Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
3.4.1 Como escrever uma premissa
FIGURA 32 – A PREMISSA
Técnica de geração de ideias
A premissa é:
uma frase de, no máximo, 100 palavras
cuja finalidade é causar interesse no leitor
que sintetiza a essência da estória e deixa claro:
o gênero específico
o protagonista
o conflito dramático
o espaço e o tempo
e o gancho
Consideramos que o formato aqui proposto torna-se extremamente
útil, já que permite estabelecer bases sólidas sobre as quais
fundamentar o posterior desenvolvimento do roteiro, ao resumir em
uma única frase os elementos essenciais necessários para
desenvolver uma história. Mas é importante esclarecer que não
existe um consenso universal a respeito deste formato. Por isso,
aconselhamos que, ao apresentar a premissa a um terceiro (por
exemplo, para um concurso, para um pedido de subsídio, etc.), se
verifique com a entidade correspondente qual é o formato solicitado
e adaptá-la ao mesmo.
Além de ter que adaptar-se para a apresentação a uma terceira
pessoa, a premissa escrita segundo a Metodologia DPA seguirá
sendo a base de nosso desenvolvimento de roteiro. Como é
necessário para nossa metodologia definir as pautas da premissa,
utilizaremos os conceitos estabelecidos por Philip Parker (The Art
and Science of Screenwriting) e Syd Fiod (The Screenwriter’s
Workbook).
3.4.1 Como escrever uma premissa Em seu livro The Screenwriter’s Workshop, Syd Fiod afirma que a
primeira coisa que o Roteirista deve estabelecer, ao começar o
processo que eventualmente finalizará em um roteiro, é a premissa
(ele a denomina “tema”, mas preferimos o termo premissa para
evitar confusões com outros aspectos do roteiro). Fiod explica que a
premissa deve definir-se em termos de “um personagem realizando
uma determinada linha de ação dramática ou cômica”. A este
respeito comenta:
[…] Em minhas oficinas de roteiro, a primeira coisa que peço às
pessoas é que me contem de que trata sua história. Escuto
respostas como: ‘Estou escrevendo sobre o bem e o mal’. Essa
é uma das minhas favoritas. Ou ‘Estou escrevendo sobre três
gerações de uma família irlandesa em Chicago, no momento da
convenção democrática de 1968’ […]. Nenhum destes futuros
roteiristas tem ideia alguma sobre o que vão escrever […] 29.
(T.N.)
Fiod acredita que o Roteirista deve saber quem é o protagonista e
que ações dramáticas realizará. Como exercício, propõe conceber
uma ideia e desenvolvê-la em 3 frases, seguindo o princípio de um
personagem que realiza ações. Para a escrita da premissa,
recomenda:
[...] Leia-o em voz alta. Retoque-o um pouco mais. Faça isso
até que seu tema esteja perfeitamente claro e você possa
expressá-lo clara e concisamente em três ou quatro frases30.
(T.N.)
É importante destacar que a premissa deve contar a história, porém
não deve explicá-la. Assim como todos os documentos de roteiro, a
premissa não deve precisar de uma explicação para que o leitor
compreenda sua força, sua importância ou seu sentido, pois, desta
forma, significaria que, como roteiristas, não estaríamos fazendo
bem nosso trabalho. Além disso, explicar implica em certo
menosprezo pelo leitor, não sendo, portanto, recomendável.
A premissa é o primeiro dos documentos confeccionado pela equipe
de roteiro. No entanto, não é completamente um documento de
roteiro já que, mesmo sendo uma síntese do essencial da história,
na maioria das vezes, trata-se de uma comunicação publicitária com
um claro objetivo persuasivo: despertar o interesse do leitor pelo
projeto e motivá-lo a ler o resto da pasta de desenvolvimento.
Vejamos agora, ponto a ponto, cada um dos elementos que devem
figurar em uma premissa.
Gênero específico
Em todo o mundo, quando se pitcheia um projeto (quer dizer,
quando se expõe oralmente um projeto com a intenção de atrair um
potencial sócio, investidor, colaborador, etc.), a primeira coisa que
se deve esclarecer é o gênero. Quer pitcheemos o projeto a um
investidor, um ator ou um diretor, o tema da definição do gênero é a
chave que pode abrir ou fechar uma porta importante para o projeto.
Assim como em um pitching, na premissa, é recomendável que se
defina o gênero o mais rápido possível ou, pelo menos, que se dê
uma ideia clara sobre ele.
Dizer qual é o gênero logo ao início da premissa permite ao leitor
contextualizar o resto do texto automaticamente. Se o leitor souber o
gênero desde o começo, poderá concentrar sua atenção na
premissa, em vez de parte de sua atenção se deslocar
inconscientemente para elucidar de que tipo de história se trata.
A definição do gênero específico também permite ao Roteirista e ao
Roteirista-Editor partir de um conjunto de elementos já determinados
(caracterização, conflito, ponto de vista, etc.), evitando-lhe o
trabalho de “reinventar a roda” com cada nova história. Por outro
lado, permite concentrar a atenção naqueles aspectos originais ou
“incomuns” a respeito do gênero, os quais podem servir como
“gancho” para o leitor.
Quando indicamos o gênero, devemos ser bastante específicos,
pois de nada serve que digamos que se trata de um documentário, uma comédia ou um drama, já que são termos demasiadamente
generalizantes que acabam não definindo nada. Devemos
perguntar-nos, por exemplo, se é um drama: De que tipo? Drama
social? Drama romântico? Drama biográfico? Drama familiar?
A lista de gêneros elaborada por McKee (a qual transcrevemos mais
adiante) pode servir de referência, mas também podemos recorrer à
imprensa, à tentativa e erro com conhecidos, etc. É que muitas
vezes a definição tecnicamente correta pode dar uma ideia errônea
a nosso leitor. Por exemplo, palavras como “mistério de um
assassinato” podem soar familiares em inglês (murder mystery),
mas em castelhano, talvez, seja melhor intitulá-lo como “policial
investigativo” ou outra frase que soe mais clara ou familiar para o
leitor.
