Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 81 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Primavera

 

 

Contempla este ceo esplendido,

Ouve aquellas melodias

De tanta ingenua avesinha,

Que alegre, os serenos dias

Da primavera adivinha.

Não vês a olaia? vaidosa!

Só por vêr que a amendoeira,

Mais cedo desabrochou,

Vermelha como uma rosa,

De repente se tornou.

Oh! bem vinda primavera!

Ao vêr o sorriso terno

Da tua boca divina,

O prado, o monte, a campina,

Que o triste e gelado inverno

Sem piedade devastou,

Num momento se animou!

Em teu regaço a abundancia,

Esperançosa floresce;

Á sombra de teus verdores,

Entre a suave fragrancia

De tuas variadas flores,

Contente o pobre adormece.

E tu, minha vida, ao vêr-te

Sósinha a meu lado agora,

Nesta estação, nesta hora,

Neste encantado logar,

Á sombra d'essa verdura

Onde frouxa a luz desmaia,

Ante o mar que além suspira

Na loira areia da praia,

Não vês que a razão delira,

Que dentro do coração

Não cabe tanta ventura?!

Falta a vida, sim, a vida,

Para esta alegria immensa,

Das nossas almas, querida!

Viva, ardente, pura, intensa,

Nesses olhos brilha a chamma

Do amor que tua alma incerra;

Alma que ao sopro de Deus

Em divino amor se inflamma,

Alma que veiu dos ceos,

E que não cabe na terra.

Fugaz, tranzitorio, vão,

Será para nós o encanto

Que nos enche neste instante

De ventura o coração?

Será! que importa? constante

Virá depois a saudade,

Abraçar essas memorias

De infinda felicidade;

Como ao templo aonde as glorias,

De paz, de amor, de alegria,

Se celebraram um dia,

Mas templo que ao chão tombou,

Se abraça a hera viçosa,

Reveste as pobres ruinas,

Amparando carinhosa

Esse resto que ficou!

Uma lagrima extremece,

Vem de teus olhos á flor!

Minha vida, esquece, esquece,

Que póde haver na existencia

Momentos de acerba dor!

O sopro da Providencia,

Vivo está, vivo respira,

Neste ceo desassombrado,

Na corrente que suspira,

Neste cantico inspirado,

Que as aves soltam no val,

E d'elle provém a essencia

Do nosso amor immortal!

Contempla o vasto horisonte

Que o sol vivido illumina;

Olha as flores da campina;

Escuta as aguas da fonte;

Respira esta aragem pura,

Embalsamada, e suave;

Ouve o cantico d'essa ave,

Que improvisa na espessura!

Recolhe n'alma o perfume,

D'esta encantada poesia.

D'este sol, d'esta alegria,

Que em torno de nós fulgura,

E responde, minha vida,

Se a nossa alma neste instante

Póde com tanta ventura!

Abril de 1856.