisador pode ser a decisão do
protagonista de realizar uma mudança na sua vida. Também pode
acontecer de o catalisador ser uma proposta ou uma oportunidade que implica uma mudança importante dessa normalidade. Mesmo se
for uma decisão de mudar ou uma oportunidade, recomenda-se
incluir um risco ou perigo para o protagonista, de tal forma que o
mesmo tenha um problema a resolver e, caso seja possível, que
ambas as questões sejam apresentadas no mesmo momento ou o
mais próximo possível. O catalisador é um ponto estrutural de grande
importância, já que apresenta o conflito dramático principal da
história, que serve de coluna vertebral do relato.
Ao apresentar o catalisador, gera-se na mente do público a “pergunta
ativa central”, que será mantida ao longo de toda a história e que
será respondida de forma afirmativa ou negativa no clímax. A
pergunta ativa central se refere ao conflito principal na linha externa
(as ações) da história e começa com a frase “O protagonista
conseguirá...?”. Esta pergunta não aparece de maneira explícita na
história, ela deve ser formulada inconscientemente na mente do
público.
Como consequência do problema dramático apresentado pelo
catalisador, o protagonista coloca em andamento um “plano” para
resolvê-lo. Este se desenvolve do minuto 10-15 até o 20-25, que é
quando aparece um novo evento. O “primeiro ponto de virada” (na
figura da viagem emocional corresponde ao primeiro pico) refere-se
a um evento surpreendente e relacionado diretamente à pergunta
ativa central que destrói o plano, eleva o risco, obriga o protagonista
a tomar uma decisão e leva a história para uma nova direção,
fechando o primeiro ato.
2º Ato: segundo ponto de virada
O segundo ato começa mais ou menos aos 25 minutos e se estende
até os 75 minutos, é o mais difícil de todos em termos de manter a
atenção do público. Constitui o verdadeiro coração da história e
possui uma extensão igual ao dobro do primeiro ato. No entanto,
diferente deste, não contém muitos pontos estruturais; efetivamente,
apenas um: o “segundo ponto de virada” – que na figura da viagem
emocional corresponde ao segundo pico e que aparece entre os
minutos 65 e 75.
O segundo ponto de virada cumpre com as mesmas características
que o primeiro, mas geralmente coloca o protagonista no ponto mais
afastado de conseguir seu objetivo. Isto faz o público duvidar de que
a pergunta ativa central (“O protagonista conseguirá...?”) será
respondida de maneira positiva.
Alguns autores, como Syd Field, recomendam o uso de um “ponto
médio” no segundo ato. Trata-se de uma espécie de ponto de virada
que está localizado na metade do segundo ato e que altera a direção
da história, desempenhando o papel de “dobradiça” entre duas
partes do segundo ato. Outros, como Seger e McKee, propõem uma
série de técnicas que ajudam a manter a atenção do público. Na
realidade, estas técnicas podem ser utilizadas em todos os atos,
mas, particularmente, ajudam a manter a atenção no segundo.
Técnicas para o 2º ato
O “abismo”
McKee propõe o uso da técnica do “abismo” (em inglês, gap), que se
refere às ações do protagonista e o seu resultado. Quando o
protagonista realiza uma ação com um objetivo e o resultado é um
pouco inesperado, abre-se um abismo que gera surpresa, intriga o
público e apresenta ao protagonista novos problemas dramáticos.
O protagonista persegue um objeto de desejo que está além do
seu alcance. Consciente ou não, decide empreender uma ação
particular, motivado pelo pensamento ou pelo sentimento de que
esse ato levará seu mundo a reagir de modo a tornar-se um
passo adiante na realização do seu desejo. A partir do seu ponto
de vista subjetivo, a ação que escolheu parecerá a menor e a
mais conservadora, mas suficiente para chegar a produzir a
reação que está procurando. Porém, no momento em que
realiza a ação, o reino objetivo da sua visa interna, as relações
pessoais ou o mundo extrapessoal, ou uma combinação de
todos eles reagirão de um modo que acabe sendo mais
poderoso ou diferente do que esperava.
