Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA
4.1.3 Estruturas alternativas
Apesar de que muitos filmes de ação sem uma linha interna bem
desenvolvida foram grandes sucessos de bilheteria, também é certo
que estes sucessos muitas vezes acontecem por questões alheias
ao roteiro (como uma grande quantidade de explosões, um ator
famoso, ou fabulosos efeitos especiais). Isto é, estão baseadas em
“valores de produção” sobre os quais falaremos mais adiante, ao
abordar o tema do “orçamento de produção acima da linha”. Mesmo
nos filmes de ação, uma linha interna interessante pode fazer toda
diferença.
Há um terceiro problema potencial na relação entre linha interna e
linha externa. Este ocorre quando a linha externa e a interna estão
desconectadas. Quando encontramos estas histórias, temos a
sensação de que estão tentando nos contar histórias diferentes que,
longe de complementar-se, terminam competindo entre si,
provocando a dispersão da atenção.
É sumamente recomendável para toda boa história conseguir a
construção de eventos (linha externa) que resultem significativos no
desenvolvimento interno da personagem (linha interna). Nas boas
histórias, o autor desenha habilmente uma série de fatos que a
personagem deve enfrentar para provocar sua evolução interna e
sua relação com outras personagens. Os eventos da linha externa
são pedras no caminho da vida da personagem que a obrigam a
saltar, rodear e superar (ou não) seus conflitos internos e
interpessoais.
4.1.3 Estruturas alternativas
Há dois tipos de estruturas narrativas que se desenvolveram a partir
da estrutura clássica. As estruturas alternativas permitem contar
várias histórias interconectadas, evitando a dispersão da atenção e
provocando uma viagem emocional potencialmente mais rica.
Nas estruturas alternativas, encontramos mais de uma história –
cada uma delas com um protagonista e um conflito dramático
desenvolvido ao redor de uma estrutura clássica. Estas estruturas
começaram a aparecer desde o desenvolvimento da literatura e do teatro, mas com mais força desde o surgimento da televisão, que
tem sido a maior “educadora” do público na arte de contar várias
histórias interconectadas.
FIGURA 38 – Estruturas alternativas
Características das estruturas alternativas:
contam mais de uma história
cada história tem um protagonista
cada história tem um conflito dramático próprio e está
baseada na estrutura clássica
A vantagem principal das estruturas alternativas é que, ao variar
elementos da estrutura clássica, permitem que o público tenha uma
participação maior na construção do relato. O espectador deve
classificar, colocar em ordem e organizar a informação como se
fosse um enorme quebra-cabeças e, só quando estiver completo,
pode reconstruir as histórias.
Este papel ativo do espectador pode levar a experiência da viagem
emocional a níveis muito altos, mas também apresenta alguns riscos.
Incorretamente utilizadas, as estruturas alternativas podem
apresentar 4 tipos de problemas: de unidade, de ritmo, de significado
e de fechamento.
Problemas das estruturas alternativas
Encontramos problemas de unidade quando as histórias, em vez de
funcionar como um todo inter-relacionado, fazem-no como relatos
desconexos que causam a dispersão da atenção.
Este efeito é realmente prejudicial, já que todo tipo de história
depende de manter a atenção do público. No momento em que o
público perde o interesse, corremos o risco de que troque de canal
ou se levante do assento e abandone a sala de cinema.
Os problemas de ritmo surgem se não escolhermos o momento
adequado para entrar e sair de cada história. Isto também vai contra
a atenção do espectador; se deixarmos de contar-lhe uma história
para contar outra em um momento inadequado, duas coisas podem
acontecer: em primeiro lugar, o espectador pode sentir-se frustrado
por ter sido “deixado com vontade”, e em segundo lugar, deve dirigir
novamente sua atenção para uma nova história. Depois de algum
tempo, o público pode perder a paciência e o interesse.
Os problemas de significado se referem ao simples fato de que
quando contamos duas ou mais histórias juntas, o público
involuntariamente começa a buscar seus denominadores comuns ou
suas conexões. Se estas conexões não existem, uma grande parte
de sua atenção estará dedicada a perguntar-se: Por que estão me
contando estas histórias? Quais são seus pontos de conexão? Qual
é o critério aplicado na seleção das histórias? Isto evidentemente vai
contra o objetivo de conseguir a viagem emocional, longe de manter
o espectador submerso no universo do relato e desfrutando da
viagem, terá sua atenção enfocada em responder às perguntas feitas
e se sentirá confuso, disperso ou enganado.
Por último, os problemas de fechamento se referem à sensação de
fechamento emocional do relato e ao pico máximo de tensão da
viagem emocional. A estrutura clássica fornece um clímax carregado
de tensão e um fechamento da história, que é experimentado pelo
público como absoluto e irreversível. O final da história é, talvez, o
momento mais importante de todo o relato; de fato, se um filme tiver
um começo genial, mas o final for pobre, jamais o recomendaríamos
a um amigo. Por outro lado, se tiver um começo pouco interessante e
um final memorável, provavelmente entre para nossa lista de filmes
preferidos. No caso das estruturas alternativas, não temos um único
clímax e sim tantos quanto o número de histórias contadas. Por isso,
é sumamente importante coordenar e combinar corretamente os
diferentes clímax das histórias. Devemos encontrar a forma não
apenas de evitar que a sucessão de clímax termine esgotando
emocionalmente o público ou anulando-se entre si; mas também a
forma de relacionar uns com os outros para potencializar o último
pico da viagem emocional.
Para evitar problemas de unidade, ritmo, significado e fechamento
não existe uma técnica única e sim uma combinação de técnicas
(que explicamos mais adiante), já que as estruturas alternativas não
são algo relativamente fixo como a estrutura clássica, e sim sistemas
orgânicos. Tudo depende das histórias que tenhamos escolhido para
formar parte do roteiro e de como interagem umas com as outras.
Neste sentido, poderíamos dizer que as estruturas alternativas são
como uma espécie de tecido onde cada história é um fio de uma cor
determinada. Do entrecruzamento das histórias surgirão diferentes
formas, desenhos e padrões que permitirão uma viagem emocional
potencialmente mais rica.