Muitas vezes se tende a desvalorizar um filme “de gênero” por ser
considerado uma história pré-fabricada e previsível. Isto é
consequência de uma confusão entre o conceito de “gênero” e o de
“fórmula”. Um filme de “fórmula” tem uma história geralmente
baseada em um sucesso de bilheteria anterior e tenta reproduzir ou
repetir os mesmos elementos. É o caso típico das sequências ou
“prequelas”.
O gênero, diferentemente da fórmula, faz referência a um conjunto
de padrões reconhecíveis em certos tipos de histórias que são
compartilhadas entre o autor e o público e que se vão construindo
ao longo do tempo, à medida que esse diálogo evolui. A esse
respeito, Robert McKee afirma, em seu livro Story, que o gênero
surgiu como uma forma de classificar os numerosos padrões de
histórias desenvolvidos ao longo de dezenas de milhares de anos
de narrativa.
[…] Em uma tentativa de dar sentido a essa produção, foram
concebidos diversos sistemas para classificar as histórias
segundo uma série de elementos comuns, o que levou a sua
catalogação por gênero. Não obstante, não se chegou jamais a
um acordo sobre o número e tipo de gêneros que existem.
Aristóteles nos ofereceu os primeiros gêneros, dividindo os
dramas segundo o valor do final de suas histórias e seu
desenho narrativo. Ele observou que as narrações podiam
terminar com uma carga positiva ou negativa. Por sua vez, cada
um desses dois tipos poderia apresentar um desenho simples
(que terminasse sem nenhum ponto de inflexão ou surpresa) ou
um desenho complexo (que apresentasse um clímax
relacionado a uma grande mudança na vida do protagonista). O
resultado produz quatro gêneros básicos: trágico simples,
cômico simples, trágico complexo e cômico complexo.
Porém, ao longo dos séculos, a lucidez de Aristóteles se
perdeu, pois misturaram e contaminaram cada vez mais os
sistemas de classificação de gêneros31. (T.N.)
Vários autores tentaram diferentes classificações, mas não existe
uma classificação universal de gêneros. A razão é que os gêneros
não somente são dinâmicos (mudam à medida que evolui o diálogo
entre autores e público), mas também têm uma relação muito
próxima com a cultura; por isso, os elementos que definem um
gênero em uma cultura podem diferir dos que o definem em outra.
Entretanto, com a chegada do cinema e o estabelecimento da
supremacia dos Estados Unidos no mercado mundial, conseguiu-se
uma certa homologação de quais são os elementos que definem
certos gêneros (pelo menos, os gêneros desenvolvidos pelo cinema
norte-americano). McKee comenta que, mesmo que os estudiosos
continuem a pôr-se de acordo quanto à classificação dos gêneros, o
público se tornou especialista. Comenta que o público:
[…] entra em cada uma das salas para ver um filme carregado
de um conjunto complexo de expectativas aprendidas ao longo
de toda uma vida a ver filmes. A sofisticação genérica dos
espectadores expõe para o roteirista um desafio crítico: não
somente se deve satisfazer as expectativas do público ou
arriscar-se a confundi-los ou decepcioná-los, mas também deve
levar seus desejos inconscientes a momentos novos e
inesperados, ou arriscar-se a entediá-los. Esse duplo truque
torna-se impossível sem possuir um conhecimento sobre os
gêneros que supere o do público […]32. (T.N.)
Cada espectador, inconscientemente, identifica de forma automática
a que gênero (ou combinação de gêneros) pertence um filme. Como
mencionamos anteriormente, ainda que não exista um catálogo
universal de gêneros, existem alguns que têm certo grau de
consenso devido ao papel que desempenhou em nível mundial o
cinema dos Estados Unidos. McKee apresenta uma lista de gêneros
utilizada pelos roteiristas norte-americanos.
“HISTÓRIA DE AMOR: Seu subgênero, o salvamento do
companheiro, substitui a amizade pelo amor romântico: “Mean
Streets”, “Passion Fish”, “Rommy and Michele’s High School
Reunion”.
FILME DE TERROR: Este gênero se divide em três
subgêneros: o misterioso, onde a fonte de terror é
surpreendente, mas está sujeita a uma explicação “racional”,
como seres do espaço, monstros criados pela ciência, um
maníaco, etc.; ou sobrenatural, onde a fonte de terror é um
fenômeno “irracional” do mundo dos espíritos; e o super-
misterioso, onde se mantém o público em dúvida sobre se
tratar de uma ou outra das duas possibilidades: “The Tenant”,
“Hour of the Wolf”, “The Shining”.
ÉPICO MODERNO: (a pessoa diante do Estado): “Spartacus”,
“Mr. Smith Goes to Washington”, “Viva Zapata!”, “1984”, “The
People Vs. Larry Flint”.
FAROESTE: A evolução deste gênero e seus subgêneros está
brilhantemente retratada na obra de Will Wright, “Six Gums And
Society”.
BÉLICO: Ainda que a guerra possa ser a ambientação de
outros gêneros, como a história de amor, o gênero bélico
trata especificamente de um combate. Seus subgêneros
principais são o pró-bélico e o antibélico. Os filmes
contemporâneos geralmente se opõem à guerra, ainda que
durante décadas a maioria a glorificava de maneira velada,
inclusive em sua forma mais crua.
TRAMA DE MATURIDADE: Também chamada “coming-of-
age” (atingimento da maturidade): “Stand By Me”, “Saturday
Night Fever”, “Risky Business”, “Big”, “Bambi”, “Murilo’s
Wedding”.