Esta reação por parte do mundo bloqueia seu desejo,
frustrando-o ou deixando-o mais longe da sua obtenção do que
estava antes de iniciar a ação. Ao invés de conseguir que seu
mundo coopere com ele, sua ação provoca forças antagônicas
que abrem um abismo entre suas expectativas subjetivas e o
resultado objetivo, entre o que pensava que ia acontecer ao
realizar a ação e o que realmente acontece…41. (T.N.)
Vejamos um exemplo de “abismo”: No filme “De volta para o futuro”
(1985, escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale), Marty McFly viajou
acidentalmente ao passado e tenta advertir ao seu amigo Doc (um
cientista louco) sobre o atentado que ele sofrerá no futuro. Doc
recusa escutá-lo mais de uma vez, então Marty escreve uma carta
indicando que a mesma deve ser aberta 30 anos depois e a esconde
no bolso do paletó do seu amigo. Mas o cientista a descobre e,
enfurecido, rasga a carta. Aqui Marty realizou uma ação com o
objetivo de salvar a vida do seu amigo no futuro. Mas, ao invés disso,
provocou que o seu amigo destruísse a carta e, com ela, a última
chance de salvá-lo. Deste modo, cria-se um abismo entre as
expectativas de Marty e o resultado objetivo (na realidade, no final do
filme veremos que Doc colou a carta, mas isso não invalida este
exemplo).
Os “obstáculos”, a “complicação” e a “reviravolta”
Seger, por outro lado, propõe usar três “pontos de ação” ou técnicas
que permitem manter a atenção do público durante o segundo ato
(mas que também podem ser utilizadas em qualquer momento da
história): os “obstáculos”, a “complicação” e a “reviravolta”:
Os obstáculos são um ponto de ação que forçam a personagem
a tomar uma nova decisão, começar uma ação nova ou
continuar em outra direção.
O funcionamento dos obstáculos é o seguinte: detêm a ação por
um momento e forçam a personagem a vencer as barreiras para
prosseguir. A história não se desenvolve à margem dos
obstáculos; desenvolve-se a partir da decisão de tentar outra
ação […]
Uma complicação é um ponto de ação que não provoca uma
resposta imediata. Algo acontece, mas a reação só ocorrerá
mais adiante. Teremos que esperar que aconteça e antecipamos
a resposta, que é inevitável.
Por exemplo, vemos uma complicação de “Tootsie” quando
Michael se vestiu de mulher e se fez chamar Dorothy Michaels
com o objetivo de conseguir trabalho. […] Durante o primeiro dia
de trabalho, conheceu Julie. Não acontece nada a partir daí,
mas prevemos o que acontecerá depois. A presença de Julie
complicou os propósitos de Michael. Supomos que ele se
apaixonará por Julie, o que colocará seu trabalho em perigo […]
O ponto de ação mais forte é a reviravolta. Uma reviravolta
produz um giro de 80 graus na direção da história. Passa de
uma posição positiva a uma negativa, ou de uma negativa a uma
positiva. […] Em “Tubarão”, as pessoas da cidade pensam ter
capturado o tubarão e começam a festejar, mas a festa se
inverte quando Matt informa que o tubarão capturado não é o
assassino42. (T.N.)
3º Ato: clímax e epílogo
No terceiro ato (que se estende do minuto 75 ao 100), o protagonista
se prepara para o enfrentamento máximo contra as forças
antagônicas que impedem que consiga seu objetivo e que findará
com o “clímax”. Neste momento, responde-se à pergunta ativa
central (O protagonista conseguirá...?), formulada na mente do
espectador no primeiro ato, resolvendo o conflito de forma positiva
ou negativa. Em outras palavras, o clímax nos conta se o
protagonista finalmente consegue ou não alcançar o seu objetivo. O
clímax é o ponto de maior tensão dramática de toda a estrutura (na
figura da viagem emocional, corresponde ao pico mais alto) e
aparece entre os minutos 90 e 95.
Após o clímax, restam uns 5-10 minutos finais que servem para que
o público volte à calma emocional antes de abandonar a história.
Chamamos a estes últimos minutos “epílogo” (na figura da viagem
emocional, o epílogo corresponde ao descenso final). Alguns atores
o chamam de “resolução”, mas acreditamos que este termo dá lugar a confusão, já que a resolução do problema dramático acontece no
clímax.
