Versos de Bulhão Pato
Capítulo XV
Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida
O sopro que seus labios respiravam?
Era o ceo, era a terra, eram os homens,
Que tinha ante seus olhos deslumbrados? Os homens, ou demonios que a miravam Com sinistra expressão? Eram os mesmos Cujo olhar noutro tempo revelava
Tão suave, e profunda sympathia?
Tudo era incerto e vago no seu animo,
Receios, e esperanças insensatas;
Agora um meigo riso, logo um pranto,
E no seu desvairado pensamento,
Cuidava ser aquelle um sonho horrivel
No qual o coração se debatia.
Porém d'elle, oh! debalde procurára
Acordar a infeliz jámais na vida!
XV
Na torre pardacenta do mosteiro,
Balançam lentamente agora os sinos,
E o som profundo e triste dentro d´alma,
Desperta dolorosos sentimentos.
Por aquelles que á sombra do cypreste,
Repousam para sempre, ou dentro em pouco Terão de repousar, o canto funebre,
Que ouvis neste momento se desprende. Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;
Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!
Braços nus o carrasco attento espera
Pelo instante fatal; certeiro e forte,
Deve o golpe caír. Horrivel quadro!
Mas comtudo ao redor avidamente,
A turba silenciosa se reune,
Para ver, Santo Deus! no cadafalso
Por ordem de seu pae morrer um filho!