TRAMA DE REDENÇÃO: Neste caso, o filme gira em torno a
uma mudança moral do protagonista, de mau a bom: “The
Hustler”, “Lord Jim”, “Drugstore Cowboy”, “Schindler’s List”, “La
Promesse”.
TRAMA DE CASTIGO: Aqui o mocinho se torna mau e é
castigado: “Greed”, “The Treasure of The Sierra Madre”,
“Mephisto”, “Wall Street”, “Falling Down”.
TRAMA DE PROVAS: Histórias acerca do poder da vontade
diante da tentação de render-se: “The Old Man And The Sea”,
“Cool Hand Luke”, “Fritzcarraldo”, “Forrest Gump”.
TRAMA EDUCATIVA: Este gênero gira em torno de uma
mudança profunda na visão que tem o protagonista da vida, das
pessoas, ou de si mesmo desde o negativo (ingênuo,
desconfiado, fatalista, ódio a si mesmo), até o positivo (sábio,
confiante, otimista, satisfeito consigo mesmo): “Harold And
Maude”, “Tender Mercies”, “Winter Light”, “Il Postino”, “Gross
Pointe Bank”, “My Best Friend’s Wedding”, “Shall We Dance”.
TRAMA DE DESILUSÃO: Uma profunda mudança na visão do
mundo, passando de positiva a negativa: “Mrs. Parker And The
Vicious Circle”, “L’Eclisse”, “Le Feut Follet”, “The Great Gatsby”,
“Macbeth” 33.
Estes são somente alguns dos gêneros específicos, mas também
existem “gêneros-mãe” ou, como os chama McKee, “megagêneros”
que são muito amplos e têm tal nível de complexidade que dão lugar
a uma grande variedade de subgêneros.
“COMÉDIA: Seus subgêneros variam desde a paródia, a
sátira, a comédia de situação (sitcom), o romance, à
comédia maluca (screwball), a farsa, o humor negro e todos
eles apresentam diferentes enfoques em sua abordagem
cômica (loucura burocrática, hábitos da classe alta, paquera
entre adolescentes, etc.) e no nível de ridicularização (suave,
ácido ou letal).
POLICIAL: Seus subgêneros variam muito de acordo com a
resposta que deem à seguinte pergunta: De qual ponto de vista
analisamos o crime? O mistério de um assassinato (murder
mystery) (ponto de vista do investigador); criminal (ponto de
vista do mestre do crime), detetivesco (ponto de vista do
policial), de gangsters (ponto de vista do ladrão), de suspense
ou de vingança (ponto de vista da vítima), de tribunal (ponto
de vista do advogado), jornalístico (ponto de vista do
jornalista), de espionagem (ponto de vista do espião), de
prisão (ponto de vista do preso), negro (ponto de vista de um
protagonista que poderia ser em parte criminoso, em parte
detetive, em parte vítima de uma mulher fatal).
DRAMA SOCIAL: Este gênero identifica os problemas da
sociedade –– a pobreza, o sistema educacional, as doenças
contagiosas, os desventurados, a revolta social e similares –– e
constrói uma história que apresenta uma solução. Conta com
uma série de subgêneros bem definidos: o drama doméstico
ou familiar (problemas dentro da família), o filme de mulheres
(dilemas tais como entre a carreira profissional e a família, ou
entre o amante e os filhos), o drama político (corrupção
política), o drama médico (luta contra enfermidades físicas) e o
psicodrama (luta contra enfermidades mentais).
AÇÃO/AVENTURA: Em geral, utiliza aspectos de outros
gêneros, como o bélico ou o drama político, para usá-los
como motivação para uma ação explosiva ou uma façanha
heroica. Se a ação/aventura incorporar ideias como o destino,
o orgulho desmedido ou o espiritual, se converte no subgênero
de grande aventura: “The Man Who Would Be King”. Se a
fonte do antagonismo for a Mãe Natureza, trata-se de um filme
do subgênero catástrofe/sobrevivência: “Alive”, “The
Poseidon Adventure 34 ”.
Se ampliarmos a visão do gênero incorporando elementos que não
se referem exclusivamente à história, mas também a estilos de
atuação, técnicas de filmagem, ambientação, etc., encontramos gêneros ainda mais amplos, os quais McKee denomina
“supragêneros”. Trata-se de gêneros amplos que abarcam outros
gêneros e subgêneros ou inclusive combinações entre estes.
DRAMA HISTÓRICO: a História é uma fonte inesgotável de
material narrativo e cobre qualquer tipo de história imaginável.
Entretanto, o baú de tesouros da História encontra-se selado
com um aviso: o que é passado deve converter-se em presente.
Os roteiristas não são como poetas que buscam que os
descubram depois da sua morte. Devem encontrar um público
agora. Portanto, o uso mais adequado da História e a única
desculpa legítima para ambientar um filme no passado,
acrescentando, assim, milhões ao orçamento, é usar o passado
como se fosse um cristal, através do qual nos mostra o
presente. Há muitos conflitos contemporâneos capazes de nos
pôr bastante tensos e que, ademais, estão carregados de tanta
controvérsia que seria difícil dramatizá-los em uma
ambientação moderna sem perder o público. Em geral, esses
dilemas se veem melhor a uma certa distância temporal. O
DRAMA HISTÓRICO pole o passado no espelho do presente
conseguindo, por exemplo, que o problema do racismo
retratado em “Glory”, o da contenda religiosa de “Michael
Collins” ou o da violência de qualquer tipo, em particular contra
as mulheres, como em “Unforgiven”, converta-se em algo claro
e mais fácil de suportar […].