O epílogo permite o descenso do nível de tensão dramática para que
–– como afirma McKee – o público possa “recompor-se e sair à rua
com certa dignidade”. Normalmente, no epílogo são resolvidas
questões pendentes de histórias secundárias, mostra-se o
restabelecimento de uma “nova” normalidade ou o que ocorreu após
o clímax.
Análise estrutural de “De volta para o futuro”
Para entender melhor a estrutura clássica, nada melhor que fazer
uma análise estrutural de um clássico: “De volta para o futuro” (1985,
escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale). A seguir, resumimos a
história em formato de sinopse.
O protagonista é Marty McFly (17), um rapaz comum, que tem a má
sorte de carregar o estigma do seu sobrenome. É que na sua cidade,
os McFly têm a reputação (conquistada pelo pai de Marty) de ser uns
perdedores, e Marty herdou do seu pai a falta de confiança na sua
vocação: ser guitarrista de rock.
Certo dia, Marty recebe uma estranha ligação de Doc (um cientista
louco para quem trabalha), que lhe pede que o encontre no
estacionamento de um shopping para filmar um experimento que ele
irá realizar. Trata-se de uma máquina do tempo instalada em um
carro DeLorean. Mas, enquanto eles fazem os preparativos, um
grupo de terroristas aparece, pedindo a Doc o plutônio que ele usou
na sua invenção e atiram no cientista. Marty entra no carro para
escapar e ativa a máquina do tempo, que o leva a 30 anos atrás. Por
sorte, se salva, mas o carro para de funcionar: a carga de plutônio,
que era apenas para uma viagem, havia terminado.
Até aqui temos a normalidade (Marty e seu karma familiar) e o
catalisador (a viagem ao passado). Esta viagem altera sua
normalidade, não apenas porque o transporta no tempo, mas
também porque Marty deixou instantaneamente de ser apontado como perdedor por ser um McFly. Ao mesmo tempo, o catalisador
apresenta a Marty um problema dramático: não tem mais plutônio e
sua namorada e seus entes queridos estão no futuro, portanto, seu
desejo é voltar para aquele tempo. Quando isto acontece, fazemo-
nos a pergunta ativa central: Marty conseguirá voltar para o futuro?
Esta pergunta faz referência direta à linha externa da história: a
história de como Marty consegue ou não voltar para o futuro.
A viagem para o passado e a falta de plutônio obrigam o protagonista
a criar um plano para resolver seu problema dramático, por isso
decide visitar Doc e pedir-lhe que conserte sua máquina. No
caminho, Marty encontra com seu jovem pai, George, e ao vê-lo cair
de uma árvore de onde espiava sua mãe, intervém para salvar sua
vida, mas é atropelado pelo veículo do seu avô. Isto faz com que ele
assuma o lugar do pai e acabe dentro da casa de sua jovem mãe,
Lorraine, que aparenta estar extremamente atraída por ele.
Marty foge da casa e vai visitar Doc para pedir sua ajuda. No
entanto, o cientista afirma que precisa de uma fonte de energia com
poder suficiente para substituir o plutônio (que era impossível de
conseguir em 1955) e a única coisa capaz de fazê-lo era um raio. Pra
sua sorte, Marty sabe exatamente o lugar e o momento em que um
raio irá cair (tem no seu bolso o folheto da campanha para salvar o
relógio da torre, danificado por um raio em 1955). Doc explica a
Marty que irá se encarregar de fazer os preparativos, mas adverte
que Marty não deve sair de casa nem conversar com ninguém, já
que qualquer incidente, por mínimo que seja, poderia ter sérias
consequências no futuro. Preocupado, Marty conta a Doc o incidente
com seus pais e, ao observar a foto da sua família, nota que a
imagem do seu irmão começou a desaparecer.
