Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
3.3.1 Técnica de geração de ideias
Essa ideia constitui a gênese do processo de desenvolvimento do
roteiro; à medida que avançamos neste, a equipe de roteiro lhe dá
forma e o converte em uma obra. Neste longo e complexo processo,
se produzem diferentes documentos, que permitem aos Roteiristas
aproximar-se da concretização da obra. Começa com uma premissa
e segue com uma sinopse, um tratamento, uma escaleta e,
finalmente, um roteiro. Este é caminho seguido na escrita de um
roteiro original; se, por sua vez, trata-se de uma adaptação de uma
obra original (por exemplo, uma novela ou uma obra de teatro), esta
cumpre o papel de “ideia” como base deste processo.
FIGURA 30 – Etapas do desenvolvimento de roteiro
As boas ideias podem surgir a partir de uma infinidade de fontes: um
sonho, uma revelação, uma experiência pessoal, uma proposta
inesperada, uma notícia, etc. A geração de ideias é algo muito
pessoal; no entanto, existem técnicas que permitem estimular a
geração de ideias. A seguir, sugerimos a “Técnica de geração de
ideias”.
3.3.1 Técnica de geração de ideias
A Metodologia DPA combina o brainstorming (tempestade de ideias)
à aplicação do pensamento lateral e vertical como técnica específica para a geração de ideias. Trata-se de uma ferramenta útil nesta
instância, mas também se pode aplicar em todas as instâncias
subsequentes.
Em seu livro “Screenwriting Updated”, a consultora de roteiro Linda
Aronson opina que a geração de boas ideias e sua correta
estruturação são problemas constantes em nossa indústria e que
seu pior inimigo é a pressão –– sobretudo a pressão do tempo.
Segundo ela, quando estamos sob pressão, nosso desespero nos
leva a recorrer a clichês ou ideias carentes de credibilidade.
Infelizmente, na indústria audiovisual parece pouco provável que
esta pressão desapareça algum dia. Por isto, sugere analisar o que
acontece em nossa mente quando temos boas ideias:
Dessa forma, não somente seríamos capazes de nos esquivar
do impulso em direção ao clichê, causado pelo estresse, mas
ainda, com sorte […] poderíamos ser capazes de reproduzir o
processo para encontrar técnicas mediante as quais podemos
ser criativos em grande velocidade, sob pressão e por longos
períodos de tempo24. (T.N.)
Há uma célebre frase que afirma que a criação é 10% inspiração e
90% transpiração. Toda obra exige de seu autor um aporte de sua
imaginação, sobre a qual se deve aplicar uma enorme quantidade
de trabalho, proficiência no manejo da técnica e conhecimentos
teóricos, que transformam a ideia em algo concreto (uma premissa,
uma sinopse, um roteiro, etc.). Esta dualidade do processo criativo
foi exposta claramente por Edward de Bono em suas revolucionárias
teorias acerca do “pensamento lateral”, em seu livro homônimo de
1970 e, mais tarde, em seu livro “Seis sombreros para pensar”, no
qual o mesmo autor desenvolve técnicas criativas de resolução de
problemas. Aronson descreve as características dos dois tipos de
pensamento (o vertical e o lateral) segundo as teorias de Bono:
O primeiro, o pensamento vertical, é uma lógica passo-a-
passo que resulta em respostas “corretas” e “incorretas”. É o
tipo de processo de pensamento que aplicamos em aritmética,
e os escritores as utilizam para tarefas tais como: avaliar se
uma guinada é verossímil, ou se um diálogo soa autêntico. O
poeta Coleridge o denomina “o espírito organizador da
imaginação”. Nós o chamamos ofício ou técnica. Seu lado
negativo é que pode nos levar a produzir clichês tecnicamente
corretos. O pensamento vertical forma esse “noventa por cento
de transpiração” do processo de escritura. […] O segundo tipo
de processo de pensamento criativo, o pensamento lateral, é o
“dez por cento de inspiração”. É um processo de pensamento
do tipo de fluxo de consciência, muito pessoal e associativo,
que se interessa em prover tantas respostas quantas forem
possíveis, sem levar em conta sua qualidade. A mente lateral é
esse algo único em cada escritor. É o que se põe em
funcionamento quando escrevemos acerca de emoções ou
quando intuímos conexões brilhantes entre coisas
dessemelhantes e, como carece de juízo de valor, também é
responsável quando nosso trabalho parece exagerado ou sem
sentido25. (T.N.)