BIOGRAFIA. Prima-irmã do drama histórico, este gênero se
centra em uma pessoa, em vez de uma época. Porém, a
BIOGRAFIA não deve nunca se converter em uma simples
crônica. Que alguém viveu, morreu e fez coisas interessantes
nesse meio tempo, somente tem um interesse acadêmico, nada
mais. O biógrafo deve interpretar os fatos como se fossem uma
ficção, encontrar significado para a vida do sujeito e então
convertê-lo no protagonista do gênero de sua vida: “Young Mr.
Lincoln” defende o inocente em um drama de tribunais;
“Gandhi” se converte no herói de um épico moderno; “Isadora”
sucumbe diante de uma trama de desilusão; “Nixon” sofre em
uma trama de castigo.
Estas advertências se aplicam igualmente ao subgênero
autobiografia. Este termo é popular entre os realizadores que
sentem que deveriam escrever um filme sobre um tema que
conhecem. E isso está correto. Porém, os filmes
autobiográficos, amiúde, carecem da mesma virtude que
prometem: conhecimento do eu. Porque ainda que seja correto
que uma vida sem exame não vale à pena ser vivida, também o
é que a vida que não foi vivida não vale à pena ser examinada.
“Big Wednesday”, por exemplo 35. (T.N.)
Como podemos analisar na lista de gêneros descrita por McKee,
mesmo os gêneros maiores, como os que denomina
“supragêneros”, são definidos em termos específicos com
elementos constitutivos básicos. Fica claro que em cada gênero ou
subgênero há outros elementos que fazem parte de sua natureza
que não são desenvolvidos em toda sua extensão por McKee, já
que são material para vários livros. A lista não se esgota aqui, há
mais “supragêneros”:
DOCUDRAMA. Estreitamente relacionado ao drama histórico,
o DOCUDRAMA se centra em acontecimentos recentes, em
vez de no passado. Após ver-se enriquecido e estimulado pelo
cinema verité (“Battle of Algiers”), converteu-se em um popular
gênero televisivo, às vezes poderoso ainda que, em geral, de
pouco valor documental.
FALSO DOCUMENTÁRIO. Este gênero pretende basear-se em
fatos ou recordações, comporta-se como um documentário ou
uma autobiografia, porém é totalmente fictício. Subverte a
realização cinematográfica baseada em fatos para satirizar a
hipocrisia das instituições: o mundo do rock and roll por trás dos
palcos em “This is Spinal Tap”; a igreja católica em “Roma”; os
costumes da classe média em “Zoig”, o jornalismo televisivo em
“Man Bites Dog”, a política em “Bob Roberts”; os estúpidos
valores americanos em “To Die For”.
MUSICAL: Procedente da ópera, este gênero apresenta uma
“realidade” na qual as personagens cantam e dançam suas
histórias. A rigor, trata-se de uma história de amor, mas pode
tratar-se de um policial negro: a adaptação de “Sunset
Boulevard”; de um drama social: “West Side Story”; de uma
trama punitiva: “All That Jazz”; de uma biografia: “Evita”. De
fato, qualquer gênero pode funcionar em formato musical e
todos podem se converter em sátiras na comédia musical.
FICÇÃO CIENTÍFICA: Em futuros hipotéticos que
habitualmente são antiutopias tecnológicas da tirania e do caos,
o roteirista de FICÇÃO CIENTÍFICA, normalmente, amalgama
um épico moderno sobre homem-contra-Estado com
ação/aventura: a trilogia de “Star Wars” e “Total Recall”. Porém,
igualmente ao passado, o futuro é um ambiente no qual
qualquer gênero pode situar-se. Por exemplo, em “Solaris”,
Andrei Tarkovsky utilizou a ficção científica para interpretar os
conflitos internos de uma trama de desilusão.
GÊNERO ESPORTIVO: O esporte é um caldeirão para gerar
mudanças nas personagens. […]
FANTASIA. Neste caso, o roteirista joga com o tempo, o
espaço e a física, dobrando e misturando as leis da natureza e
do sobrenatural. Os acréscimos à realidade da FANTASIA
atraem os gêneros de ação, porém também acolhem outros,
tais como a história de amor: “Somewhere in Time”; o drama
político/ alegórico: “Animal Farm”; o drama social: “If...”; a
trama de maturidade: “Alice in Wonderand”.
ANIMAÇÃO: Aqui nos encontramos com o governo da lei do
metamorfismo universal. Qualquer coisa se pode converter em
algo distinto. Como na fantasia e na ficção científica, a
ANIMAÇÃO tende a gêneros de ação de farsas animadas:
“Bugs Bunny”; ou o gênero de grande aventura: “The Sword In
The Stone”, “The Yellow Submarine”; e, dado que o público
jovem é seu mercado natural, há muitas tramas de
maturidade: ”The Lion King”, “The Little Mermaid”; assim como
têm demonstrado os animadores da Europa do Leste e do
Japão, não há limite para este gênero […].
FILME DE ARTE. A noção vanguardista de escrever sem
rotular-se com um gênero é ingênua. Ninguém escreve no
vazio. Depois de milênios de narrativa, não existe nenhuma
história que seja tão diferente que não guarde nada de parecido
com o que se escreveu antes. O cinema de arte se converteu
em um gênero tradicional, que se pode subdividir em dois
subgêneros: o minimalismo e o antiestrutural, cada um com
suas próprias convenções formais de estrutura e cosmologia.
Como o drama histórico, o cinema de arte constitui um
supragênero que aceita o resto dos gêneros básicos: história
de amor 36 , drama político, etc.”
Sem dúvidas, o gênero é um aspecto fundamental do
desenvolvimento de todo projeto, já que nos permite saber quais
são as expectativas do público a respeito da história. Como
consequência disso, permite que nos concentremos no original, no
diferente, no “incomum” que, como Roteiristas, aportamos à história.
