Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA

4.3.4 A biografia da personagem

microcirurgia, podem perder milhares de vidas dos seus futuros

pacientes. Mas digamos que os dois pisem no freio e parem.

Esta opção nos dá uma pista sobre as personagens, mas, qual

deles se deteve para ajudar e qual o faz por estar muito nervoso

para continuar dirigindo? Suponhamos que ambos decidiram

ajudar. Isto nos diz mais sobre as personagens. Mas, quem

escolhe ajudar chamando uma ambulância e quem o faz

entrando no ônibus em chamas? […] Podemos descobrir que,

na profundidade destas diferentes caracterizações, jaz uma

humanidade idêntica –ambos estão dispostos a dar sua vida por

um estranho. Ou pode ser que a pessoa que pensávamos que ia

agir de maneira heroica, na verdade, é um covarde 46. (T.N.)

 

4.3.4 A biografia da personagem

 

A caracterização é determinante na linha interna e condiciona a linha

externa. Se quisermos provocar a viagem emocional no público, as

personagens (principalmente o protagonista) são a melhor maneira.

Independente da genialidade da escrita, é muito difícil que o público

possa se conectar emocionalmente com a história se o protagonista

(ou os protagonistas, no caso de estruturas alternativas) não

provocar(em) empatia. Isto não significa que o protagonista seja

agradável ou simpático; muitas vezes, sentimos empatia por

protagonistas desagradáveis, mal-humorados, imorais, etc. A

empatia é o processo pelo qual nos identificamos de maneira efetiva

e mental com aspectos profundos da personagem. Apesar da

empatia com o protagonista ser uma condição praticamente

indispensável para permitir a viagem emocional, é também altamente

desejável para o resto das personagens; das mais relevantes até as

menores.

 

O tratamento, a caracterização das personagens principais, adquire

uma grande importância. Trabalhar sobre a caracterização implica

conhecer as personagens, por isso, é útil estabelecer uma biografia

para cada personagem principal (começando pelo protagonista) que

contenha os aspectos relevantes das suas vidas e suas origens. É

bem possível que a maioria dos dados que idealizamos na biografia

da personagem nunca apareça no filme. No entanto, é de grande ajuda para que o roteirista possa construir personagens críveis,

consistentes e originais. A razão é simples, uma vez que

conhecemos intimamente nossas personagens e as incorporamos à

nossa mente, automaticamente, podemos saber ou intuir como

reagirão diante de determinadas situações.

 

Um aspecto fundamental da construção de personagens é a

pesquisa. Se não conhecemos a realidade de um contador, de uma

mãe de primeira viagem ou um skinhead, possivelmente podemos

descrevê-lo apenas pelas suas características externas, o que gera

personagens superficiais e estereotipados. Rib Davis oferece uma

detalhada lista de cada um dos aspectos que temos que considerar

ao realizar a biografia de uma personagem; o que desenvolveremos

a seguir. 47 Davis afirma que há 3 aspectos que temos que conhecer

da personagem:

 

Marcas de nascimento: Como é ao nascer (sua herança

genérica e seu entorno).

Experiência: O que aprendeu ao longo da vida.

A personagem agora: Como é no instante em que a história

começa.

 

Marcas de nascimento

 

Gênero.

Raça: Apenas se for relevante para a história.

Classe social: Definida não apenas pelo nível econômico, mas

também pelo conjunto de aspectos sociais e culturais que

implica em pertencer a uma classe social. Trata-se de uma

senhora de alta estirpe que faliu, como no filme “Cama adentro”?

Trata-se de um homem da classe trabalhadora que conseguiu se

formar como advogado?

Antecedentes familiares: Refere-se, por um lado, à biografia

da sua família de nascimento, que devemos sintetizar nos

aspectos relevantes para a personagem. E, por outro lado, à

posição que ocupa na família (é o único filho homem? é o filho

mais novo? é filho de uma família numerosa?)

