Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
5.9 O orçamento definitivo de produção AL (acima da linha)
Caso identifiquem questões que exijam uma reescrita do roteiro, o Roteirista-Editor volta ao passo anterior e trabalha com o Roteirista sobre uma nova versão. É muito provável que, após um processo de desenvolvimento tão minucioso como o apresentado nesta Metodologia, a nova versão de roteiro não apresente alterações substanciais; por isso, os documentos definitivos de produção e de marketing provavelmente não precisem mais do que uns poucos ajustes finais.
Uma vez aprovada a versão final do roteiro, cada líder de equipe o utiliza como base para revisar os documentos preliminares e elaborar os documentos definitivos de produção e de marketing.
5.9 O orçamento definitivo de produção AL (acima da linha)
O Diretor de Produção já conta com um roteiro aprovado com o qual pode revisar o orçamento preliminar AL acima da linha, a fim de elaborar um orçamento definitivo. Trata-se de uma projeção dos custos mais próxima à realidade.
É necessário esclarecer que, apesar de tratar-se do orçamento definitivo, este e outros documentos elaborados durante a etapa de desenvolvimento serão revisados à medida que o projeto avançar em direção às etapas de produção e distribuição. De fato, o ambiente que cerca a criação, produção e comercialização de produtos audiovisuais e seus auxiliares não é, de forma alguma, estático. Por este motivo, cada documento deve ser adaptado (dentro de margens razoáveis) à mutável realidade de um projeto, do seu desenvolvimento até a sua comercialização.
Em termos gerais, todos os documentos elaborados na etapa de desenvolvimento de projetos são estimativos e devem ser revisados. Alguns como o desdobramento, o plano de rodagem e o orçamento, durante a pré-produção, outros como o “Plano de Marketing” ou o cálculo de retorno de investimento durante a etapa de comercialização. Da capacidade, experiência e conhecimento da equipe de desenvolvimento, dependerá que a margem de erro seja maior ou menor.
A mudança e a adaptação formam uma parte essencial da natureza desta indústria, onde a criatividade e o risco são muito altos. Devemos aceitá-las e sermos conscientes de que tudo o que projetamos pode e vai mudar. No entanto, isto não implica que a planificação seja sem sentido. Graças a ela, podemos prever situações possíveis e conhecer as margens dentro das quais os objetivos da Produtora podem ser conseguidos para corrigir os desvios.
Ao elaborar o orçamento definitivo AL acima da linha, o Diretor de produção deve reduzir ao mínimo a margem de erro das suas estimativas. Para isso, conta com dois instrumentos: o desdobramento e o plano de rodagem. O desdobramento permite fazer uma lista minuciosa de todos os recursos necessários para filmar cada cena e o plano de rodagem estabelece a melhor estratégia para desenvolver a rodagem.
5.9.1 O desdobramento
A finalidade do desdobramento é identificar o que precisamos para rodar o filme. Consiste em traduzir a história em recursos de produção, como: figurino, elenco, acessórios cenográficos, etc.
Antes do surgimento dos computadores, o desdobramento era realizado completando-se uma série de planilhas de forma manual. Hoje em dia, com a existência de software especializado no desdobramento para cinema e televisão (como Celtx), o processo é muito mais fácil, simples e rápido.
Sem importar qual é o método que usamos, os princípios do desdobramento são os mesmos; temos que ter o roteiro cena por cena para identificar os elementos que aparecem ali. Ao identificar um recurso de produção (como, por exemplo, um acessório cenográfico), o mesmo é colocado na categoria correspondente. A maneira correta de realizar um desdobramento consiste em encontrar o recurso no lugar de buscá-lo. Isto significa ler de maneira linear do início ao fim toda a cena para identificar os diferentes campos à medida que aparecem. A forma incorreta seria ir ao texto com a intenção de buscar um recurso específico como, por exemplo, acessórios cenográficos; se desdobrarmos desta maneira, certamente não identificaremos vários elementos.
O desdobramento é realizado para cada uma das cenas que aparecem no roteiro, portanto, temos que fazer um registro individual de cada uma delas. Nos programas de desdobramento, à medida que vamos identificando os elementos e situando-os nas categorias correspondentes, gera-se uma base de dados que nos permitirá, mais adiante, elaborar um plano de rodagem.
A seguir, apresentamos um modelo de planilha de desdobramento por cenas, onde encontramos diferentes campos ou categorias. Cada campo apresenta um recurso de produção necessário para filmar uma cena.
FIGURA 57 – Modelo de planilha de desdobramento por cenas
DESDOBRAMENTO POR CENA
TÍTULO: Sec. Oitavos Cena:
Cenário: Locação:
Localização: EXT: INT: DIA: NOITE:
Elenco Vest. Maq. Acessórios Objetos cenográficos
1ª Categoria: Leve
2ª Categoria:
3ª Categoria: Pesado
Pontas:
Extras: Ambientação __________________________________
Dublês:
__________________________________
Animais:
__________________________________
Adestradores:
__________________________________
Aluguel de equipamentos de câmera e Aluguel de equipamento de luzes: som:
Efeitos especiais: Efeitos especiais:
Autorizações: Seguros:
Observações:
Veja que, no final da planilha, há alguns campos que não podem ser completados até que o projeto entre na pré-produção. Durante a etapa de desenvolvimento, o Diretor de Produção utiliza sua experiência e conhecimento para completar essa informação da forma mais próxima possível à realidade. Mais uma vez, o mais importante na elaboração dos documentos na etapa de desenvolvimento é projetar o possível e o razoável.
A planilha é bastante simples, mas para completá-la corretamente é necessário compreender o significado de cada campo. A seguir, resumimos algumas questões que temos que considerar na hora de preparar o desdobramento.
