Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 45 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XV

Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida

O sopro que seus labios respiravam?

Era o ceo, era a terra, eram os homens,

Que tinha ante seus olhos deslumbrados? Os homens, ou demonios que a miravam Com sinistra expressão? Eram os mesmos Cujo olhar noutro tempo revelava

Tão suave, e profunda sympathia?

Tudo era incerto e vago no seu animo,

Receios, e esperanças insensatas;

Agora um meigo riso, logo um pranto,

E no seu desvairado pensamento,

Cuidava ser aquelle um sonho horrivel

No qual o coração se debatia.

Porém d'elle, oh! debalde procurára

Acordar a infeliz jámais na vida!

XV

Na torre pardacenta do mosteiro,

Balançam lentamente agora os sinos,

E o som profundo e triste dentro d´alma,

Desperta dolorosos sentimentos.

Por aquelles que á sombra do cypreste,

Repousam para sempre, ou dentro em pouco Terão de repousar, o canto funebre,

Que ouvis neste momento se desprende. Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;

Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!

Braços nus o carrasco attento espera

Pelo instante fatal; certeiro e forte,

Deve o golpe caír. Horrivel quadro!

Mas comtudo ao redor avidamente,

A turba silenciosa se reune,

Para ver, Santo Deus! no cadafalso

Por ordem de seu pae morrer um filho!