As boas ideias têm um componente de ambos os tipos de
pensamento, o lateral (o 10% de inspiração que gera ideias novas,
frescas ou fora do comum) e o vertical (o 90% de transpiração que
assegura sua conveniência e credibilidade a partir de um processo
de avaliação e descarte). Ao longo de todos os processos artísticos
(embora isto também se aplique aos processos de negócios),
devemos controlar a correta proporção de ambos os tipos de
pensamento para não cair nos erros típicos de um desequilíbrio.
“Um excesso de pensamento vertical pode produzir clichês,
sem que estejamos conscientes disto. Como o pensamento
vertical se baseia na experiência, nas habilidades aprendidas e
na lógica, acaba repetindo e classificando a informação obtida
anteriormente”.26 (T.N.)
Por esta razão, dizemos que um processo criativo com um excesso
de pensamento vertical tende a produzir ideias previsíveis ou pouco
originais. Por outro lado, um excesso de pensamento lateral tende a gerar ideias estúpidas, repetitivas, sem sentido, exageradas ou
melodramáticas.
O pensamento lateral é propenso a todo tipo de problemas
relacionados à pobreza técnica e ao “autêntico”, já que não se
interessa por este tipo de questão; certamente, carece de toda
capacidade de autocrítica. O pensamento lateral compele o
escritor a escrever por escrever, sem preocupar-se com a
estrutura, o foco, a repetição, a inteligibilidade ou a
redundância. Apaixona-se por seu próprio talento na construção
de diálogos, ideias ou piadas e não sabe quando parar.27 (T.N.)
A falta de autocrítica é de fato uma condição necessária para que o
pensamento lateral possa alcançar seu máximo potencial. Em seu
livro “Seis sombreros para pensar”, Edward de Bono retoma sua
teoria acerca do pensamento lateral, de 1970, e propõe um jogo que
permite identificar com maior precisão os diferentes tipos de
pensamento28. Neste jogo, de Bono identifica o pensamento lateral
com o chapéu verde, que é o chapéu da criatividade. De fato, lhe dá
a cor verde porque o pensamento lateral é como uma planta, que
necessita de cuidado para crescer e fortalecer-se, antes de ser
podada. Daí decorre o fato de que quem está usando o chapéu
verde para criar deve permanecer imune às críticas; necessita
dessa proteção para permitir que as ideias “aparentemente bobas”
possam crescer e fortalecer-se antes que o pensamento vertical
comece a podá-las e dar-lhes forma.
A correta proporção de ambos os tipos de pensamento no processo
de geração de ideias (e, mais adiante, durante o desenvolvimento
do roteiro) possibilita a obtenção de um trabalho que combina as
vantagens do “verdadeiro” ao “incomum”. Assim, conseguimos obter
propostas ou ideias (e, mais adiante, roteiros) que são, ao mesmo
tempo, verossímeis e originais. Na prática, devemos passar de um a
outro tipo de pensamento para manter esse equilíbrio. É
estabelecida, em consequência, uma série de passos para a
geração de ideias, resumidos na seguinte figura:
FIGURA 31 – Fluxograma da técnica de geração de ideias
Para pôr em prática esta técnica, faz-se necessário definir o que
vem a ser um líder, que dá ordens, controla os desvios das regras e,
em última instância, guia o processo.
Definição da tarefa
Esta técnica pode ser feita de forma individual, porém
recomendamos que se leve a cabo em grupo, já que pode ter como
resultado uma experiência potencialmente mais rica. Uma vez
reunido o grupo e usando o pensamento vertical, o líder
(preferencialmente o Produtor Executivo) faz uma “definição da
tarefa”, o que equivale a dizer que estabelece qual é exatamente o
objetivo do trabalho que se desenvolverá. Por exemplo, gerar ideias
para uma minissérie de terror, de 13 capítulos, com 3 personagens e
4 cenários. Se possível, seria extremamente útil estabelecer de
antemão o gênero, já que proporciona uma grande quantidade de
informação para o passo seguinte.
Nesta etapa, é importante estabelecer a maior quantidade possível
de elementos, variáveis ou limites para guiar e estimular o
pensamento lateral e assim conseguir a maior quantidade possível
de soluções. Contrariamente à crença popular de que a inspiração é
algo mágico que surge do nada, o pensamento lateral, na realidade,
surge como resposta a estímulos. Quando damos a uma pessoa 5
minutos para que escreva ideias para um filme, sem especificar
variáveis ou elementos, a definição torna-se muito ampla e o pensamento lateral tem pouco com o que trabalhar. O mais provável
é que, ao término dos 5 minutos, esta pessoa não tenha sido capaz
de encontrar mais que umas poucas ideias. No entanto, se lhe
pedimos que escreva ideias para um longa-metragem de baixo
orçamento, do gênero romântico e com 4 personagens, certamente,
terminará com uma lista de ideias muito mais extensa. As
limitações, longe de asfixiar a imaginação, nos obrigam a sermos
mais criativos. De fato, uma pessoa não é particularmente criativa
quando pode dispor de uma grande quantidade de recursos, mas
quando consegue algo original dentro de certos limites ou condições
(que, no caso de nossa indústria, costuma ser mais a regra que a
exceção).
