Versos de Bulhão Pato
Capítulo XVIII
«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te, Preso, algemado estou; co'a vista livre,
Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo No logar do supplicio inclina a fronte.
Ao proferir esta palavra: «Fere»
Brilha o ferro no ar; silvando o golpe
Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,
O corpo palpitante e transtornado,
Pula envolto no pó, que bebe o sangue
Saído em borbotões pelas arterias!
Inda instantes os labios estremecem,
Nos olhos inda fulge a luz da vida;
Tudo emfim acabou! Morto sem pompas, Como deve morrer o homem culpado
Que se arrepende no momento estremo,
Elle o seu coração oppresso e triste
A Deus sómente consagrou ness'hora.
A imagem de seu pae, da propria amante O que eram á sua alma atribulada?
Um sentimento das paixões terrestres
Não viera turbar naquelle instante
A pura contricção do seu espirito,
A não ser quando expondo a fronte nua,
Ao cutello do algoz quiz ver a morte.
Era o unico adeus que proferira,
Ás testemunhas do cruel supplicio.
XVIII
A multidão gelada e silenciosa,
Mal ousa respirar. Alguns gemidos
Cortados, mas profundos, se escutaram;
Nada mais, a não ser o som socturno
Do cutello batendo sobre o cepo.