Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 37 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo II

Mas não é para ouvir os doces carmes

Do amoroso cantor, que Parisina

Do palacio feudal ao parque desce;

Nem para contemplar a luz brilhante

Das tremulas estrellas, que divaga

Por entre as sombras que diffunde a noite. Se procura um desvio na espessura,

Não é para aspirar o vivo aroma

Das matisadas flores; e se escuta,

Não é de certo para ouvir das aguas

O brando murmurar. Sons mais queridos

Espera o seu ouvido nesse instante.

Rangendo as folhas seccas denunciam

Que se aproxima alguem: empallidece

De susto e de prazer ao mesmo tempo.

D'entre as ramas que a brisa doidejante

De espaço a espaço agita, mansamente

Parte emfim uma voz: é voz amiga;

De subito o rubor lhe volta ás faces,

E mais livre, porém não menos forte,

Bate-lhe o coração no peito agora.

Mais um momento só é já passado,

Aos pés da bella jaz o cego amante.

III

O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca, Que lhes importa nesse doce instante?

Tudo é nada a seus olhos deslumbrados

Pelo fogo do amor; tudo se perde,

Se confunde, e se esvai nesse delirio!

Nos suspiros que vem do fundo d'alma,

Nesses mesmos, respira tal ventura,

Que, se fosse mais longa, dentro em pouco A vida ou a razão succumbiria!