Apesar do encontro com seus pais (e especialmente a paixão por
parte de sua mãe) ter acontecido antes deste momento, para o
protagonista não existe nenhum risco até que percebe a gravidade
do que aconteceu. Por isso, o primeiro ponto de virada é a
contestação do que foi causado (não o fato em si). Trata-se de um
fato inesperado que destrói o plano (esperar o dia do raio, evitando
qualquer intervenção); já não importa se o raio é ou não canalizado para a máquina do tempo, se Marty não conseguir que os pais se
apaixonem, desaparecerá. Este evento é algo que ocorre ao
protagonista, eleva o risco dramático, faz-nos voltar a perguntar-nos
se Marty conseguirá voltar para o futuro, fecha a apresentação do
conflito e leva a história para uma nova direção. A partir deste ponto
de virada, a história já não trata sobre como Marty e Doc fazem os
preparativos para canalizar a energia do raio e sim sobre como Marty
faz para que seus pais se apaixonem. Essa é a direção seguida em
todo o segundo ato, no qual encontramos uma série interminável de
reviravoltas, abismos, viradas de 180º, complicações e obstáculos
que tornam muito difícil a tarefa de Marty (e que mantém a atenção
do público).
Já no final do segundo ato, Marty conseguiu que George se
animasse a lutar pelo amor de Lorraine, mas ainda não conseguiu
que ela se apaixonasse pelo seu pai (ela ainda continua encantada
com Marty). O dia da tempestade em que cairá o raio finalmente
chega e Marty tem uma única oportunidade de restabelecer a
história. Sabe, pelas histórias familiares, que o amor de seus pais
deve ser selado com um beijo durante o baile “Encanto Submarino”
(que está sendo realizado na mesma noite da tempestade) e então
decide recriar o evento. Marty explica sua estratégia a George: irá ao
baile com Lorraine e, ao estacionar o carro, tentará passar dos
limites com ela. Nesse momento, George deve chegar para impedi-lo
e salvar a Lorraine, ganhando assim a admiração da jovem.
Naquela noite, Marty estaciona o carro disposto a seguir sua
estratégia, mas George se atrasa e quem se aproxima do carro não
é o seu pai e sim Beef, o valentão que ao longo de todo o filme não
faz outra coisa senão fazer com que George seja visto como um
covarde. Beef bate em Marty e seus amigos o trancam no porta-
malas de outro carro.
Enquanto Beef tenta se aproveitar de Lorraine no estacionamento,
George se aproxima disposto a representar seu papel de herói. Fica
horrorizado ao ver o valentão, que o domina e o humilha na frente de
Lorraine. Mas, em um ato de valentia, George encontra força e dá
um golpe certeiro em Beef, nocauteando-o instantaneamente. Marty é retirado do porta-malas pelos músicos da festa e chega a tempo de
presenciar, orgulhoso, a cena. Mas, ao observar a foto familiar,
percebe que as imagens dos seus irmãos continuam desaparecendo.
Alarmado, procura os músicos e comprova que eles suspenderam o
show porque o guitarrista machucou a mão ao liberá-lo do porta-
malas. Marty se oferece para substituí-lo e toca a música, mas
George hesita em beijar Lorraine (o que aumenta a tensão) e Marty
começa a desaparecer. Finalmente, George beija Lorraine, Marty
comprova que na foto familiar as imagens da família voltam a ser
nítidas e sai correndo para encontrar-se com Doc, enquanto a
tempestade vai se aproximando.
Estruturalmente, o cancelamento do show constitui o segundo
ponto de virada. Trata-se de um fato inesperado, que acontece com
o protagonista, eleva o risco dramático e coloca Marty em um ponto
mais afastado de conseguir seu objetivo: faltam poucos minutos para
que caia o raio e se ele não conseguir que seus pais se beijem,
estará condenado a desaparecer. Com isto, o segundo ato termina e
a história vira para uma nova direção: a partir de agora, a história de
como Marty recupera o amor dos seus pais fica para trás e ele volta
a se dedicar completamente à questão da viagem para o futuro.
Na torre do relógio, Doc conectou o cabo que une o para-raios ao
veículo. Marty, que tinha tentado, sem sucesso, que Doc escutasse
sua advertência sobre sua morte no futuro, decide escrever uma
carta e escondê-la no bolso do casaco do cientista. O cientista a
descobre e, indignado, rasga a carta sem ler, uma vez que acredita
firmemente que não se deve mudar o destino. No meio da discussão
e a poucos instantes da queda do raio, o vento derruba um galho que
desconecta o cabo e Doc tem que solucionar o problema enquanto
Marty não tem outra opção a não ser ir para o carro. A tensão
dramática chega ao seu ponto mais alto quando, no último segundo,
o cientista conecta o cabo, ao mesmo tempo o raio cai e Marty viaja
para o futuro. Este é o clímax da história, no qual a pergunta “Marty
conseguirá voltar para o futuro?” é respondida de forma positiva.