Encontramos exemplos de estruturas alternativas em filmes “Babel”
(2006, escrito por Guillermo Arriaga), “Citizen Kane” (1941, escrito
por Herman Mankiewicz e Orson Welles), “21 Grams” (2003, escrito
por Guillermo Arriaga), “El método” (2005, baseado na obra de teatro
de Jordi Galcerán e adaptado para o cinema por Mateo Gil e Marcelo
Piñieyro), “Happy Endings” (2005, escrito e dirigido por Don Roos),
“Love Actually” (2003, escrito e dirigido por Richard Curtis), “Amores
perros” (2000, escrito por Guillermo Arriaga), “Crash” (2006, escrito e
dirigido por Paul Haggins); e as séries de televisão “Lost” (2004-
2010, criada por J.J. Abrams, Jeffrey Lieber e Damon Lindelof),
“Damages” (2007-2009, criada por Glenn Kessler, Todd A. Kessler e
Daniel Zelman) e “The Event” (2010, criada por Nick Wauters).
As estruturas alternativas funcionam de maneira similar aos fractais;
sobrepõem-se camada sobre camada de histórias individuais que
têm uma estrutura clássica para que o efeito final tenha como
resultado uma estrutura geral similar à clássica. De fato, quando
decompomos as histórias de uma estrutura alternativa e as
analisamos individualmente, veremos que cada uma delas está
narrada em uma estrutura clássica. Não é surpresa já que, como
dissemos anteriormente, a estrutura clássica não é nada mais que a
explicação de como nossa mente organiza a informação da
realidade. Existem dois grupos de estruturas alternativas, cada uma
das quais se divide em diferentes tipos. Por um lado, temos as
estruturas sequenciais e, por outro, as estruturas de protagonistas
múltiplos.
Estruturas sequenciais
Nas estruturas sequenciais temos duas ou mais histórias inter-
relacionadas e, até certo ponto, independentes se as separamos,
cada história pode ser contada de forma completa como se fosse um
filme independente do resto. No entanto, a independência é relativa,
já que geralmente em algum ponto as histórias se entrecruzam e os
acontecimentos de cada uma afetam as demais.
Em cada história individual encontramos uma estrutura clássica, o
que implica que tem um protagonista ativo, um conflito principal na
linha externa e o restante das características da estrutura clássica
que explicamos anteriormente. Se o roteiro tiver uma grande
quantidade de histórias (alguns têm mais de 10), pode ser que
algumas delas utilizem as variantes da estrutura clássica para relatos
curtos: a estrutura clássica simplificada ou a estrutura clássica
truncada. Isto ocorre porque ao dividir o tempo total do filme em
muitas histórias muitas delas só têm alguns minutos para
desenvolver-se.
FIGURA 39 – Tipos de estruturas sequenciais
Tipo de estruturas sequenciais:
estrutura sequencial em paralelo
estrutura sequencial linear
estrutura sequencial não linear
As estruturas sequenciais podem ser classificadas de acordo com
sua relação com a dimensão tempo. Desta forma, existem
basicamente três tipos:
Estrutura sequencial em paralelo.
Estrutura sequencial linear.
Estrutura sequencial não linear.
Estrutura sequencial em paralelo
Neste tipo de estrutura, encontramos uma única dimensão temporal
que é comum a todas as histórias; isto é, que no início do roteiro é,
por exemplo, o dia 0 para todas as histórias e, à medida que avança
o tempo, isto ocorre com todas as histórias por igual (mesmo que
possa haver um ou outro flashback ou salto menor no tempo). Da
combinação das histórias surge o roteiro final, que apresenta um
tempo linear (por exemplo, do dia 0 ao dia 9).
A estrutura sequencial em paralelo é o tipo mais simples de estrutura
sequencial e implica em uma participação moderada do público para
organizar as histórias. É o tipo de estrutura mais utilizada em séries
ou minisséries de televisão (como “True Blood”, “Six Feet Under” e
“V”) e, principalmente, em sitcoms (como “Friends”, “The Simpsons”,
“Scrubs”, “Will & Grace”, “Modern Family” ou “The Middle”) e novelas.
A seguir, vemos a figura que representa uma história em estrutura
sequencial em paralelo e mostra sua relação com cada história
individual. Para este exemplo, tomamos um roteiro final que combina
duas histórias individuais, mas a estrutura em paralelo –– por ser a
mais simples das estruturas alternativas –pode combinar até 10
histórias ou mais sem confundir o público (como, por exemplo, o
filme “Love Actually”).
FIGURA 40 – Estrutura sequencial em paralelo
No exemplo da figura, vemos um roteiro final no qual vão sendo
introduzidas alternadamente porções da história 1 com porções da
história 2 (cada uma representada com uma cor diferente). Note que
o roteiro final apresenta uma ordem cronológica que vai do dia 0 ao
9. Se separarmos as duas histórias, podemos observar que a ordem
da História 1 é a seguinte: dias 0, 1, 2, 3, 5, 6, 8 e 9. Por sua vez, a
ordem da História 2 é: dias 0, 2, 3, 4, 5, 7, 8 e 9. Este ordenamento
dos dias, do menor para o maior, nos indica que cada história está
organizada cronologicamente.
Ao analisar individualmente cada história, observamos que, apesar
de haver algumas partes de ambas que não aparecem no roteiro
final, mantém-se a linearidade em cada uma delas (os dias em que
aparece cada história são sempre posteriores à entrada anterior). A
última parte do roteiro está formada por uma sequência comum que
reúne as histórias 1 e 2. Trata-se do recurso de “utilização de
eventos conjuntos” usado com frequência neste tipo de estruturas e
que consiste em unir fisicamente os protagonistas das histórias (às
vezes é feito metaforicamente). Falaremos mais sobre este recurso
na seção “Técnicas para neutralizar problemas das estruturas
sequenciais”.
Uma regra de ouro na estrutura sequencial em paralelo é que,
enquanto sua história ocupa a tela, os eventos que ocorrem nas
demais histórias nesse preciso momento nunca serão vistos pelo
público. Neste aspecto, a construção de um roteiro em estrutura
sequencial em paralelo é similar a uma transmissão “ao vivo”.
De fato, suponhamos que temos 3 câmeras que transmitem ao vivo
várias cenas de externa. Cada câmera segue um protagonista de
cada uma das 3 histórias. O roteirista é como uma espécie de
operador de externas e “arma” o roteiro alternando entre o que
recebe das câmeras 1, 2 e 3. É importante ressaltar que, enquanto
uma das histórias aparece na tela, as outras duas ficam
automaticamente de fora e (por tratar-se de uma transmissão ao
vivo) não se pode rebobinar a fita para voltar a um fato que ocorreu
em uma das histórias enquanto estava fora da tela.
