Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 1 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A Helena

 

Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos O teu saudoso valle, e lentamente

Pela elevada encosta caminhámos?

O sol do estio ardente,

Já não brilhava nos frondosos ramos

Do arvoredo virente.

Chegára o fim do outono: a natureza,

Sem ter os mimos da estação festiva,

Nem aquelle esplendor e gentileza

Que tem na quadra estiva,

Na languida tristeza,

Na luz branda e serena

D'aquelle ameno dia,

Que immensa poesia,

E que saudade respirava, Helena!

Subindo pelo monte,

Chegámos ao casal onde habitava

A tua protegida,

Aquella pobre anciã que se agarrava

Aos restos d'esta vida!

Assim que te avistou, ergueu a fronte

Curvada ao peso de tão longa edade,

Sorrindo nesse instante

Com tal vida, que a luz da mocidade

Parecia alegrar o seu semblante!

Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella, Grosseiras pelo habito constante

Do trabalho da terra,

Queimadas pelo vento sibilante,

E pelo sol da serra,

Produzia essa mão graciosa e bella,

Effeito similhante

Ao que por entre o mato

Produziria a rosa de Benguela,

A flor mais alva e de mais fino trato!

Vinte annos tu contavas nesse dia;

A fiel servidora,

Era a primeira vez que não podia

Deixar a casa ao despontar da aurora,

E cheia de alegria

Caminhar para o valle como outr'ora,

Depôr uma lembrança em teu regaço,

E unir-te ao coração num meigo abraço!

Tu, na força da vida,

Circundada de luz e formosura,

Foste levar á pobre desvalida

Os dons do lar paterno;

Alegrar com teu riso de ternura

Aquelle frio inverno!

Ao ver-te com teus braços,

Nos seus braços senis entrelaçados,

A ventura nos olhos encantados,

A inspiração na fronte deslumbrante,

Afigurou-me então o pensamento

Ver um anjo descido dos espaços,

D'aspecto fulgurante,

Enviado por Deus nesse momento,

Para animar os derradeiros dias

De quem cançado do lidar constante

Abre o seio na morte ás alegrias!

As lagrimas de gosto,

Corriam cristalinas

No rosto d'ella e no teu bello rosto!

Como orvalhos do ceo aquelles prantos,

Um brilhava na hera das ruinas,

Outro na flor de festivaes encantos,

Na rosa das campinas!

Quando voltaste a mim illuminava

O teu semblante uma alegria infinda.

Depois quizeste ainda

Ir visitar a ermida que ficava

No apice do monte:

Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.

No esplendido horisonte

Já declinava o sol quando chegámos.

Era singelo, mas sublime o quadro!

Em roda o mato agreste;

No meio a pobre ermida; ao lado d'ella

Um secular cypreste,

E sobre a cruz do adro

Pendente uma capella

De algumas tristes, desbotadas flores,

Talvez emblema de profundas dores!

Oh! como tu, suspensa

Num extasi ideal de sentimento,

Expandias o livre pensamento

Pela amplidão immensa!

Como depois descendo das alturas

Aonde te arrojára a phantazia,

Parece que a tua alma me trazia

Occulto premio de immortaes venturas!

Tanto expressava o teu olhar profundo,

Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia

O homem neste mundo,

Jámais me trouxe a idéa

Do suppremo poder da Providencia

Com tamanha eloquencia!

O sol quasi no termo

Com um brando reflexo,

Cingia a cruz do ermo

Em amoroso amplexo!

O rei da creação, o astro orgulhoso,

Que enche a terra de luz,

Tambem vinha prostrar-se saudoso

Aos pés da humilde cruz!

Era solemne e santo

Naquell'hora supprema o teu aspecto!

Nos labios a oração, no rosto o pranto,

As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,

Os olhos postos na amplidão do espaço,

E em derredor da frente

Um luminoso traço

A inundarte de luz resplandecente!

..................................

Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,

E de outros dias de íntimas venturas,

De immensa poesia,

Nasceram essas paginas obscuras,

Que hoje a teus pés deponho,

Como saudoso emblema,

Do tempo em que sorrira

O nosso bello sonho!

Terias um poema,

Se tão gratas memorias