Depois disso, chega o epílogo. Aqui termina uma história
secundária, que tinha ficado aberta desde que os bandidos tinham atirado em Doc. Marty presencia novamente a morte de Doc e, triste,
aproxima-se dele. Para sua surpresa, o cientista está vivo, mostra
seu colete à prova de balas e a carta, cuidadosamente remendada.
Neste epílogo também é concluída a volta a uma nova normalidade:
como consequência das ações de Marty no passado, os McFly são
agora uma família de ganhadores e Beef é quem se converteu em
um perdedor.
Para finalizar, a estrutura clássica nos dá uma ideia da forma como a
mente processa melhor a informação e nos permite desenhar nossa
história para provocar a viagem emocional. No entanto, é
sumamente importante compreender que, tanto a estrutura clássica
quando as estruturas alternativas que veremos a seguir não são um
fim em si e sim um meio para organizar uma história. Não é condição
indispensável para um bom roteirista seguir à risca esse esquema,
mas sim compreender seus princípios para prever o impacto que a
troca de um elemento pode ter no público e buscar novas formas de
compensar os desequilíbrios. Um roteirista que retira ou altera um
elemento estrutural como mero ato de rebeldia e não é capaz de
compensá-lo de alguma forma não é genial e sim imaturo, pouco
inteligente ou simplesmente ignorante sobre os princípios que regem
sua arte.
Outra questão importante a compreender é que as estruturas
narrativas não nos garantem uma boa história, existe uma enorme
quantidade de histórias corretamente estruturadas que não
provocam nenhuma viagem, simplesmente porque seus
personagens não são interessantes, ou não provocam empatia, ou a
história é muito previsível, ou está cheia de clichês... ou por qualquer
outra razão. É que as boas histórias não têm tanto a ver com a
originalidade da sua estrutura e sim com a do seu conteúdo. Uma
boa história é como uma boa xícara de café. A estrutura é como a
xícara que contém a história e nos permite acessá-la. Mas dentro
dessa xícara podemos ter um café de qualidade superior ou um café
com gosto de cabo de guarda-chuva. O que colocamos dentro da
estrutura tem uma relação direta com nosso talento – esses 10% de inspiração que fazem com que nossa história seja incomum,
especial, diferente, única.
Definitivamente, o único parâmetro que nos indica se uma história é
boa ou não, é comprovar se provoca no espectador a viagem
emocional com três picos e um descenso final. Aronson coincide com
este enfoque ao sinalizar que o segredo de um bom roteiro está
reduzido a um problema básico: como manter o interesse do público.
Um filme, diferente de outras artes contemporâneas, é
completamente construído e executado na ausência do público e o
roteiro não é mais que a arte de adivinhar a reação desse público
ausente. A estrutura guarda uma relação estreita com o “timing”
(entendido como tempo, ritmo e oportunidade); isto é, saber como e
quando construir suspense, quando esperar até dar uma informação
crucial, conhecer o impacto da energia e a pausa, etc. 43
Robert McKee também concorda com o enfoque da viagem
emocional, já que opina que uma boa história é aquela que consegue
que o espectador se esqueça da realidade que o rodeia, que suba na
montanha russa da história e desfrute da viagem.
Estrutura clássica simplificada e truncada
Há duas variantes da estrutura clássica que são utilizadas para
relatos curtos, como curtas-metragens, spots publicitários e todo tipo
de relatos que não contam com tempo suficiente para apresentar
todos os pontos estruturais. O exemplo típico deste tipo de relato
pode ser encontrado em algumas publicidades que, graças ao uso
extensivo destas variantes, podem contar histórias em um espaço de
30 segundos.
A estrutura clássica simplificada tem as mesmas características que
a clássica, mas não contém pontos de virada. Consiste
simplesmente na apresentação, desenvolvimento e resolução do
conflito dramático principal. É o caso típico das publicidades que
apresentam um protagonista com um problema –– por exemplo, um
personagem que tem um encontro, mas tem mau hálito. O
protagonista se encontra com o produto (uma pasta de dente que resolve o problema), um locutor nos explica como funciona e,
finalmente, vemos o protagonista com seu conflito resolvido
(encontra a garota e a beija). A estrutura simplificada permite contar
uma história completa em poucos segundos, mas é a menos
interessante das duas variantes, já que não provoca nenhuma
surpresa no espectador.