Se quiser que o público veja o que acontece em duas histórias ao
mesmo tempo, o roteirista pode usar dois recursos. O primeiro é bem
mais técnico e consiste na “tela dividida” (em inglês split screen), que
une duas ou mais tomadas na mesma tela. O segundo é um recurso
de roteiro e consiste no “uso de eventos conjuntos”, que faz com que
os protagonistas se encontrem em um mesmo espaço de tal forma
que com uma só câmera podemos filmar os dois juntos.
Exemplos deste tipo de estrutura podem ser encontrados em “Happy
Endings” (2005, escrito e dirigido por Don Roos), “Love Actually”
(2003, escrito e dirigido por Richard Curtis), “The Holliday” (2006,
escrito e dirigido por Nancy Meyers) e “Magnolia” (1999, escrito e
dirigido por Paul T. Anderson).
Em “Happy Endings”, por exemplo, o roteiro final conta 4 histórias: a
primeira é a de Mamie Pepitone, que é extorquida por um jovem
documentarista, que lhe promete revelar o paradeiro do filho que ela
entregou para adoção em troca de filmar o encontro. A segunda é a
de Charlie Peppitone, meio-irmão gay de Mamie e (mesmo sem
saber) pai do filho que ela entregou para adoção. Mas Charlie tem
seus próprios problemas: ele suspeita que as amigas lésbicas do seu
namorado, Gil, usaram sua mostra de esperma para conceber seu
filho e está disposto a expor a fraude. A terceira é a de Otis, um
garoto rico que é extorquido por Jude, que lhe propõe ajudá-lo a
ocultar do seu pai sua homossexualidade em troca de que a ajude a
casar-se com o velho rico. E a quarta e última é a de Jude que,
depois de atrair o interesse do pai de Otis, percebe que se apaixonou
pela primeira vez, mas é muito tarde para esclarecer o equívoco.
Neste filme temos quatro histórias com quatro protagonistas e quatro
conflitos dramáticos independentes com os quais poderíamos fazer
quatro filmes individuais. São utilizadas várias técnicas sinalizadas
anteriormente, como a “conexão temática” (todas as histórias falam
da mentira e da paternidade/maternidade), “fatos de uma história que
afetam as outras” (por exemplo, Jude é protagonista da sua própria
história, ao mesmo tempo em que é antagonista da história de Otis),
ou o “uso de um evento conjunto” (que aparecem em vários
momentos, mas com maior intensidade no final, quando as histórias começam a se unir). Todas as histórias compartilham a mesma
dimensão de tempo (apesar de que em algumas há flashbacks e
flashforwards) e se cruzam em direção ao final da história.
Estrutura sequencial linear
A estrutura sequencial linear exige um nível maior de participação do
espectador para categorizar e organizar as histórias. Está formada
por duas ou mais histórias, cada uma delas mantém uma dimensão
de tempo própria, cujas linhas externas também costumam se cruzar
em algum ponto. Trata-se novamente da técnica de “utilização de
eventos conjuntos” que na estrutura sequencial linear costuma ser
usada como um ponto de referência temporal para ajudar o público
na reconstrução cronológica das histórias.
Justamente pelo evento conjunto, esta estrutura é muito útil quando
a ideia é contar diferentes pontos de vista sobre um mesmo fato. Um
exemplo disto pode ser encontrado no filme “Crash” (2006, escrito e
dirigido por Paul Haggins) que demonstra como um mesmo fato pode
ter diferentes interpretações ou sentidos, de acordo com o ponto de
vista que o encaramos.
Na estrutura sequencial linear não existe uma ordem cronológica no
roteiro final, apenas em cada história individual. Quando vemos o
filme, o tempo salta para frente ou para trás, mas, se isolarmos cada
história individual, notaremos que cada vez que voltamos a uma
história individual, o fazemos em um momento posterior ao da última
vez. Vejamos a seguir um exemplo de estrutura sequencial linear.
FIGURA 41 – Estrutura sequencial linear
Neste exemplo, o roteiro final não apresenta uma ordem cronológica,
já que a sucessão temporal não está organizada da menor para a
maior (dias 0, 3, 1, 4, 3, 5, 7, 6, 8 e 9). No entanto, se separarmos as
histórias 1 e 2, encontraremos em ambas um tempo linear, isto é,
estão organizadas temporariamente da menor para a maior. A ordem
de aparição da História 1 é a seguinte: dias 0, 1, 3, 5 e 6 (de menor
para maior). A História 2 aparece na seguinte ordem: dias 3, 4, 5; 7,
8 e 9 (também de menor para maior). No exemplo, utilizou-se o
recurso de “utilização de um evento conjunto”, que ocorre no dia 3, e
serve como ponto de referência temporal para o público.
Seguindo a analogia que utilizamos anteriormente, ao criar o roteiro
final, o trabalho do roteirista não é como o de um operador de
exteriores e sim como o de um editor. Ao invés de receber as
imagens das 3 câmeras através de uma transmissão ao vivo, recebe
três fitas com aquilo que cada câmera gravou enquanto seguia um
protagonista. Diferente da estrutura sequencial em paralelo, aqui, o
roteirista pode incluir eventos que ocorrem em dois lugares
diferentes, em um mesmo momento.
Suponhamos que o evento conjunto seja um terremoto. A câmera 1
segue Ana, que está a ponto de dar à luz no hospital, quando o
terremoto causa um defeito nos equipamentos do centro cirúrgico,
colocando em risco a vida do seu bebê. Nesse mesmo instante, a câmera 2 está junto a David, que decidiu que a vida não tem sentido
e aponta um revólver para a própria cabeça. O terremoto o faz
tropeçar justo antes do disparo e salva sua vida. Por um lado, a
câmera 3 está direcionada para Gastón, que decidiu limpar as
janelas do seu apartamento no 20º andar e fica pendurado no umbral
no momento do terremoto.
Estes três fatos são muito importantes para deixá-los de fora do
roteiro final. Por sorte, a estrutura sequencial linear permite ao
roteirista contar o parto de Ana e voltar no tempo para contar a
tentativa de suicídio de David para, por último, voltar novamente no
tempo e contar a perigosa situação de Gastón. A única regra de ouro
que deve ser mantida nesta estrutura é que, ao voltar a cada história,
sempre se deve fazê-lo em um momento posterior ao último em que
foi deixada. Ou seja, se depois de Gastón, o roteirista voltar para a
história de Ana, não pode fazê-lo em um momento anterior ao
terremoto. E o mesmo se aplica ao restante das histórias.
