Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 19 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Caridade

 

Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca

 

Como avesinhas implumes

Enjeitadas nos seus ninhos,

Deixa a sorte os pobresinhos,

Sem lar, sem pão, sem carinhos

De maternal coração.

Escutando os seus queixumes,

Compassiva a Providencia,

Volve os olhos á innocencia,

E em sua eterna clemencia

Da-lhes lar, ensino, e pão.

Mais vivos torna os desejos

No seio da caridade,

Que á desvalida orfandade

Vai com sincera piedade

Inundar de puro amor;

Amor, que em candidos beijos,

Suavemente procura

Dar conforto na amargura,

Aos que fez a desventura,

Orfãos no berço e na dor.

A quem busca a Providencia

Para amparar o destino,

Do que pobre e pequenino

Se encontra sem luz, sem tino,

Logo no mundo ao nascer!?

Anjos de viva clemencia,

Que onde existe o sofrimento,

Correm, voam num momento,

A dar todo o sentimento,

Que taes almas sabem ter!

São ellas mães, são esposas,

E recordando os carinhos

Que tiveram seus filhinhos,

Não podem ver pobresinhos

Sem amor, sem lar, sem pão!

No berço desfolham rosas,

Onde espinhos só havia,

E o sol de pura alegria,

Já de affectos alumia,

Dos orfãos o coração.

Salve pois, oh Caridade!

Que assim abres o teu seio,

Áquelle que sem esteio,

Á luz d'este mundo veiu

Para viver na afflicção.

Salve casta divindade!

Terna irmã da desventura,

Que os suspiros da amargura

Convertes á creatura

Em risos de gratidão!

Junho de 1856.