Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 29 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XX

LEMBRAS-TE?

 

Lembras-te? frouxa expirava

Aquella doce harmonia

Que em nossas almas entrava.

De uma luz tão resplendente

Teu limpido olhar brilhava,

Como a da aurora nascente,

E aurora gentil sorria,

No meigo azul de teus olhos

Para raiar entre rosas

Fragrantes e sem abrolhos.

Quando mais tenue partiu

A cadencia saudosa,

Tua boca proferiu

Não sei que cortadas fallas,

Que o ouvido não sentiu,

Porque vieste graval-as

Com a voz do ceo no peito,

Que a ti rendido e sujeito

Anhelando t'as ouviu.

Ao proferil-as, dormente

O teu olhar descaíra,

E em teu pallido semblante

A expressão se reflectíra

Dos affectos que agitavam

A tua alma nesse instante.