Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 47 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XVIII

«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te, Preso, algemado estou; co'a vista livre,

Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo No logar do supplicio inclina a fronte.

Ao proferir esta palavra: «Fere»

Brilha o ferro no ar; silvando o golpe

Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,

O corpo palpitante e transtornado,

Pula envolto no pó, que bebe o sangue

Saído em borbotões pelas arterias!

Inda instantes os labios estremecem,

Nos olhos inda fulge a luz da vida;

Tudo emfim acabou! Morto sem pompas, Como deve morrer o homem culpado

Que se arrepende no momento estremo,

Elle o seu coração oppresso e triste

A Deus sómente consagrou ness'hora.

A imagem de seu pae, da propria amante O que eram á sua alma atribulada?

Um sentimento das paixões terrestres

Não viera turbar naquelle instante

A pura contricção do seu espirito,

A não ser quando expondo a fronte nua,

Ao cutello do algoz quiz ver a morte.

Era o unico adeus que proferira,

Ás testemunhas do cruel supplicio.

XVIII

A multidão gelada e silenciosa,

Mal ousa respirar. Alguns gemidos

Cortados, mas profundos, se escutaram;

Nada mais, a não ser o som socturno

Do cutello batendo sobre o cepo.