Desenvolvimento de projetos audiovisuais: a metodologia DPA

4.3.6 A tridimensionalidade

 

A tridimensionalidade da caracterização está relacionada com a

complexidade, as contradições e os aspectos mais profundos da

personagem. Tudo isso deve ser feito garantindo a credibilidade e a

consistência interna. A consistência interna de uma personagem é

condição indispensável da caracterização; uma personagem não

pode ser, ao mesmo tempo, inteligente e estúpida, enfadonha e

divertida. Deve haver uma lógica interna na caracterização da

personagem para poder explicar os contrastes e ser crível. Para

compreender como é que uma personagem deve ser contraditória e

ao mesmo tempo consistente, temos que diferenciar o conceito de

contradição do conceito de incoerência.

 

Uma personagem não pode ser fria e carinhosa ao mesmo tempo,

mas sim em alguns momentos, contextos ou circunstâncias

diferentes – sempre e quando exista um denominador comum que

explique estes extremos. No filme “Léon, The Professional” (1994,

escrito e dirigido por Luc Besson), o protagonista, Léon, é um

assassino perfeito, uma máquina de matar. No entanto, começa a

cuidar de Mathilda, uma criança desamparada que lhe desperta

ternura. Aqui, encontramos uma clara contradição, mas não uma

incoerência. León é frio e cruel no seu trabalho, mas terno e

carinhoso na relação que estabelece com Mathilda. Seu

profissionalismo o tornou desumano e afastado da sociedade, mas

encontra em Mathilda uma forma de conectar-se com o outro e de se

sentir mais humano, menos sozinho.

 

A diferença fundamental entre uma contradição e uma incoerência é

que a primeira encontra um denominador comum e a segunda não

tem explicação. Se uma personagem é cruel e compassiva, para que

seja crível, o público deve ser capaz de encontrar a conexão ou o

denominador comum que faz com que em algumas circunstâncias

seja de uma forma e, em outras, de forma oposta. Pode ser que um

assassino seja cruel com suas vítimas, caso sejam homens, e não

seja capaz de matar uma mulher. Se na história não houver

elementos que ajudem o público a descobrir por que age de duas

formas opostas nestas duas circunstâncias diferentes, trata-se de uma incoerência. No entanto, se, ao avançar a história, vemos que a