Versos de Bulhão Pato
Capítulo XX
LEMBRAS-TE?
Lembras-te? frouxa expirava
Aquella doce harmonia
Que em nossas almas entrava.
De uma luz tão resplendente
Teu limpido olhar brilhava,
Como a da aurora nascente,
E aurora gentil sorria,
No meigo azul de teus olhos
Para raiar entre rosas
Fragrantes e sem abrolhos.
Quando mais tenue partiu
A cadencia saudosa,
Tua boca proferiu
Não sei que cortadas fallas,
Que o ouvido não sentiu,
Porque vieste graval-as
Com a voz do ceo no peito,
Que a ti rendido e sujeito
Anhelando t'as ouviu.
Ao proferil-as, dormente
O teu olhar descaíra,
E em teu pallido semblante
A expressão se reflectíra
Dos affectos que agitavam
A tua alma nesse instante.