Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 20 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XIV

BELLA SEM CORAÇÃO

 

Era uma esplendida imagem

De olhos rasgados e bellos;

Negros, negros os cabellos;

Boca gentil como a rosa,

Que á luz da manhã formosa

Sorri ao sopro da aragem.

Alta, graciosa, elegante,

Um ar de tal distincção,

Na figura e no semblante,

Que eu disse commigo ao vel-a:

«Como esta mulher é bella,

Sobre tudo na expressão

De pallidez namorada,

Que tem na face encantada!

Esta sim, por Deus o juro,

Esta ha de ter coração!»

A estação, o sitio, a hora...

Era a hora do sol posto,

E um frouxo raio de luz

Vinha bater-lhe no rosto.

A estação o meigo outono,

Quando o prado se descora,

No bosque cessa a harmonia,

Quando tudo emfim seduz

Com vaga melancolia.

O sitio, ameno e saudoso,

Onde livre a alma podia

Dar-se inteira aos sentimentos

De paz, de amor, de poesia!

Aproximei-me da imagem

Meiga, risonha, singela;

Soltára a voz, era bella,

Bella sim, vibrante e pura,

Mas sem aquella ternura,

Sem aquelle sentimento,

Que diz tudo num momento!

Sem tremor, sem sobresalto,

Voz que dos labios saía,

Dos labios só, que se via,

Não provir do coração;

Voz sonora, porem fria;

Bella sim, mas sem paixão.

«Pois essa gentil figura,

Esse pallido semblante,

Essa expressão de ternura

Que todo o teu ar respira,

A luz do olhar scintillante,

Dize emfim: quanto se admira,

Quanto ao ver-te nos encanta,

Será sem alma, e sem vida?!»

Sorrindo me respondeu:

«Aqui não ha coração!»

Mas eu vi que elle bateu

D'essa vez precipitado

Por que a sua nivea mão

Tentou comprimil-o em vão!

E no olhar enamorado,

E na voz que estremecia,