Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 43 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XIII

Assistir ao teu ultimo momento!

Porém tu, fragil ser, ensanguentada

Terás de vêr cair essa cabeça.

Vai, traidora mulher; sobre a tua alma

Pese o remorso da desgraça d'elle!

Vai-te, adeus, e se podes, contemplando Este exemplo fatal, ter vida ainda,

Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»

XIII

Velando a face pallida e sombria,

Onde as veias inchando palpitavam,

Como se o sangue em ondas refluisse

Do coração á fronte, Azo ficára

Callado longo tempo. Hugo, soltando

Profunda, porém firme, a voz do peito,

Roga ao pae que o escute alguns momentos. O principe em silencio lh'o concede:

«Tu bem sabes que a morte não receio;

Tinto em sangue mil vezes nas batalhas

Me viste ao lado teu, onde mais forte,

Mais travado e mortal, era o combate.

Então deves lembrar-te que esta espada, Que ha pouco os teus escravos me arrancaram, Derramára mais sangue do que em breve Fará correr a mão do teu carrasco.

Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa? Quite me deixas d'esse dote infame!

Presente, viva tenho na memoria

A injuria com que as faces affrontaste

De minha pobre mãe; e a vil herança

Que recebi no berço, inda me accende

O semblante de cholera e vergonha.

«No tumulo onde agora ella repousa,

Irá juntar-se em breve o meu cadaver.

Transido o peito seu por mil desgostos,

Separada do corpo esta cabeça,

Entre os mortos dirão até que ponto

Foste amante fiel, pae carinhoso.

«Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes

Que trocámos affronta por affronta.

A mulher a que chamas tua esposa,

Victima ingenua do teu fero orgulho,

Não te lembras que fôra largo tempo

Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a, Contemplando o seu rosto, desejaste-a,

E para emfim provar que não podia

Pertencer-me jámais ousaste affoito,

Allegar o teu crime e a minha origem.

«Era indigno de ser esposo d'ella!

E porque?! Por que as leis não consentiam Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste. E comtudo, se a mão da Providencia

Me conservasse a vida, dentro em pouco Podéra conquistar de certo um nome

Tão nobre como o teu. Tive uma espada, E sobeja ambição para elevar-me

Com ella aos feitos de sonhada gloria.

Bem sabes que as esporas mais brilhantes, Nem sempre as traz aquelle que nascêra Embalado na purpura, e que as minhas,

O corcel que montava, por mil vezes

Avante arremessaram dos mais nobres,

Mais valentes senhores, quando, lembras-te? Carregando eu bradava: Éste e victoria! O meu crime conheço, e não procuro

Minoral-o, descança, nem tão pouco

Implorar-te alguns dias de existencia,

Rapidas horas que sem ser contadas

Passarão sobre a pedra do meu tumulo!

«Delirio, como foi o do passado,

Não podia ser longo. A minha origem,

O meu nome, não são de mancha isentos; Mas comtudo, apesar do teu orgulho,

Regeitar perfilhar-me!... nesta face,

Quaes olhos não verão que sou teu filho? A minh'alma tambem de ti procede!

De ti, sim; por que tremes? de ti veiu

O indomavel vigor do meu caracter.

Não foi somente a vida que me deste,

Porém quanto podia emfim tornar-me

Em tudo igual a ti. Comtempla a obra

Do teu culpado amor! Na semelhança,

Semelhança fatal que vês no filho,

Irada te castiga a Providencia!

Est'alma não é pois a d'um bastardo,

Como a tua não soffre a tyrannia.

O passageiro sopro da existencia,

Nunca em mais o presei do que tu proprio, Quando juntos na força do combate,

A galope os corceis, a espada em punho, Por mil vezes nas renques do inimigo

Rompendo a ferro frio penetramos.

«O passado acabou, e dentro em pouco

O futuro com elle irá juntar-se,

«Mas oxalá que a mão do Omnipotente

He houvesse dado a morte em taes instantes!

«Era pouco deixar-me orfão no mundo

Do affecto maternal; ousaste ainda

Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?

Sou teu filho, conheço-o neste instante,

E a sentença cruel que proferiste,

Posto venha de ti, não posso agora,