Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 34 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XXIII

 

Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de

Campos Valdez

 

Bella, graciosa e timida,

Na aurora da existencia

Rosa de grata essencia

Sorrias em botão!

A luz do sol explendido

Vinha inundar-te a frente,

Suave e docemente

Beijar-te a viração!

Como os affectos intimos

Da maternal ternura

Enchiam de ventura,

A tua vida em flor!

E como a face candida

Serena, reflectia

A magica poesia

D'ess'alma toda amor!

Dos pensamentos lugubres,

Das ambições da terra,

Das maguas que ella encerra,

Dos crimes que contém,

Jámais a teu espirito

Chegará o som profundo,

Anjo descido ao mundo

Só para amar o bem!

Um dia, a immensa abobada,

Azul e resplendente,

Toldou-se de repente

Ao sopro do tufão!

Era o primeiro fremito,

Nuncio da tempestade,

Que vinha sem piedade

Rosa, lançar-te ao chão.

Ao ver abrir-se o tumulo

Sorrias sem receio,

E se a teus olhos veiu

Funda expressão de dor,

Foi quando a boca tremula

Da mãe que te perdia,

Á tua enfim se unia,

Com mais profundo amor!

Então, como ella, pallida,

Soltando o extremo alento,

Volveste num momento

Á gloria perennal!

E logo fria, gellida,

Sem ter nem cor nem vida,

Par'ceste adormecida,

No seio maternal!

Setembro de 1856.