A estrutura clássica truncada é um pouco mais interessante, já que
provoca certo impacto. Consiste em “cortar” a história no primeiro ou
no segundo ponto de virada. O conflito dramático não é resolvido,
mas gera um golpe de efeito e dá ao espectador uma sensação de
fechamento (é uma variante muito utilizada em publicidade e em
curtas-metragens).
Vejamos um exemplo: há alguns anos, houve na Argentina um spot
de sabão em pó Ariel, que contava a história da primeira visita à casa
dos sogros de um rapaz. O rapaz ajuda o sogro a fazer o churrasco,
mas, por mais que tente se aproximar, o sogro não parece muito
comunicativo. O rapaz limpa as mãos sujas de gordura com um pano
que encontra perto da churrasqueira e descobre que é a camiseta
favorita do seu sogro. Sua sogra vê e se oferece para ajudá-lo. Por
sorte, ela tem Ariel que remove até as manchas mais difíceis. Toda a
família vai até o tanque de lavar roupa, onde observa com
expectativa como a camiseta é lavada. Finalmente, o churrasco está
pronto e o sogro está vestindo a camiseta branca impecável, o que
significa que em nenhum momento percebeu o problema. Mas no
momento de servir a comida, o rapaz pede um aplauso para o
preparador do churrasco e dá um tapinha nas costas do sogro,
deixando novamente umas manchas horríveis.
Nesta história temos uma normalidade (o rapaz tentando, sem
sucesso, uma aproximação com seu sogro) e um catalisador
(quando suja a camiseta). Esse fato gera a pergunta ativa central: o
rapaz vai conseguir evitar que o seu sogro veja a mancha? Após
isso, vem o plano: lavar a camiseta, às escondidas, com o produto.
Tudo parece estar resolvido, mas no momento de servir a comida, o
rapaz volta a sujar a camisa. Este evento constitui o primeiro ponto
de virada, que é um fato inesperado que destrói o plano, eleva o risco dramático e volta a apresentar a pergunta ativa central. O
conflito dramático fica sem resolução, mas consegue-se um golpe de
efeito que permite uma sensação de fechamento da história.
Linha externa e linha interna
Quando falamos de estrutura clássica, temos o costume de fazê-lo
em referência aos eventos físicos e às ações do protagonista. Mas
por debaixo destas ações, existe outra estrutura igualmente
complexa que conta outra história e que tem a ver com o que
acontece por dentro das personagens. Alguns autores chamam estes
dois níveis de história “trama principal” e “trama secundária”, outros a
chamam “trama” e “subtrama”, Aronson as denomina “linha de ação”
e “linha de relação”. Nós preferimos denominá-las “linha externa” e
“linha interna”.
A linha externa se refere a todas aquelas ações e ventos que o
público pode perceber. Trata-se de fatos objetivamente comprováveis
e indiscutíveis, sobre os quais há uma única interpretação por parte
do público, sem importar a cultura, formação, opinião, etc. Por
exemplo, em “De volta para o futuro”, Marty entra no carro para
escapar dos terroristas e viaja 30 anos, para trás, no tempo. Trata-se
de um fato externo onde, apesar de não notarmos certas matizes,
fruto de nossa percepção, não podemos ter mais que uma única
interpretação: Marty viajou 30 anos atrás no tempo.
A linha interna, no entanto, é mais subjetiva, já que geralmente não a
temos, nem a escutamos, e sim que devemos deduzi-la a partir da
linha externa. Refere-se aos conflitos internos do protagonista, que
ocorrem como consequência da linha externa. Os dois componentes
principais da linha interna são, por um lado, a evolução nas relações
entre os protagonistas e as demais personagens (as “histórias
secundárias”); e por outro lado, o “arco dramático” do protagonista.
O primeiro componente da linha interna se refere às “histórias
secundárias”, que ocorrem entre o protagonista e o resto das
personagens. O caso típico é o recurso do “love interest” ou
interesse romântico entre o protagonista e outra personagem, que costumamos encontrar em muitos filmes. Mas, por que ficar nisso?