Cenário: É o espaço ficcional onde acontece a história de acordo com o roteiro. Por exemplo: “Quarto Maria”, que deve aparecer exatamente igual à forma que está no roteiro. Quase sempre é necessário corrigir os cabeçalhos dos cenários antes de fazer o desdobramento para evitar que o programa identifique como diferentes do cenário que não foram escritos da mesma forma. Por exemplo: Quarto Maria e Quarto da Maria. Recomenda-se que todas as cenas sejam escritas indicando o cenário principal primeiro e depois o específico, separando ambos com uma barra. Por exemplo: Casa da Maria/Quarto. Dessa forma, ao organizar os cabeçalhos alfabeticamente, saberemos quantas cenas tem cada
cenário principal e cada espaço dentro do mesmo. Por exemplo: Casa da Maria/Banheiro; Casa da Maria/sala de jantar; Casa da Maria/quarto).
Locação: É o espaço físico real no qual se filma o cenário. Por ex. “Casa Maria” será filmada no “Estúdio XX – na rua XXX”. Este campo e o da localização só podem ser preenchidos ao entrar na fase de pré-produção.
Localização: São as subdivisões ou os lugares dentro de uma mesma locação onde se filma mais de uma cena. Por exemplo: a cena “Casa Maria” será filmada na locação: Estúdio XX –– na rua XXX e a localização “Estúdio nº 4”. Nesta mesma locação, também será filmada a cena “Casa Juan” na localização “Estúdio nº 3”.
Elenco: Aqui são indicados os nomes das personagens (não dos atores), de acordo com a categoria a que pertencem. Na Argentina, as categorias são 1ª, 2ª, 3ª e pontas (para mais informações sobre as categorias, consulte a Asociación Argentina de Actores,
<www.actores.org.ar>. A organização destes campos pode ser diferente, de acordo com a normativa ou usos e costumes do país onde a rodagem está sendo realizada. Figurino: É utilizado um código para cada uma das personagens listadas na seção “elenco”. Geralmente, é utilizada a letra F (de figurino), seguida pela inicial da personagem e um número. Por exemplo, o primeiro figurino de Maria teria o código FM1. Os números são correlativos e identificam um único figurino. Isto significa que não pode haver dois figurinos com o mesmo código. Quando o projeto entra na etapa de pré-produção, o figurinista indicará, em uma planilha à parte, a descrição do figurino correspondente a cada código (por enquanto não é necessário).
Maquiagem: São aplicados os mesmos critérios que para o figurino. Acessórios: Refere-se aos elementos que complementam o figurino. Por ex. guarda-chuva, bengala, colar, mochila, bolsa, etc. São indicados os mesmos critérios aplicados para a nomenclatura do figurino: indica-se apenas um código (não o elemento). Acessórios cenográficos leves: Indica aqueles objetos pequenos que podem ser manipulados facilmente.
Acessórios cenográficos pesados: Objetos pesados (geralmente móveis). Ambientação: São componentes fixos do cenário: Por ex.: escada, corredor, janela, etc. Também pode ser algum elemento decorativo geral que não corresponda aos acessórios cenográficos leves nem pesados. Por exemplo, quando precisar que um quarto dê a sensação de que foi abandonado por algum tempo.
Efeitos especiais: Refere-se tanto aos efeitos que devem ser filmados no cenário quanto aos que devem ser feitos em pós-produção (por exemplo, uma animação). Efeitos especiais: Qualquer tipo de serviço especial requerido para a rodagem: Por exemplo: neve artificial, fumaça, chuva, etc.
Nos campos “aluguel de equipamentos de som” e “aluguel de equipamentos de câmera e luzes” são indicados apenas os equipamentos especiais que são necessários para a cena (isto é, aqueles que não estão incluídos em um pacote padrão de rodagem). Por exemplo, pode ser preciso alugar uma câmera subaquática para uma cena, mas não teria sentido que a alugássemos durante toda a rodagem do filme.
O mesmo pode ser aplicado no campo correspondente a “seguros” (sobre o pessoal e sobre os equipamentos). Em algumas cenas, podemos precisar da contratação de um seguro especial, fora do pacote padrão, que o Diretor de Produção calcula para uma produção da envergadura do projeto. Tanto para o aluguel de equipamentos como para o seguro, o Diretor de Produção faz um cálculo aproximado de um preço pacote padrão de acordo com o nível de orçamento (baixo, médio ou alto) e logo indica em cada cena aqueles elementos que não estão incluídos no mesmo.
Para completar o campo “oitavos”, é necessária uma explicação à parte. Em um roteiro formatado corretamente, cada página corresponde a um minuto de tela. Calcula-se que, por cada jornada de filmagem, filma-se o material correspondente a três páginas (isto é, 3 minutos). Mas, como muitas vezes as cenas duram menos de uma página, é necessário uma unidade de medida menor. Se pegarmos uma página de roteiro e a dobrarmos pela metade três vezes, ao abri-la veremos que ficou dividida em oito seções transversais. Calcula-se que a cena mais curta não pode durar menos de um oitavo de página, por isso, adotou-se esta unidade de medida para o cálculo da duração das cenas. Esta unidade de medida é muito importante (por isso, nossa metodologia recomenda o uso de um software de roteiro para sua formatação correta). Isto nos permite, por exemplo, calcular a quantidade de material virgem necessário para rodar o filme. Também nos indica o tempo aproximado que leva para filmar a cena (calcula-se que um oitavo corresponde a aproximadamente 20 minutos de rodagem). Se escrevermos nosso roteiro com um software de roteiro, não temos que nos preocupar, já que os oitavos são calculados automaticamente.