É importante esclarecer, no entanto, que não se pode mudar
qualquer elemento; existem alguns “elementos pétreos” em cada
gênero. Trata-se de elementos essenciais que definem o gênero em
si e sem os quais a história simplesmente não pertence a esse
gênero. Por exemplo, se escrevermos uma história dentro do gênero
de comédia romântica, os “elementos pétreos” são que haja um
homem ou mulher que se apaixone por alguém (outro homem ou
outra mulher); que há barreiras que se interpõem entre eles (do tipo
cômicas); e que finalmente ambos terminarão juntos. Respeitando
estes “elementos pétreos”, nos concentraremos em buscar algo
original em nossa história. Sem trair as regras básicas de uma
comédia romântica, o que podemos aportar de novo, diferente,
inesperado? Que combinações novas podemos fazer com outros
gêneros?
Protagonista
É muito importante deixar claro na premissa de quem é a história
que se está contando, em outras palavras, o protagonista. Se
estivermos pensando em uma história com uma estrutura clássica,
há um único protagonista e um conflito dramático principal. Caso
estejamos pensando em uma estrutura alternativa como as
sequências de múltiplos protagonistas (sobre as quais falaremos mais adiante), há mais de um protagonista e cada um terá seu
próprio conflito dramático principal. No caso de estruturas
alternativas, a premissa às vezes costuma estender-se um pouco
além das 100 palavras.
Do protagonista, devemos indicar alguns dados mínimos:
Nome: É recomendável evitar referir-se aos protagonistas
usando genéricos como “um policial”, “um empregado bancário”
ou “uma psicóloga”. O que devemos conseguir com cada um
dos documentos de roteiro (premissa, sinopse, tratamento,
escaleta e roteiro) é aproximar emocionalmente o leitor das
personagens; e em especial, do protagonista. Se desde o
princípio nos referimos a ele com um nome genérico, já
estaremos impondo certa distância.
Idade: Outra informação que devemos dar sobre o protagonista
é uma ideia de sua idade. Não é necessário ser específico e
dizer quantos anos tem, mas ao menos dar uma ideia; usar
palavras como “um adolescente”, “uma senhora idosa”, “uma
criança”, etc. dão suficiente informação. A idade é outro
elemento que ajuda o leitor a contextualizar a história; não é o
mesmo a história de “Diego, um jovem universitário apaixonado
por sua professora de matemática” que a de “Diego, uma
criança apaixonada por sua professora de matemática”.
Papel dramático: Um terceiro elemento que devemos incluir na
premissa, ao falar do protagonista, é seu papel central a
respeito da história. Porém, não devemos confundir o papel
dramático com a profissão; em muitas histórias, a profissão do
protagonista coincide com seu papel dramático e em outras,
não. Por exemplo: “uma trama de castigo acerca de Daniel, um
jovem empresário, que planeja enganar seu sócio…”. Aqui a
profissão de Daniel (empresário) coincide com seu papel
dramático na história. Entretanto, se a história for “uma trama
de castigo acerca de Daniel, um jovem empresário que
descobre a infidelidade de sua esposa e planeja assassiná-
la…”, a profissão de Daniel parece irrelevante para a história.
Seu papel central será o de um “marido ciumento”, um “esposo
devoto”, etc.
Objetivo: Por último, devemos deixar claro na premissa qual é
o objetivo principal do protagonista na história. Em outras
palavras, o que quer. Este objetivo central é fundamental para
estabelecer o conflito dramático, já que, uma vez que
identificamos o que quer a personagem, nos falta apenas dizer
quem se opõe a ele.
O “antagonista mentor”
Devemos agregar que o protagonista nem sempre é a personagem
mais importante. Em algumas histórias, existe outro tipo de
personagem que pode tornar-se, inclusive, mais importante que o
protagonista. Exemplos disto vemos em filmes como “The Silence
Of The Lambs” (1991, escrito por Thomas Harris e Ted Taoly),
“Scent of A Woman” (1992, escrito por Bo Goldman) e baseado no
roteiro do filme italiano “Profumo di donna” (1974, escrito por
Ruggero Maccari e Dino Rissi) e “Citizen Kane” (1941, escrito por
Herman Manckiewitcz e Orson Welles), entre outros.
Em “The Silence Of The Lambs”, a protagonista é Clarice Starling,
uma jovem cadete do FBI, um personagem relativamente pouco
interessante comparado com Hannibal Lecter, o psicopata
antropófago que é quem monopoliza a atenção. Na versão
estadunidense de “Scent of A Woman”, o protagonista é Charlie
Simms, um jovem estudante que aceita um trabalho como
acompanhante do tenente-coronel Frank Slade. No entanto, a
personagem de Charlie tem pouco de interessante se comparado a
Frank. Por último, em “Citizen Kane”, um filme com uma estrutura
narrativa que contém mais de um protagonista, a personagem
principal, Charles Foster Kane, atua como antagonista mentor.
Estes casos em que o protagonista torna-se menos importante ou
interessante que o antagonista se explicam porque correspondem a
uma categoria de personagens que Aronson descreve como
“antagonista mentor”37. O “antagonista-mentor” é um personagem misterioso (que às vezes é perigoso, outras, mentor positivo),
absolutamente fora do comum e geralmente incapaz de mudar de
comportamento.
Os “antagonistas-mentores” são tão únicos e diferentes que se torna
muito difícil entendê-los. Por isso, não podem ser protagonistas. Se
entendêssemos a realidade de seu ponto de vista, o “antagonista
mentor” poderia perder valor, já que lhe tiraríamos aquilo que o torna
fascinante: sua natureza misteriosa ou indecifrável.