Para tornar nossa analogia mais precisa, diremos que, no caso da
estrutura sequencial linear, o roteirista é como um montador que
recebe 3 tapes com as gravações de cada câmera, mas seu
reprodutor de vídeo não tem botão para rebobinar. Em
consequência, cada vez que “cola” uma parte de uma história, ao
voltar a ela não tem outra opção a não ser continuar com o que
aconteceu depois.
Podemos encontrar um exemplo deste tipo de estrutura no filme
“Amores Perros”, onde há um evento conjunto (uma batida) que une
os protagonistas das três histórias: Octavio, “El Chivo” e Valeria. O
filme começa com a história de Octavio, que se apaixona pela
esposa do seu violento irmão. Planeja fugir com ela e para isso
economizou dinheiro graças à incrível performance do seu cachorro
nas brigas clandestinas. Um colega atira no seu cachorro e Octavio o
apunhala para vingar-se. Mas, enquanto foge, bate no carro de
Valeria.
Neste ponto, a trama retrocede no tempo para contar a história de
Valeria, uma bela modelo que acaba de se mudar para o seu novo lar junto com o seu namorado. Depois que ele finalmente decidiu
abandonar sua esposa para ir morar com ela, a vida parece estar
melhorando, mas em uma esquina bate no carro de Octavio e fica
muito ferida. O repouso estrito que a mantém trancada na sua nova
casa e o desaparecimento do seu cachorro fazem aflorar o pior de
Valeria, destruindo sua relação. Finalmente, Valeria sofre uma
infecção generalizada e tem que fazer uma operação na qual lhe
amputam a perna, o que acaba com sua carreira de modelo.
O filme volta novamente no tempo para desenvolver a história de “El
Chivo”, um ex-guerrilheiro que se transformou em vagabundo e
assassino profissional, que é contratado para assassinar o sócio de
um empresário. El Chivo se isolou da sociedade depois de
abandonar sua esposa e sua filha pela “causa”. Vive como um
pedinte e seus cachorros são sua única família. Em uma esquina,
presencia a batida dos carros de Valeria e Octavio e resgata do carro
o cachorro que Octavio levava no banco traseiro. O cachorro está
muito ferido, mas El Chivo cuida dele sem saber que está cometendo
um grande erro. Já recuperado, o cachorro de Octavio, campeão de
lutas clandestinas, mata sem piedade os cachorros de El Chivo.
Ao longo do filme, o roteiro final muda de uma história para outra,
mas sempre o faz em um momento posterior ao da última vez. Este é
um claro exemplo de estrutura sequencial linear, no qual o tempo do
roteiro final muda, mas sempre mantendo uma ordem cronológica
interna em cada história individual.
Outros exemplos deste tipo de estruturas podem ser encontrados em
“Citizen Kane” (1941, escrito por Herman Mankiewicz e Orson
Welles), “Julie & Julia” (2009, escrito e dirigido por Norah Ephron),
“Fried Green Tomatoes” (1991, baseado no livro de Fannie Flag e
adaptado para o cinema por ela e Carol Sobieski), “Dolores
Claiborne” (1995, baseado no livro de Stephen King e adaptado para
o cinema por Tony Gilroy) e na minissérie “Damages” (2007-2009,
criada por Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman).
Em “Citizen Kane” há um protagonista no presente: um jornalista que
decide tentar descobrir quem era realmente Kane a partir das suas últimas palavras. Com cada entrevistado, encontramos um novo
protagonista que conta sua história própria (seu amigo, Jedediah
Leland; sua esposa, Susan Alexander, etc.). Com cada nova história,
saltamos do presente ao passado, mas internamente cada uma
delas mantém uma linearidade.
Em “Dolores Claiborne”, encontramos uma história no presente,
protagonizada por Selena e outra no passado, protagonizada pela
sua mãe, Dolores. Selena é uma jornalista que perdeu todo contato
com sua mãe, anos atrás. Mas, ao saber que Dolores foi acusada
pelo assassinato de uma idosa que estava sob seus cuidados, volta
ao esquecido povoado natal onde – com muito pesar –– deve
reconstruir a difícil relação com sua mãe.
A história do passado conta a vida de Dolores quando Selena ainda
era uma criança. Dolores tem um marido violento e alcoólatra.
Alguns indícios a levam a temer pela integridade da sua filha e
decide que deve colocar um ponto final nesse assunto. O filme salta
para frente e para trás no tempo, à medida que alterna entre uma
história e outra; mas conserva uma ordem cronológica tanto na
história de Dolores quanto na de Selena, já que cada vez que retoma
uma história o faz em um momento posterior à última.
Como comentário final, adicionaremos que alguns filmes (como
“Dolores Claiborne”) costumam alternar claramente entre duas
histórias: uma no passado e outra no presente. Aronson chama esta
variante de “estrutura em flashback”, mas considero que, em
essência, não tem suficientes características distintivas para
diferenciá-las da estrutura sequencial linear: ambas têm duas ou
mais histórias em diferentes dimensões do tempo, que se cruzam em
algum ponto, com um roteiro final que não apresenta um tempo
linear e histórias que conservam a ordem cronológica.
Estrutura sequencial não linear
Neste tipo de estrutura não existe uma ordem cronológica no roteiro
final nem nas histórias individuais. Das estruturas sequenciais é a
que exige maior participação por parte do espectador e, consequentemente, é a que corre o maior risco de desorientá-lo e
perder sua atenção. No entanto, corretamente utilizada, pode
potencializar a viagem emocional a níveis muito altos.
Na estrutura sequencial não linear, o roteiro final salta para frente ou
para trás no tempo, mas ao mesmo tempo, cada regresso a uma
história em especial pode ser realizado em um momento posterior ou
anterior ao da última vez que a visitamos. Vejamos a seguir uma
figura de como seria um roteiro em estrutura sequencial não linear.