Uma história é potencialmente mais rica quando é contada mais de
uma história secundária entre o protagonista e as demais
personagens (às vezes ocorrem histórias secundárias entre duas
personagens secundárias). Estas histórias ajudam a adicionar
variedade e dimensão à história principal, ao mesmo tempo em que
permitem explorar outras temáticas ou outros pontos de vista em
relação à temática central.
O segundo componente da linha interna, o “arco dramático”, refere-
se às mudanças internas que experimenta o protagonista como
consequência das ações que decide tomar para enfrentar os
problemas da linha externa. Isto faz com que o protagonista seja de
uma forma ao princípio e que, a partir da luta contra os próprios
meios, limitações, preconceitos, crenças, etc., ocorra uma
transformação interna do protagonista.
Uma história é potencialmente mais rica quando mais de um
personagem experimenta uma evolução interna. Mas, embora o
resto das personagens pode ou não ter um arco dramático, o
protagonista não pode dar-se ao luxo de não tê-lo. Quanto mais
pronunciado for o arco dramático do protagonista, mais
possibilidades terá de conseguir a empatia do público. Quando o
roteirista se senta para escrever uma história, deve sempre
considerar que uma condição indispensável para que o público
experimente a viagem emocional é a identificação mental e efetiva
com o protagonista.
Quando falamos da estrutura narrativa de uma história, geralmente
nos referimos à da linha externa. Mas em cada uma das histórias
secundárias e no arco dramático há também uma estrutura narrativa
clássica (ou suas variantes simplificada ou truncada), cujos pontos
estruturais podem ou não coincidir com alguns dos da linha externa.
Em “De volta para o futuro”, por exemplo, podemos identificar
claramente a linha externa e a linha interna. Uma boa forma de fazê-
lo é colocar um título ou etiqueta e no caso da linha externa seria: a
história de como Marty consegue ou não voltar para o futuro. No caso da linha interna, podemos identificar seus dois componentes.
Em relação à evolução das relações entre o protagonista e as
demais personagens, destacam-se as histórias secundárias entre
Marty e Doc; Marty e seu pai; e Marty e sua mãe. Em relação ao arco
dramático, poderíamos defini-lo como “a história de como Marty
resolve sua falta de confiança na sua vocação de músico”.
Como sinalizamos antes, a linha de ação tem sua própria estrutura e
poderíamos analisá-la em cada uma das histórias secundárias e no
arco dramático. Como exemplo, diremos que o arco dramático gira
ao redor da pergunta ativa central de se Marty conseguirá ganhar
confiança no que diz respeito a sua vocação. Esta pergunta é gerada
no catalisador (do arco dramático da linha interna), quando Marty se
apresenta em um concurso de talentos e é desclassificado. E
responde-se no clímax (do arco dramático da linha interna) quando
Marty deve enfrentar seus temores e tocar em público para evitar o
seu próprio desaparecimento. Esta evolução ocorre ao longo do
filme, principalmente através da história secundária entre Marty e seu
pai. Conhecer George de igual para igual, compreendê-lo e ajudá-lo
a ganhar confiança, ajuda Marty a superar seus próprios temores.
Dos dois componentes da linha interna, o único que é mantido ao
longo de toda a extensão da história é o arco dramático. As histórias
secundárias, por outro lado, podem ser desenvolvidas ao longo de
todo o roteiro ou começar e terminar em algum ponto da história. Por
exemplo, em “De volta para o futuro”, a história secundária de Marty
e Doc é mantida ao longo dos três atos, enquanto que a história de
Marty e sua mãe e a de Marty e o seu pai se desenvolvem quase por
completo no segundo ato.
Problemas entre linha externa e linha interna
Uma boa técnica para escrever histórias interessantes consiste em
determinar como a personagem é no início e como é no final da
história (o arco dramático). Após isso, desenha-se uma série de
ações que obrigam o protagonista a enfrentar todos aqueles conflitos
internos que, em circunstâncias normais, evitaria. Estas ações têm
um impacto profundo no protagonista e o obrigam a mudar.