Se víssemos a história do ponto de vista de um “antagonista
mentor”, o que se tornaria misterioso e incompreensível é a
realidade em si mesma. Este é um recurso que pode ser utilizado
com êxito, como é o caso do filme “Identity” (2003, escrito por
Michael Cooney), onde o protagonista é um esquizofrênico com
múltiplas identidades e o que vemos é a história que acontece
dentro de sua cabeça. Porém, em outros casos, corremos o risco de
perder um personagem potencialmente fascinante. Por isso, quando
temos este tipo de personagens, a técnica geralmente utilizada pelo
Roteirista é criar um protagonista menor –– alguém “mais normal”
com quem possamos nos identificar –– que é quem será
influenciado positiva ou negativamente pelo antagonista-mentor.
Como identificar o protagonista
Na maioria dos casos, fica evidente quem é o protagonista, mas há
algumas histórias nas quais isso pode ser uma tarefa difícil. A
seguir, enumeramos uma série de características que geralmente
têm os protagonistas, as quais foram descritas por Aronson. É
provável que o protagonista não tenha todas as características
adiante enumeradas, ou que mais de um personagem tenha estas
características. Neste caso, devemos prestar atenção à personagem
que reúne a maioria delas, já que esse provavelmente será o
protagonista. Se, ainda assim, não ficar claro, então talvez seja
conveniente rever as personagens e a estrutura dramática, pois
poderíamos estar diante de um provável problema de protagonismo.
Por ora, vejamos quais são as características que definem o
protagonista:
O protagonista não morre: exceto excepcionalmente ao final do
roteiro. Isto se deve ao fato de que deve estar ali para poder
finalizar sua própria história.
O protagonista é aquele a quem lhe complicam a vida: e quem
lhe complica a vida são os antagonistas.
O protagonista é aquele em cuja cabeça estamos como
espectadores: é com quem nos identificamos, ainda que não
seja a pessoa mais interessante do filme. Sua função é a de
prover o ponto de vista de uma pessoa “normal”.
O protagonista é quem mais muda: tipicamente, isto é
consequência de sua resposta ante o antagonista. O
antagonista nem sempre experimenta um arco dramático tão
proeminente quanto o do protagonista. Também pode dar-se o
caso dos filmes de aventuras/ ação, em que o protagonista nem
sempre muda. Com tantas cenas de ação, resta pouco espaço
para aprofundar-se na personagem.
O protagonista geralmente leva adiante a ação: e toma as
decisões. À exceção de que tenhamos um “antagonista mentor”
em nosso roteiro.
O protagonista geralmente é quem fala em off: O público
costuma identificar, convencionalmente, o narrador em off com
o protagonista, ainda que haja exceções.
O protagonista protagoniza a “linha externa” (as ações) e “a
linha interna” (os conflitos internos) –– mais adiante, falaremos
com mais detalhes acerca destes conceitos.
Pode haver mais de um protagonista: como no caso de roteiros
escritos com estruturas de múltiplos protagonistas onde se
narra a história de um grupo.
O protagonista é central nos diferentes pontos da estrutura:
catalisador, 1º e 2º pontos de inflexão, clímax, etc.38
Conflito dramático
Uma vez esclarecido o objetivo principal do protagonista na história,
podemos estabelecer o conflito dramático principal. Geralmente, ele,
mencionado na premissa, se refere à “linha externa”, quer dizer, às ações dramáticas externas e perceptíveis que servem como coluna
vertebral da história.
O conflito dramático principal deve ser exposto de uma forma clara e
sincera: O que deseja o protagonista? O que (ou quem) se opõe a
ele? Isto que parece ser muito simples é um dos problemas mais
recorrentes das premissas dos projetos que analisei ao longo da
minha carreira. A maioria dos Roteiristas parece ter dificuldades na
hora de determinar algo tão simples e ao mesmo tempo tão
importante para o resto do desenvolvimento do roteiro.
Parte do problema talvez tenha a ver com confundir “conflito
dramático” (um termo técnico de roteiro) com a palavra “conflito” em
seu uso corrente. Quando observamos em uma cena duas pessoas
discutindo, evidentemente há um “conflito”; porém não um “conflito
dramático” até que saibamos qual deles é o protagonista, o que quer
e o que a ele se opõe. De fato, há filmes inteiros que têm este
problema básico de ausência de conflito dramático. Exemplos disto
são “La mujer sin cabeza” (2007, escrito por Lucrecia Marto),
“Nacido y criado” (2006, escrito por Mario Rulloni e Pablo Trapero) e
“Un año sin amor” (2004, escrito por Pablo Pérez e Anahí Berneri,
baseado na novela homônima de Pablo Pérez).
Em “Un año sin amor”, por exemplo, o protagonista, Juan Minujín,
contraiu HIV e decidiu abandonar seu tratamento, ao mesmo tempo
em que se incursionou no mundo do sadomasoquismo.
Evidentemente, Juan vive uma vida conflitiva, mas por mais que
sofra ao longo de todo o filme, a história carece de conflito
dramático. De fato, em termos dramáticos, não há nenhum conflito
já que nada parece se opor a seu desejo: de fato, em primeiro lugar,
deseja deixar seu tratamento e o faz sem problemas; e, em segundo
lugar, nada se opõe a seu desejo de estabelecer relações
sadomasoquistas.
Muitas vezes, a oposição principal ao desejo do protagonista
provém de outra personagem, que denominamos antagonista. No
entanto, também pode provir de várias personagens, inclusive de
outras forças como a sociedade, a natureza ou até o sobrenatural. Preferimos nos referir a “forças antagônicas” que a “antagonista”, já
que a primeira terminologia nos parece mais ampla. As forças
antagônicas na história sempre são múltiplas, no entanto, na
premissa, devemos identificar somente a principal. Como vimos, a
premissa se constitui de um parágrafo muito curto, por isso não
podemos incluir nela toda a informação importante, mas somente a
essencial e absolutamente determinante.