FIGURA 42 – Estrutura sequencial não linear
Neste exemplo, podemos apreciar que o roteiro final não mantém
uma cronologia, já que não está organizado cronologicamente do
menor para o maior (apresenta a seguinte ordem: dias 5, 8, 0, 5, 3, 4,
2, 6, 9 e 7). Se separarmos as histórias, também não estão
ordenadas cronologicamente da menor para a maior. Neste exemplo,
a História 1 aparece na seguinte ordem: dias 5, 0, 3, 2 e 6. Por outro
lado, a História 2 aparece na seguinte ordem: dias 8, 5, 3, 4, 6, 9 e
7.
Seguindo com a analogia que usamos nas outras estruturas, neste
caso, o roteirista é como um editor que recebe o material registrado
pelas 3 câmeras do exemplo, mas não tem nenhuma restrição. Seu
reprodutor tem um botão de rebobinado e avanço que permite escolher livremente as porções de material que vai usar. Cada vez
que usar o material da câmera 1, 2 ou 3, pode decidir seguir adiante
desde o ponto deixado na entrada anterior ou rebobinar e usar uma
porção de material que corresponde a um momento anterior ao da
última vez.
Por exemplo, o roteirista pode começar o filme com a história de Ana
no momento em que está dando à luz e acontece o terremoto; logo
passar para a história de David no momento em que vai se suicidar e
é salvo milagrosamente pelo mesmo terremoto; a seguir pode voltar
à história de Ana, mas no dia anterior ao parto, quando sua mãe lhe
diz que tem um mau pressentimento em relação ao seu bebê; a
seguir, pode passar para a história de David, quando ele conhece a
garota pela qual tentará se suicidar depois. Por último, pode voltar à
história de Ana quando visita o túmulo do seu bebê, morto durante o
parto.
Encontramos exemplos deste tipo de estruturas em “21 Grams”
(2003, escrito por Guillermo Arriaga) e “Pulp Fiction” (1994, escrito e
dirigido por Quentin Tarantino).
Técnicas para neutralizar problemas das estruturas sequenciais
Como dissemos anteriormente, as estruturas alternativas podem
apresentar problemas de unidade, ritmo, significado e fechamento se
não forem usadas corretamente. Uma condição sine qua non ao
escrever um roteiro utilizando estruturas alternativas é trabalhar cada
história por separado e conseguir uma sólida estrutura clássica.
Recordemos que cada história é como uma peça do grande quebra-
cabeça final, por isso, necessitamos que cada uma tenha uma forma
precisa, exata, definida. Não podemos ter peças difusas, incompletas
ou que possam ser rompidas quando as manipulamos.
Paradoxalmente, para escrever uma história em uma estrutura
alternativa precisamos de uma grande dose de estrutura clássica.
Como Aronson comenta, é praticamente impossível lidar com uma
estrutura alternativa sem ter um domínio absoluto sobre a estrutura
clássica.
Ter histórias individuais com uma sólida estrutura clássica é condição
necessária, mas não suficiente. Escrever um roteiro em uma
estrutura alternativa é uma tarefa enorme e exponencialmente mais
complexa que um roteiro em estrutura clássica. Não só temos que
conseguir que cada história funcione individualmente, mas também
que o faça em relação ao resto das histórias. Por isso, diríamos que
um roteiro que combina, por exemplo, 4 histórias não é 4 vezes mais
difícil que um roteiro em estrutura clássica e sim 16 vezes. De fato,
não só devemos ter cuidado para que as 4 histórias sejam sólidas,
mas que as relações entre cada uma delas também o sejam. É
necessário conseguir que estas relações sejam orgânicas, para
evitar problemas de unidade, ritmo, significado e fechamento.
Afortunadamente, há algumas técnicas que nos ajudam na tarefa de
conectar as histórias de forma organizada, coordenada e harmônica.
Ao longo da minha experiência como autor e consultor de roteiros
baseados em estruturas alternativas, combinei algumas técnicas
sugeridas por Aronson com outras que fui descobrindo na prática.
Desta combinação surgiu a lista que veremos a seguir, onde junto à
explicação das técnicas, indica-se o tipo de problema (de unidade,
ritmo, significado ou fechamento) que ajudam a resolver:
Conexão temática: Consiste em encontrar denominadores
comuns a todas as histórias. Para aplicar esta técnica, o
roteirista constrói as histórias ao redor de um ou vários eixos
temáticos comuns. Geralmente, cada história expõe diferentes
pontos de vista sobre um mesmo tema (por exemplo: o amor, o
sacrifício, a realização pessoal, etc.). Esta é talvez a mais
importante das técnicas já que, como vimos anteriormente, sua
falta pode provocar sérios problemas nos níveis de atenção do
público. A conexão temática é quase uma condição
indispensável e é usada para melhorar aspectos relativos à
unidade e significado.
Conexão geográfica ou física: Consiste em construir histórias
que ocorrem em um mesmo espaço (país, cidade, bairro, etc.)
ou cada um em um lugar contrastante (a floresta amazônica/a
Antártida, uma cidadezinha/uma grande cidade, etc.). Esta
técnica pode ser aplicada por semelhança ou contraste e serve
para melhorar principalmente questões de unidade.
Conexão social: Nesta técnica, cada história se refere a um
grupo social por semelhança ou contraste (história de senhoras
ricas, ou história de uma senhora rica, uma de classe média e
uma pobre, etc.) É usada para melhorar aspectos relativos à
unidade e significado.
Conexão por limite temporal: Muitos filmes utilizam um limite
de tempo (geralmente estabelecido no começo) para dar um
maior sentido de unidade e fechamento. Por exemplo: histórias
de fim de milênio, histórias dos três dias anteriores à colisão de
um cometa contra a Terra, etc.
Utilização de personagens facilitadores: Consiste no uso de
personagens não protagônicos que se relacionam com os
protagonistas de cada história e se movem entre eles facilitando
a passagem de um a outro. Seu uso ajuda a melhorar o ritmo.
Utilização de eventos conjuntos: Aqui, o roteirista cria um fato
que aparece em todas as histórias e que geralmente tem um
significado especial em relação ao tema central –– idealmente
deveria coincidir com um ponto estrutural em cada história.
Muitas vezes, é utilizado como ponto de referência para orientar
o espectador sobre a dimensão de tempo, para gerar um clímax
conjunto, etc., e permite melhorar questões de unidade. Se for
relacionado com a temática central, também serve para o
significado. E se for usado para um clímax conjunto, ajuda a
melhorar questões de fechamento. Esta técnica é praticamente
usada em todas as estruturas sequenciais. Na estrutura
sequencial em paralelo costuma ser utilizada para unir as
histórias até o final; nas estruturas sequenciais linear e não
linear, é comum servir como pontos de referência temporal.