Quando o autor cria uma história não faz nada além de percorrer o
caminho inverso do espectador. Por exemplo, se queremos contar a
história de como o protagonista perdoa seu pai por tê-lo
abandonado, criaremos na linha externa um objetivo que só pode ser
alcançado se conseguir reconstruir sua relação com seu pai.
Uma história bem contada utiliza a linha externa como suporte da
linha interna. Poderíamos comparar a linha externa com uma parede
e a linha interna com uma trepadeira. A trepadeira utiliza a parede
como suporte e esta é embelezada com a vida que a trepadeira lhe
dá com o verde das suas folhas. A parede sozinha se apresentaria
como uma imagem vazia e sem graça. Uma trepadeira sem uma
parede de suporte não conseguiria unir-se à parede e terminaria
enredada em si mesma no chão. Esta imagem descreve muito bem a
sensação que temos quando analisamos roteiros.
Após ter analisado centenas de roteiros, percebi que as histórias
sem uma forte linha externa geralmente são monótonas, pouco
claras, cíclicas e sem sentido como uma trepadeira dando voltas no
chão, sem ir a lugar algum. Muitas vezes estes roteiros são
confundidos com histórias “intimistas”, já que erroneamente acredita-
se que estas não devem ter uma linha externa sólida. Mas as
verdadeiras histórias intimistas têm uma linha externa tão importante
quanto a interna, já que é através das ações do protagonista que o
público pode compreender o que ocorre internamente. Um excelente
exemplo é o filme “Cama adentro” (2004, escrito e dirigido por Jorge
Gaggero). Trata-se de uma história desenvolvida quase totalmente
em uma locação entre duas mulheres: a protagonista, Beba (uma
senhora rica, mas falida) e Dora (sua empregada doméstica). O filme
constrói habilmente uma excelente linha de ação (que trata sobre
como Beba tenta manter seu status) que atua como terreno propício
para o desenvolvimento da linha de relação. Nela, o primeiro
componente é o arco dramático que Beba experimenta e que vai
desde a negação da sua realidade (que vem junto com a soberba)
até a sua aceitação (que permite a aparição de traços de humildade).
A história secundária trata sobre a amizade que surge entre as duas.
Sua relação a princípio é muito assimétrica quando Beba ainda insiste em maltratar sua empregada e evolui até o ponto em que
Dora termina tendo, relativamente, mais poder.
A linha externa tem tanta importância como a interna e os que caem
no erro de menosprezá-la terminam criando histórias que fazem com
que o público perca rapidamente o interesse (e, às vezes, a
paciência). Nas histórias sem uma sólida linha externa, o espectador
tem a sensação de que o único que sabe o que acontece dentro da
mente do protagonista é o autor. Em muitas destas histórias, a única
informação que o público costuma ter sobre a personagem é que
“está angustiada” por algum motivo. Sem maiores informações, é
muito difícil que o público consiga deduzir a linha interna e corremos
o risco de que perca o interesse.
Podemos encontrar um exemplo claro disso no filme “La mujer sin
cabeza” (2008, escrito e dirigido por Lucrecia Martel), tristemente
célebre por ter sido vaiado pelo público no Festival de Cannes. Neste
filme, a protagonista, Verónica, por descuido, atropela “alguma coisa”
com seu carro (aparentemente, uma criança). Ao longo da maior
parte do filme, Verónica está transtornada pelo fato e se debate entre
saber ou não a verdade, mas poucas vezes age para resolver seu
conflito. Como consequência, à medida que o filme vai avançando, o
público vai perdendo o interesse por uma protagonista passiva, que
não faz muito mais que sofrer, impedindo-o de entender o que
realmente acontece. A consequência deste tipo de história é que o
protagonista é afastado do público, que não pode fazer outra coisa
além de contemplá-lo externamente, dificultando a identificação ou a
empatia que deveria sentir para experimentar a viagem emocional.
No extremo oposto encontramos histórias com uma linha externa
com grande desenvolvimento e uma linha interna deficiente (típica
dos filmes de ação). Geralmente, trata-se de histórias nas quais o
protagonista enfrenta grandes desafios físicos, mas tais desafios
parecem não afetá-lo muito, já que o protagonista muda pouco como
consequência deles. O senso comum indica que se estas ações
significaram pouco para o protagonista, por que teríamos de pensar
que podem ser interessantes para o público?