Versos de Bulhão Pato
Capítulo XLVIII
O Bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!
Dos thesouros de affecto que encerra
Entre vós maternal coração,
Quem vos faz a nós orphãos na terra,
Repartir d'esse affecto um quinhão?
O bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!
E esse affecto ideal que illumina
O existir de um reflexo do ceo,
Que a soffrer e que a amar nos ensina,
Quem no peito materno o accendeu?
O Bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!
Mas nós crêmos, sentimos, amâmos,
A Deus grande na terra e nos ceos,
E do intimo da alma exclamâmos:
Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!
1850.
XLVIII