Utilização de sequências de uma história que se fundem em
outras: Este recurso consiste em unir as ações de duas ou mais
histórias de forma que a passagem de uma a outra ocorra de
maneira quase imperceptível. Começa contando a história de
um protagonista que se cruza com a de um segundo
protagonista e, em seguida, continua contando a do segundo,
tornando quase imperceptível o salto de uma história para outra.
Poderíamos dizer que nesta técnica as histórias ocorrem perto
umas das outras, mas não se tocam porque as personagens
quase não interagem. Seu uso ajuda a melhorar o ritmo.
Utilização de eventos de uma história que afetam a outra:
Esta técnica é similar à anterior, mas aqui a atitude de um
protagonista afeta diretamente a linha externa da história de
outro protagonista. Por exemplo, o protagonista da história 1 é
um ladrão que rouba de um banco o dinheiro que o protagonista
da história 2 precisa para pagar uma dívida pela qual está jurado
de morte. Diferente da técnica anterior, na qual os protagonistas
não interagem, aqui cada um age diretamente sobre o
desenvolvimento da história do outro. Também se distingue da
técnica de utilização de um evento comum, já que este evento
não envolve todas as histórias. É usada para melhorar
problemas de unidade e ritmo.
Utilização de viradas para mudar de história: É um recurso
importantíssimo e quase uma condição indispensável para
manter o ritmo. Consiste em deixar cada história em uma
pergunta aberta, um evento inesperado ou uma virada antes de
passar à seguinte. O roteirista manipula os níveis de atenção
ativo e latente, desta forma, o espectador presta atenção à
segunda história, mas mantém latente a pergunta sobre a
primeira. Igual ao que acontece com a estrutura clássica
truncada, evita-se a frustração que o público sente se deixamos
de contar uma história que está agradando, já que a virada
fornece uma sensação de “corte” ou “fechamento”. Ao retomar
as histórias abandonadas, a conexão é quase imediata e
permite resolver grande parte dos problemas de ritmo.
Estruturas sequenciais de múltiplos protagonistas
As estruturas de múltiplos protagonistas são outros modelos que
permitem contar mais de uma história com mais de um protagonista,
mas conservam algumas características similares à estrutura
clássica. Na estrutura clássica, temos um protagonista e um conflito
dramático principal, nas de múltiplos protagonistas ocorre a mesma
coisa, só que o protagonista, ao invés de ser uma pessoa, é um
grupo de pessoas com um conflito dramático comum.
No entanto, já uma característica que não encontramos na estrutura
clássica: à história grupal são agregadas as histórias individuais de
cada membro do grupo. Neste grupo, todos os membros têm similar
importância dramática e à medida que cada um desenvolve sua
história individual, conta-nos uma parte da história grupal.
Corretamente utilizadas, as estruturas de múltiplos protagonistas não
interrompem o relato quando um membro sai do centro da ação e
outro toma seu lugar.
FIGURA 43 – Estruturas de múltiplos protagonistas
Neste tipo de estrutura, a dimensão temporal principal é marcada
pela história grupal e geralmente tem uma ordem linear. Mas as
histórias individuais (a história pessoal que nos conta cada membro)
podem ou não estar na mesma dimensão de tempo. Em alguns
casos, as histórias individuais são geradas dentro do período de
tempo da história grupal e, em outros casos, podem se desenvolver
por completo em outra dimensão de tempo. Se não dividem a
mesma dimensão temporal, é comum recorrer ao flashback (salto
para trás no tempo), mas também se pode utilizar o flashforward
(salto para frente no tempo) ou ainda o salto a um tempo ou
realidade alternativa (a série “Lost” utilizou todas estas variantes em
diferentes temporadas).
O conflito dramático grupal está relacionado normalmente com a
sobrevivência (física ou metafórica) do grupo (por isso Aronson o denomina “macro de sobrevivência”). As estruturas de múltiplos
protagonistas costumam ser especialmente úteis quando o roteirista
deseja explorar diferentes tipos de respostas a um problema comum.
Por esta razão, os membros do grupo costumam ser diferentes
variantes do mesmo tipo de personagem (por exemplo, em Galaxy
Quest, o protagonista é um grupo de atores frustrados onde cada
membro representa uma variante: a atriz condenada pelo seu corpo,
o ator clássico que não conseguiu reconhecimento, o mau ator
transformado em ídolo, etc.).
Encontramos exemplos de estruturas de múltiplos protagonistas em
filmes como “El Método” (2005, escrito por Mateo Gil e Marcelo
Piñeyro), “Cube” (1997, escrito por André Bijelic, Vicenzo Natali e
Graeme Manson), “Galaxy Quest” (1999, escrito por David Howard e
Robert Gordon), “Esperando la carroza” (1985, escrito por Jacobo
Langsner e Alejandro Doria). “Armageddon” (1998, baseado na
história de Robert Roy Pool e Jonathan Heinsleigh; adaptado por
Tony Gilroy e Shane Salerno; e com roteiro de Jonathan Heinsleigh e
J. J. Abrams), e a série “Lost” (2004 a 2010, criada por J. J. Abrams,
Jeffrey Lieber e Damon Lindelof).
Na minissérie “Lost”, por exemplo, os membros do grupo são
diferentes versões dos sobreviventes de um acidente aéreo e
dividem um conflito dramático comum: querem voltar para casa, mas
não sabem onde estão, não têm meios para comunicar-se e há
pessoas e eventos estranhos na ilha que ameaçam suas vidas. À
medida que o relato avança, também vão se desenvolvendo as
histórias individuais de cada membro do grupo. Estas histórias
individuais têm uma relação estreita com a história grupal. Por
exemplo, quando os sobreviventes descobrem uma arma, Sawyer
(um perigoso delinquente) se apropria dela e a usa para impor sua
vontade. Os outros conseguem recuperá-la e a entregam a Kate,
acreditando que assim estarão a salvo. Mas o espectador conhece a
história passada de Kate (que é acusada de assassinato e
potencialmente mais perigosa que Sawyer) e sabe que a decisão do
grupo pode ser um perigo ainda maior para a sobrevivência do
grupo. Nesta minissérie, os roteiristas levaram adiante uma tarefa
titânica, não apenas pela quantidade de personagens e histórias e sua qualidade (declinante nas suas últimas temporadas), mas porque
combinaram a estrutura de protagonistas múltiplos de lugar com a de
estruturas sequenciais (em paralelo, lineares). Podemos dizer que se
trata de uma superestrutura fractal composta por fractais.