Assim que o líder tiver estabelecido a tarefa, os demais participantes
utilizarão o pensamento vertical para explorar e elaborar a questão.
Seja mediante a pesquisa ou recorrendo a seus “arquivos mentais”,
os participantes analisarão narrativas que se encaixem dentro da
definição da tarefa para estabelecer os padrões comuns. Estamos
referindo-nos a narrativas, mas podemos enumerar outros tipos de
filmes, como novelas, relatos orais, fábulas, contos, mitos, notícias,
fatos históricos, etc. Em outras palavras, tudo o que possa ser
classificado como história (se a tarefa se referir à busca de ideias
para um projeto).
Voltando ao exemplo, o líder estabeleceu a “definição da tarefa”:
buscar ideias para um longa-metragem de baixo orçamento, do
gênero romântico e com quatro personagens. Por meio da pesquisa
e recorrendo às narrativas conhecidas e ao conhecimento teórico
sobre o gênero, os participantes estabelecem os elementos comuns
para histórias românticas com quatro personagens e as
características das produções de baixo orçamento. Por exemplo, se
podem identificar os seguintes componentes:
Pelo menos um protagonista.
Pelo menos um interesse romântico.
Barreiras que impedem a concretização do amor.
Se há poucas personagens e baixo orçamento, significa que
não haverá grandes valores de produção. Isto implica em
poucos cenários e efeitos especiais; e deixa de lado a
reconstrução de época.
Também implica que grande parte do conflito será interpessoal,
já que os conflitos externos implicam maiores custos.
Caso se trate de um drama, os amantes podem ou não
concretizar seu amor, mas se não o fizerem, o protagonista
deverá ganhar algo em troca.
Estabelecer-se-á uma lista contendo: a forma como os amantes
se conhecem, os tipos de dificuldades, os tipos de finais, de
personagens, etc. que normalmente encontramos neste tipo de
histórias.
A lista certamente será mais extensa, mas a descrita acima basta
como exemplo desta técnica.
Tempestade de ideias
Ao chegar a esta instância, temos a “definição da tarefa” e uma lista
de características geralmente encontradas nas narrativas do tipo
que estamos explorando, as quais servirão como marco de
referência do conhecido. Chega o momento de buscar o outro
componente de toda boa ideia: o “incomum”.
O líder dá aos participantes 5 a 10 minutos para que, de forma
individual e mediante a livre associação, utilizem seu pensamento
lateral com o propósito de fazer uma lista com a maior quantidade
possível de ideias incomuns para este tipo de proposta.
Uma simples frase basta para cada ideia; não importa se a ideia é
incompleta, se não conta uma história, se carece de sentido ou se
tem uma relação somente tangencial com a tarefa: nesta instância,
não se deve julgar o que se escreve, nem “elaborar” a ideia (isso
virá mais adiante); por isso, é importante que se estabeleça uma
“anistia” para os participantes. Isto significa que ninguém pode
estabelecer um juízo de valor sobre as ideias do outro (nem sequer
de si mesmo), de tal forma que se crie uma espécie de “paraíso” em que os participantes deixam fluir sua imaginação, seguros de que
ninguém os ridicularizará ou se sentirá ofendido pelas ideias
anotadas.
Levando em conta nosso exemplo da história romântica, a lista de
ideias poderia ser a seguinte:
Esquizofrênico apaixonado por uma de suas personalidades.
História de amor no deserto.
Monges enclausurados.
Amor a si mesmo, amor ao próximo.
O amor líquido.
Amor entre ratos de laboratório.
Borbulhas de amor.
Frio e calor.
Almas e corpos em amores inconciliáveis.
Etc.