Áreas de conflito
Quando desenvolvemos a história, descobrimos que as forças
antagônicas são múltiplas e se encontram em várias frentes ao
mesmo tempo.Se analisarmos os tipos de forças, encontraremos
diferentes âmbitos de antagonismo, que vão desde o mais íntimo,
até o mais afastado e que determinam as diferentes áreas de
conflito: interno, interpessoal, social, natural e sobrenatural.
GRÁFICO – ÁREAS DE CONFLITO
A área de conflito mais próxima do protagonista é a do conflito
interno. Neste caso, é o próprio protagonista quem se opõe a seus
objetivos: seus medos, sua inexperiência, seus preconceitos, suas
contradições, seus desejos inconscientes, etc. impedem que
consiga o que deseja.
Se nos afastarmos em direção ao exterior, aparecem os conflitos
entre o desejo do protagonista e o de outras personagens. Um homem que luta contra o despotismo de seu chefe para conseguir a
promoção tão esperada, ou um policial que luta contra a astúcia do
assassino em série para conseguir prendê-lo. São claros exemplos
da área de conflito interpessoal.
Mais longe, se encontram os conflitos que podem surgir entre o que
quer o protagonista e um grupo de pessoas. Uma mulher que luta
contra o machismo imperante nas forças armadas para consagrar-
se como piloto da força aérea estaria travando uma batalha na área
de conflito social. Aqui são as instituições, os grupos sociais, os
grupos culturais, etc. que se opõem a que o protagonista atinja seu
objetivo.
Também pode ocorrer que aquilo que o protagonista deseja
conseguir se veja dificultado pelas forças naturais. Um pai que quer
resgatar seus filhos de uma feroz tempestade ou um capitão que
batalha contra as ondas de um mar bravio para chegar ao destino
são exemplos de protagonistas que lutam contra as forças da
natureza, dando lugar à área de conflito natural.
Por último, a área mais afastada do protagonista é a do conflito
sobrenatural. Um mortal lutando contra a vontade dos deuses, um
homem lutando contra sua má sorte são exemplos de conflitos nesta
área.
Como dizíamos anteriormente, em toda história existem múltiplas
frentes em quase todas estas áreas de conflito. Algumas destas
áreas têm maior peso de acordo com o tipo de gênero e inclusive de
acordo com o tipo de meio que utilizamos para contar uma história.
Tal como dizia o filósofo de comunicação, Marshall Mcluhan, “o meio
é a mensagem”. Em outras palavras, as características do meio pelo
qual se transmite a mensagem podem modificá-lo. Em teatro, por
exemplo, torna-se óbvio que as histórias que melhor se adaptam a
este meio são aquelas onde o conflito está centrado na área
interpessoal. A literatura, diferentemente do teatro ou do cinema,
permite desenvolver conflitos internos. O cinema não é um bom
meio para histórias deste tipo; por isso, ao realizar uma adaptação literária, é necessário dramatizar o conflito interno, levando-o a
outras áreas como a do conflito interpessoal, social, etc. O cinema
também permite o desenvolvimento de conflitos baseados nas áreas
mais longínquas do conflito natural e sobrenatural.
Na premissa não podemos resumir todas as frentes de conflito
dramático, por isso devemos nos concentrar unicamente no conflito
dramático principal. Sabendo o objetivo principal do protagonista,
identificamos de que área provém a maior oposição.
Espaço e tempo
Na premissa, deve haver alguma referência ao tempo e ao espaço.
Se tratar-se de uma história contemporânea, não será necessário
esclarecer o tempo; mas é recomendável esclarecer o lugar ou
espaço onde se desenvolve a ação. Isto porque não sabemos onde
estará geograficamente o leitor da premissa e se não dissermos
nada, assumirá que se trata de uma história em nível local; em
outras palavras, que acontece perto de onde se encontra o leitor.
Isto pode dar lugar a confusões que facilmente podem se resolver,
esclarecendo sempre o lugar da ação.
O “gancho”
A premissa serve como base para o desenvolvimento do roteiro;
porém, possui também uma natureza persuasiva. Ao longo do
desenvolvimento de projetos, há 3 documentos que compartilham
esta natureza: a premissa, o pitching e o pré-trailer. De fato, estes
três documentos têm uma natureza em grande parte persuasiva e
se assemelham à comunicação publicitária. Os três possuem o
mesmo objetivo: convencer o destinatário a realizar uma ação
determinada (que continue lendo a pasta, que financie o projeto, que
participe dele, etc.). Como ressaltamos anteriormente, é fácil avaliar
se uma premissa, um pitching ou um pré-trailer é bom ou ruim: se
consegue que o destinatário realize a ação desejada, é bom; se
não, é ruim.
O objetivo principal da premissa é capturar o leitor e gerar suficiente
interesse para que prossiga na leitura dos demais documentos da
pasta de projeto. Esta é a finalidade maior, já que se não for
atingida, o restante fica sem razão de ser. Por isso, deve ter pelo
menos um “gancho” que, nesta instância, deve ser exclusivamente
da história. Em outras palavras, não pode contar como gancho da
premissa que o protagonista é interpretado por um ator conhecido
–– em todo caso, isto pode ser o gancho do projeto e corre por
conta do Produtor Executivo. Aqui, nos referimos ao gancho da
história, que é mérito unicamente da equipe de desenvolvimento de
roteiro composta pelo Roteirista e o Roteirista-Editor.
O “gancho” geralmente tem uma relação direta com o “original” ou
“incomum”; mas pode ser qualquer elemento que gere interesse.
Por exemplo; uma combinação incomum de elementos de diferentes
gêneros; uma temática pouco abordada, controvertida ou exposta a
partir de um novo ponto de vista; um elemento da história que
raramente se encontra neste gênero; um personagem interessante;
um conflito dramático incomum para este tipo de histórias; um final
surpreendente; etc. Definitivamente, pode tratar-se de qualquer
elemento da história que gere interesse no leitor por saber mais
acerca do projeto.