FIGURA 44 – Tipos de estruturas de múltiplos protagonistas
Tipos de estruturas de múltiplos protagonistas:
de missão
de reencontro
de lugar
Aronson distingue três tipos de estruturas de múltiplos protagonistas:
“de missão”, “de reencontro” e “de lugar”. No entanto, as
características essenciais das estruturas de múltiplos protagonistas
são mantidas iguais nos três tipos. De fato, os tipos de estruturas
sequenciais diferem não tanto em sua estrutura, mas também no
conteúdo, já que fazem referência principalmente ao tipo de conflito,
às características do grupo e às técnicas a aplicar em cada uma.
Estrutura de múltiplos protagonistas de missão
O conflito grupal
Neste tipo de estrutura, a história principal gira em torno de um grupo
de pessoas que recebe uma missão, e o conflito dramático grupal
está centrado geralmente em se o grupo conseguirá sobreviver aos
perigos da mesma. Normalmente, trata-se de uma sobrevivência
física (não metafórica) de grupo.
As histórias normalmente apresentam um grande dinamismo em
relação à duração da ação e potencial visual, já que o foco está
posto na linha externa. As personagens brigam principalmente contra
forças antagônicas alheias ao grupo (forças da natureza e outros
grupos) e se movem por uma grande variedade de cenários para realizar sua missão, o que “abre” a história e lhe dá um grande
potencial visual.
O grupo
Na estrutura de múltiplos protagonistas de missão, os membros do
grupo podem ou não conhecer-se anteriormente. Assim como em
todas as estruturas de múltiplos protagonistas, muitos membros
costumam ter uma importância dramática similar, ainda que possa
aparecer a figura de um líder ou, como diz Aronson, um
“personagem dominante”.
Esta figura costuma ser quem obriga os outros a realizar ações que
podem ser perigosas e assim pode atuar em alguns momentos como
uma espécie de antagonista dentro do próprio grupo, gerando um
problema interno a ser resolvido pelo grupo. Também permite a troca
de lealdades e, consequentemente, o desenvolvimento das histórias
individuais dos membros do grupo.
As histórias individuais
Se os membros do grupo se conhecem anteriormente, as histórias
individuais podem fazer referência a velhos problemas ou
experiências que podem colocar em risco a sobrevivência do grupo.
Por exemplo, no filme Galaxy Quest, um grupo de atores de uma
série de ficção-científica é convocado por uns extraterrestres (que
acreditam que a série é um documentário) para derrotar o poderoso
e malvado Sarris. O ator Jason Nesmith (que funciona como
“personagem dominante”) é o falso capitão do grupo e teve um affair
com uma das atrizes: Gwen DeMarco. A passada história de amor
não terminou bem e ambos deverão superar suas diferenças e
trabalhar juntos se quiserem sobreviver à missão.
As histórias individuais em uma estrutura de missão podem ser
contadas totalmente no passado (através de flashbacks);
parcialmente no passado (com uma parte em flashback e outra parte
enquanto realiza a missão) ou totalmente no presente (através dos
diálogos, as personagens contam o que aconteceu no passado).
Se os membros do grupo não se conhecem, as histórias individuais
às vezes se referem às questões pessoais que cada um carrega nas
suas vidas e que dificultam a realização da missão ou colocam o
grupo em perigo. Outras vezes, podem estar relacionadas com
problemas de liderança, traições, lealdades seletivas, etc. Neste
caso, as histórias individuais são contadas totalmente no presente, já
que começam a partir da formação do grupo.
Estrutura de múltiplos protagonistas de reencontro
O conflito grupal
A história principal trata de um grupo de pessoas que se conhecem
no passado e se reúnem depois de uma longa separação causada
por problemas ainda não resolvidos. O motivo da reunião geralmente
é para celebrar um ritual de passagem: um nascimento, uma morte,
um casamento, etc.
O conflito dramático grupal se refere a se o grupo conseguirá
resolver seus conflitos do passado e manter-se unido. Trata-se
obviamente de um tipo de sobrevivência metafórica na qual a
separação do grupo equivale a sua “morte”. Diferente da estrutura de
missão, aqui se acentuam os conflitos interpessoais. A ação costuma
ocorrer quase sempre em uma mesma locação e, sendo assim, pode
ser menos dinâmica.
O grupo
Neste caso, normalmente o grupo existia como tal no passado, mas
houve problemas que fizeram com que seus membros se
separassem. Às vezes, a dissolução do grupo tem a ver com o
tempo e a distância, que determinou uma separação mais
progressiva. No entanto, nestes casos, as mudanças ocorridas nos
seus membros (que já não são o que costumavam ser) costumam
ser a fonte de conflitos na história do presente.
Esta história gira ao redor de se os membros conseguirão resolver os
problemas do passado (ou causados pela passagem de tempo) para conseguir a sobrevivência metafórica do grupo. Como consequência,
os membros necessariamente devem se conhecer antes do
reencontro.
As histórias individuais
As histórias individuais podem ser apresentadas e resolvidas
totalmente no presente, ou ainda começar no passado (que
visitamos através de flashbacks) e resolver-se no presente. Por
exemplo, em “Esperando la carroza” (1985, escrito por Jacobo
Langsner e Alejandro Doria), a família se reúne para o velório de
Mamá Cora e as mentiras e enganos trazidos do passado afloram.
Estes problemas do passado são contados através dos diálogos dos
protagonistas, por isso, as histórias individuais são apresentadas e
resolvidas no presente.
Estrutura de múltiplos protagonistas de lugar
O conflito grupal
Aqui, a história principal trata de um grupo de pessoas (que podem
ou não se conhecer antes) que acaba preso (literal ou
metaforicamente). O conflito dramático grupal gira em torno a se o
grupo conseguirá liberar-se do lugar que ameaça sua sobrevivência
(física ou metafórica).