Nome: É importante considerar, como referência, que nome a

personagem pode ter, de acordo com a época em que nasceu,

sua classe social, seus antecedentes familiares, etc.

 

Experiência

 

Formação: Tipo e nível máximo de educação formal (primário

estatal, universitário privado, secundário bilíngue, etc.).

Aptidões: Geralmente, estão ligadas à educação ou à profissão,

mas nem sempre (inclusive, às vezes são opostas). Se a

personagem é um militar treinado, deve contar com certas

aptidões para luta, organização estratégica, disciplina, etc. Mas,

frequentemente, nos defrontamos com o ditado “casa de ferreiro,

espeto de pau”, que pode ser certo e igualmente válido para a

caracterização de uma personagem.

História da própria família: Refere-se à biografia da família que

a personagem formou: seu cônjuge e seus filhos (se tiver). Esta

família, por ter sido escolhida pela personagem, implica em sua

responsabilidade. Nela incluímos os aspectos relevantes para a

história que estamos escrevendo, como a relação da

personagem com os demais membros da família, sua atitude

para com eles, os conflitos principais, etc.

Sexualidade: Refere-se, por um lado, à sua identidade e

orientação sexual (bissexual, heterossexual, gay, transexual,

etc.). E, por outro lado, à sua atitude em relação ao sexo. É um

predador sexual? Um reprimido? Tem um apetite sexual

insaciável? Sente culpa em relação ao prazer?, etc.

Biografia da personagem (backstory): Os aspectos relevantes

da vida da personagem, desde seu nascimento até o momento

em que começa a história que estamos escrevendo. Aqui,

encontraremos incluídos vários dos pontos mencionados. Muitos

autores preferem começar com o backstory para determinar o

resto dos pontos. Outros preferem organizar este documento

incluindo toda a informação sobre as marcas de nascimento, a

experiência e a personagem agora. Qualquer formato é válido,

sempre e quando cubramos todos os aspectos relevantes da

personagem.

A personagem agora

 

Idade.

Ocupação: Às vezes, a ocupação ou profissão da personagem

é de grande importância para a história. Se estivermos

escrevendo um drama bélico, o fato de o protagonista ser um

militar não é uma informação irrelevante. Aqui, o importante é

como a personagem se relaciona com o seu trabalho (se se

sente realizada, se o odeia, se o converteu no centro da sua

vida, etc.).

Amigos e inimigos: A conhecida frase “Diga-me com quem

andas e eu te direi quem és” não poderia ser mais apropriada.

Os amigos e os inimigos da personagem podem nos contar

aspectos sumamente importantes, independente de se eles

aparecem ou não na história.

Aparência: Como a personagem é fisicamente. Também como é

o seu comportamento pessoal: mantém-se em forma? Veste-se

sempre na moda? É desleixado com o seu aspecto? Não se

preocupa com a vestimenta? Oculta sua calvície com uma

peruca?

Visão de mundo: Trata-se de descrever qual é a sua posição

geral em relação à realidade. Tem tendência a ser otimista,

pessimista, superficial, romântico, cínico, etc.?

Crenças: Refere-se não apenas à sua religião (se fosse

importante) e sim a quais são suas crenças mais importantes.

Acredita que o amor pode tudo? Acredita que os fins justificam

os meios? Acredita que a justiça sempre prevalece? Acredita

que a felicidade só é alcançada com o sacrifício? Etc.

Modo de ser: Aqui, identificamos suas atitudes e formas de

relacionar-se com o mundo mais características: costuma ser

alegre, depressivo, inteligente, bom observador, distante,

retraído, arrogante, negador?

Senso de humor: É importante identificar o senso de humor em

duas questões: por um lado, o que faz para divertir os outros e,

por outro lado, que coisas lhe dão graça. Quando diverte os

outros, é incisivo, sofisticado, vulgar, etc.? Gosta de humor

picaresco, ironia, deboche? Também deveríamos pensar se