Finalidade da premissa
FIGURA 33 – Finalidade da premissa
Uma boa premissa deve:
prender o leitor
demonstrar potencial para sustentar a duração em tela
demonstrar que tem tanto elementos conhecidos como
originais
estabelecer quem é o protagonista e qual é o conflito
dramático (ou a hipótese)
A premissa é a chave de entrada para qualquer pessoa que avalie
nosso projeto e não podemos desperdiçar essa oportunidade. Uma
premissa deve cumprir com o objetivo principal de capturar o leitor e
deixá-lo interessado em nosso projeto por meio do “gancho”. Porém,
também tem outros objetivos importantes. O segundo objetivo é
assegurar o leitor de que esta ideia tem suficiente potencial para
sustentar a duração de um filme (seja este um longa-metragem ou
uma série de televisão).
Apesar de ser difícil determinar cabalmente, na premissa, a
complexidade futura da trama, podemos avaliar inicialmente seu
potencial de complexidade. É possível, nesta instância, identificar se
a história corresponde a um curta-metragem (quer dizer que se trata
de algo meramente anedótico, baseado em uma circunstância
particular que logo esgota suas possibilidades) ou se tem potencial
de desenvolvimento em um formato maior (como um longa-
metragem ou uma minissérie).
As premissas com potencial de sustentar um formato longo são
aquelas nas quais se adivinha o desenvolvimento de uma trama
complexa desde a ação dramática e os conflitos internos dos
protagonistas. Se a premissa corresponder a um formato longo,
deve demonstrar que a ideia pode expandir-se para gerar uma
história que mantenha a atenção do público durante a duração
proposta pelo projeto. Quando se trata de uma série ou minissérie
televisiva, o desafio é ainda maior, já que deve manter várias horas
de atenção divididas em vários capítulos.
O terceiro objetivo é demonstrar que há elementos conhecidos e
originais no projeto: ou seja, que possui os componentes de
“verdadeiro” e “incomum” aos quais se refere Aronson. Isto está
relacionado ao conceito de gênero como conjunto de expectativas
que tem o público a respeito de uma história. Uma história que não
satisfaz nenhuma das expectativas do público torna-se tão
decepcionante quanto uma que satisfaz todas e cada uma delas.
Uma história onde as personagens, a trama, o conflito, os diálogos,
as ações dramáticas, etc. são os esperados gera rapidamente a perda de interesse do público. Uma história que captura o público é
aquela que cumpre com os “elementos pétreos” do gênero, mas
reserva outros elementos inesperados, únicos e incomuns que
surpreendem o público e o capturam.
O quarto e último objetivo é deixar claro quem é (ou quem são) o(s)
protagonista(s) e seu “conflito dramático” (no caso de uma estrutura
dramática para ficção ou documentário) ou a hipótese a ser
comprovada (no caso de um documentário sem estrutura
dramática).
Dependendo do tipo de estrutura narrativa, pode haver um ou mais
protagonistas com o correspondente conflito dramático principal
para cada um. Além disso, a premissa deve estabelecer claramente
os protagonistas e sintetizar a essência do conflito dramático
principal de cada um. O conflito dramático principal constitui o
coração da história e deve ser estabelecido claramente.
Isto é válido para uma narrativa que conta uma história (típica de
ficção e muito utilizada no documentário). No entanto, alguns
documentários não utilizam uma estrutura dramática (com um ou
vários protagonistas, com objetivos e forças antagônicas que se
opõem a eles), mas explicam conceitos, processos, etc. Para estes
casos, a Metodologia DPA sugere a utilização de uma estrutura em
três atos, baseada no conceito de “tese”, com a enunciação da
hipótese no primeiro ato, o desenvolvimento desta no segundo e a
conclusão no terceiro. Ao se tratar de um documentário com uma
estrutura de tese, a premissa deve deixar claro qual é a hipótese a
demonstrar ou refutar.
Exemplos de premissa
“The Others” é uma história de terror sobrenatural sobre Grace,
uma jovem mulher que vive com seus filhos em uma casa mal-
assombrada no início do século XX. Os eventos sobrenaturais
ameaçam sua família e Grace não consegue encontrar a causa.
Não sabe que ela e seus filhos são os verdadeiros fantasmas
ali.
O príncipe não é encantado. O herói é um ogro. Os contos de
fadas nunca voltarão a ser os mesmos... Era uma vez um ogro
solitário, Shrek, que vivia tranquilo em seu pântano. Mas as
criaturas que invadem seu lugar buscando refúgio do despótico
Lord Farquaad o obrigam a fazer um trato e, para tal, deve
conseguir que a boa princesa Fiona se case com o horrível
déspota para que volte a aceitar os intrusos.
Nesta premissa do filme “Shrek”, vemos um exemplo de como se
pode dar uma ideia clara do gênero sem nomeá-lo. As palavras “Era
uma vez…” e “conto de fadas”, assim como o resto do texto, dão por
certo que se trata de uma paródia de um conto de fadas. Da mesma
forma, a oração que começa por “Era uma vez…” não está
presente; no entanto, a premissa atinge sua finalidade mais
importante: despertar interesse pelo projeto. Adicionalmente, deixa
claro quem é o protagonista, o conflito dramático, o lugar e o gancho
e, apesar de não haver uma ideia clara quanto ao tempo e à idade
do protagonista, isto não afeta a funcionalidade da premissa, já que
não são relevantes nesta história.
Como avaliar uma premissa
Responder às seguintes perguntas:
Fica claro qual é o gênero?
Fica claro quem é o protagonista?
Podemos responder à pergunta: “O que quer o protagonista e o
que se opõe a ele”?
Conta a ideia em vez de explicá-la?
Gera no leitor intriga, interesse, desejo de saber mais?
Tem algo de novo, original, único, diferente dos demais?