Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 25 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Adeus

 

Vai-te, oh! vai sombra mentida,

Para nunca mais volver!

Vai-te, deixa-me na vida,

Que esse teu estranho ser,

Fatal sempre me tem sido,

Fatal sempre me ha de ser.

Qual era a traidora mão

Que para ti me impellia?

Eu desvairado não via,

Ser aquelle um fulgor vão

Que no horisonte luzia?!

Crente a vista repousava

Na luz clara, intensa, bella,

Que para a terra manava

Do seio da meiga estrella,

E que minh'alma inundava

D'aquella celeste chamma

Que a vida e razão inflamma

No ardente fogo de amor!

Deixei-me cegar por ella;

Quanto e como então vivia

Ao grato e doce calor

D'essa que assim me perdia,

Não sei; porem sei que um dia,

Num'hora de maldição,

Não vi mais no firmamento

O seu mentido clarão.

Desvairado em tal momento

Fugi sem norte e sem tino;

Mas quem foge ao seu destino!?

Numa d'estas noites placidas,

Em que as estrellas fulgentes,

Reflectem vívida luz,

Á flor das aguas dormentes;

Em que o rouxinol seduz,

Co'as inspiradas endeixas

Soltando sentidas queixas,

D'entre as balseiras virentes;

Quando respira no ar,

Do monte que o mato veste

Aquelle perfume agreste,

Que é tão grato de aspirar;

Quando emfim a natureza,

No seu mais pleno vigor

Ergue a Deus seu hymno eterno

De graças, de paz, de amor!

Eu na minha alma abatida,

Procurava, mas em vão,

Uma só nota do canto

Immenso da creação.

Debalde encontrar buscava,

Naquella ardente anciedade

Em que o peito arqueja e cança,

No passado uma saudade,

No porvir uma esperança!

Debalde a vista alongava,

Pelo ceo onde as estrellas,

Resplandeciam tão bellas!

Em meu peito arido e morto

O reflexo d'uma d'ellas

Nem sequer compenetrava!

Fatigado, exangue, absorto,

Sem luz, sem norte, e sem tino

Prosseguia o meu destino!

Quando ao chegar um instante

Em que afflicto a vista erguia,

Dei com teu bello semblante,

Pallido, triste, abatido,

Que para mim se volvia

Saudoso e compadecido.

Oh! tão fundo sentimento

Brilhava nos olhos teus

Que ao ver-te nesse momento

Quem te não dissera um anjo

Do ceo á terra descido,

E que volve arrependido,

Outra vez aos pés de Deus!

Lá, na extrema do horisonte

Vinha então rompendo a lua;

Melancolica a luz sua,

O teu semblante inundou;

E nunca no prado ou monte,

Aquella face formosa,

Outra tão pallida rosa

De um reflexo illuminou!

Comtemplava-te perdido,

De esperança, amor, e gosto,

Quando teu languido rosto,

Pouco a pouco se animou;

E a tua voz docemente

Murmurando ao meu ouvido,

De novo um amor ardente

Outra vez me protestou.