Trata-se de um lugar físico, o catalisador é o evento que determina o
confinamento em si: um maníaco sequestra um grupo de pessoas,
uma tempestade derruba um avião e deixa seus passageiros numa
ilha, etc. O foco do conflito dramático grupal depende do tamanho do
espaço no qual o grupo está confinado. Se for um espaço reduzido
(como no filme “Cube”), a história tem possibilidades limitadas de
dinamismo, no que diz respeito à ação e ao potencial visual. Para
compensá-lo, o conflito grupal está focalizado nos conflitos
interpessoais. Se, por outro lado, se tratar de um espaço amplo
(como acontece, por exemplo, em “Lost”, onde o grupo está preso
em uma ilha) há mais possibilidades de dinamismo no que diz respeito à ação e ao potencial visual – ainda que os conflitos
interpessoais possam desempenhar um papel de destaque.
Se for um lugar metafórico, nem sempre há um momento claro de
confinamento que funcione como catalisador. No filme “American
Beauty” (1999, escrito por Alan Ball), as personagens estão “presas”
em seu papel social desde o princípio e o catalisador é a decisão de
um dos membros do grupo –– Lester -– de romper com as regras.
Por outro lado, no filme “El Método” (2005, adaptado ao cinema por
Mateo Gil e Marcelo Piñieyro), um grupo de executivos fica “preso”
na sua ambição, o que os impede de deixar o processo desumano
de seleção de pessoal ao qual se submetem. Aqui, o catalisador é
claramente o momento em que todos decidem submeter-se às
regras do jogo.
O grupo
No lugar físico, os membros costumam ser pessoas que não se
conhecem e que simplesmente estão no lugar e no momento
equivocados quando acontece o confinamento. Aqui, a figura de
“personagem dominante” ou líder que descrevemos anteriormente
assume grande importância, já que permite uma fonte inesgotável de
conflitos interpessoais dentro do grupo. Também pode aparecer o
“traidor interno”, isto é, um membro do grupo que se revela contra a
personagem dominante e age contra seus objetivos ou trata de se
desfazer dele. Por momento, age como uma espécie de antagonista,
já que não pode colocar o grupo em perigo. Isto confere à história
mais oportunidades de conflitos interpessoais e potencia o
desenvolvimento das histórias individuais dentro do contexto do
lugar.
Por último, pode haver um “infiltrado”, isto é, uma personagem que
aparenta ser parte do grupo, mas em realidade forma parte dos
antagonistas externos. Por exemplo, em “El Método” é Ricardo (o
infiltrado da empresa no grupo de candidatos); em “Lost” há vários
infiltrados; entre eles, a personagem de Bem, que se faz passar por
sobrevivente de um acidente na ilha quando, na verdade, é o arqui-
inimigo contra o qual o grupo está lutando.
Se o lugar for metafórico, os membros do grupo podem ou não se
conhecer de antes. Neste tipo de lugar, às vezes aparece a figura de
um “forasteiro”. Trata-se de uma personagem que está junto ao
grupo, mas não faz parte deste e o questiona. O forasteiro ajuda a
redefinir o grupo, ao fazer perguntas e desafiar suas crenças,
valores, etc. Por exemplo, em “American Beauty” é a personagem de
Ricky Fitts (o adolescente vizinho).
As histórias individuais
As histórias individuais podem acontecer no presente (a partir da
interação do grupo), totalmente no passado (normalmente relatam
fatos do passado que têm um impacto direto no conflito grupal) ou
parcialmente no passado (começam no passado e terminam se
resolvendo no presente).
Técnicas para neutralizar problemas das estruturas de múltiplos
protagonistas
As técnicas que vimos anteriormente para neutralizar problemas das
estruturas sequenciais podem ser de grande ajuda em uma estrutura
de múltiplos protagonistas –– principalmente aplicáveis para
relacionar histórias individuais.
Um primeiro passo é determinar a que tipo de estrutura de múltiplos
protagonistas nossa história pertence. Cada um dos três tipos implica
em características específicas dos tipos de conflito grupal sobre os
que criamos nossa história principal.
A seguir, resumimos as técnicas específicas para estruturas de
múltiplos protagonistas.
Desenvolvimento de histórias em separado: Consiste em
trabalhar cada uma das histórias individuais e a história do grupo
de forma independente, aplicando a estrutura clássica. Em cada
história individual, teremos um protagonista e um conflito
dramático principal. Na história grupal mantêm-se praticamente
as mesmas características, só que o protagonista é um grupo. A
história grupal deve ser interessante, mas sem muitas viradas, já
que não há tempo para desenvolvê-la. Deve-se planejar
estrategicamente, buscando o máximo potencial de
desenvolvimento para as histórias individuais. Esta técnica pode
ser aplicada aos 3 tipos de estruturas de múltiplos protagonistas.
Utilização do “macro de sobrevivência”: Esta técnica se
refere a estabelecer o conflito dramático da história grupal ao
redor da pergunta ativa central: o grupo conseguirá sobreviver?
No caso do tipo de missão, refere-se a sobreviver aos perigos
da missão, no caso do reencontro, sobreviver aos problemas
não resolvidos do passado e, no caso de lugar, sobreviver ao
confinamento.
Busca de pontos de conexão: Também pode ser aplicada aos
3 tipos de estruturas de múltiplos protagonistas. Procura-se unir
as histórias individuais entre si e estas histórias com a história
grupal, aplicando as técnicas das estruturas sequenciais que
tratamos anteriormente.
Estabelecimento precoce do grupo como protagonista:
Consiste em apresentar o catalisador (a ameaça do grupo) o
mais rápido possível. Isto ajuda a deixar claro que a história trata
de um grupo. De outro modo, o público tentará situar um
protagonista entre todas as personagens, resultando em
confusão e, finalmente, perda do interesse. É necessário
estabelecer a normalidade do grupo e de seus membros de
forma sumamente econômica, caso contrário, o primeiro ato
pode se prolongar por muito tempo. Esta técnica é igualmente
válida para os três tipos de estruturas de múltiplos protagonistas.
Desenvolvimento de linhas internas: As relações entre os
membros do grupo são o motivo de ser de qualquer um dos 3
tipos de estrutura de múltiplos protagonistas. É necessário evitar
que se enfoquem brigas sobre o passado sem relação direta
com o presente.
Criação de membros ao redor de um tipo: Outra técnica
igualmente aplicável aos 3 tipos de estrutura de múltiplos
protagonistas consiste em estabelecer um denominador comum
na definição da caracterização do grupo e fazer com que cada
membro seja uma variante do mesmo tipo de personagem. Um