Passado o tempo estabelecido para a tarefa, o líder convidará os
participantes a lerem em voz alta suas ideias para que os demais as
conheçam, mas se proíbe fazer qualquer tipo de comentário. Cada
participante poderá esclarecer ou ampliar o sentido de uma ideia,
mas não deve justificar por que lhe ocorreu realizar um juízo de
valor sobre ela – recordemos que ainda existe um estado de anistia
no qual ninguém pode fazer comentário algum. O importante aqui é
simplesmente conhecer as ideias de todos; por isso sugerimos
anotá-las em um quadro, para que fiquem à vista dos participantes.
Uma vez obtida a lista geral com todas as ideias dos participantes, o
líder os convida a elaborar, relacionar e ampliar as ideias. Cada
participante pode fazê-lo com as ideias próprias ou com as de outro.
Terminada a fase de ampliação de ideias, passa-se às de avaliação
e seleção.
Avaliação e seleção de ideias
O líder convida os participantes a aplicar o pensamento vertical para
classificar e filtrar as ideias, descartando em primeira instância aquelas que não parecem encaixar-se na definição da tarefa. Em
nosso exemplo, a ideia de uma história de amor entre ratos de
laboratório poderia dar lugar a uma interessante história para um
filme de animação, mas isto a deixaria fora do alcance de filmes de
baixo orçamento. Há outras ideias, como “o amor líquido”, “frio e
calor”, “borbulhas de amor” ou “almas e corpos em amores
inconciliáveis”, que ainda têm um alto nível de abstração, motivo
pelo qual não poderíamos descartá-las nem escolhê-las. Em
consequência, serão mantidas na lista para uma posterior
elaboração.
Redefinição da tarefa (pensamento vertical)
Nesta instância, o líder utiliza novamente o pensamento vertical
para redefinir a tarefa. Cada redefinição deve nos levar dos
conceitos com alto nível de abstração a histórias ou propostas
concretas. Desta forma, a redefinição de nosso modelo de tarefa
poderia ser, por exemplo, criar um rascunho de história unindo os
conceitos de “monges enclausurados”, “amor no deserto” e “frio e
calor”.
Retorna-se, então, ao segundo passo, no qual, mediante o
pensamento lateral, os participantes trabalham sobre estas
questões para estabelecer já não simplesmente uma ideia ou um
conceito, mas as bases para uma história. O líder estabelece
novamente um tempo limite e pede aos participantes que elaborem
seus pensamentos sobre a nova redefinição da tarefa. Por exemplo,
um participante poderia sugerir uma história de amor secreto entre
dois monges em um lugar desértico onde o calor do dia e o frio da
noite são metáforas de seu próprio amor. Outro participante poderia
variar um dos componentes e propor uma história de amor entre
dois cientistas que vivem “enclausurados” em uma estação de
pesquisa no meio de um deserto. Recordemos que, ao voltar à
tempestade de ideias, volta-se a estabelecer a anistia; novamente,
não importa o quão esdrúxulas ou aparentemente bobas as ideias
nos possam parecer. Todas são válidas e o importante é escrever a
maior quantidade possível de pensamentos.
Finalizado o tempo, realiza-se uma nova rodada, em que se expõem
as ideias, as quais o líder anota em um quadro para sua avaliação e
seleção. O processo se repete até que o líder determina que se
tenha chegado a uma ideia suficientemente elaborada que,
ademais, encaixe-se na definição da tarefa. Dá-se por finalizada a
sessão de tempestade de ideias e se aprova a ideia.
A aprovação da ideia é o primeiro grande passo que permite
começar o processo de desenvolvimento do projeto. A partir daí, a
equipe de roteiro trabalhará para dar-lhe corpo por meio de
documentos de roteiro, que formarão parte da pasta de projeto que
o Produtor Executivo apresentará a potenciais investidores e
coprodutores.
Padrões de qualidade segundo a Metodologia DPA
Não existe um critério único e universal para determinar o valor da
ideia que será definitivamente aprovada. No entanto, torna-se
inegável que deve existir uma forte motivação da equipe de
desenvolvimento em torno da decisão de levar adiante o projeto.
Esta motivação pode ser econômica (como a possibilidade de
cobrar honorários altos –– no caso da equipe de desenvolvimento
–– ou gerar lucros importantes –– no caso da Produtora), artística
(por exemplo, experimentar um tema, uma técnica, uma estrutura,
uma estética que permita um crescimento), ou pessoal (como
expressar-se acerca de uma determinada temática ou uma história
pessoal, aceitar um desafio, etc.). O ideal para a metodologia DPA é
que exista uma proporção de cada um dos 3 componentes. Os
projetos que conseguem motivar uma equipe, por múltiplas razões,
têm mais possibilidades de manter essa motivação ao longo dos 2 a
4 anos que pode levar o desenvolvimento.