Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 11 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A um Retrato

 

 

És tu, sim, o mesmo olhar,

A mesma ardente expressão,

Com que teus olhos sabiam,

Tão habilmente occultar

O gêlo do coração.

Como fascina o teu ser?

Agora, que eu posso ver,

Vejo bem que não és bella.

Quem for buscar no teu rosto,

A severa correcção

Que esta palavra revela,

Tirar feição, por feição...

Não pode achal-a, bem sei.

Oh! mas nessa viva luz,

Que teus olhos illumina,

Ha de achar, como eu achei,

O fogo que nos seduz,

A chamma que nos fascina!

E agora vais escutar;

Agora, que a Providencia

Piedosa me quiz salvar

D'essa fatal influencia,

Vais saber como te amei!

Não é sómente da gloria,

Das illusões, da ventura,

Que é doce narrar a historia.

Repassando na memoria

Tantas scenas de amargura,

Vendo-as saltar palpitantes

Ante meus olhos agora,

Com toda a sinistra pompa

Da vida que tinham d'antes,

Ao ver de quanto é capaz,

Não sabes?... na propria dor,

O coração se compraz!

Medindo o padecimento

Do martyrio atroz e lento

Que me trouxe o teu amor,

S'inda aterrado contemplo,

As crenças que fui depôr

Sobre as aras d'esse templo,

A dor do arrependimento

Ha de salvar-me da culpa

Ante os olhos do Senhor.

Ai de ti! mil vezes mais

És tu desgraçada agora!

Viveste, reinaste um'hora,

E com que imperio! jámais,

Em delirio o pensamento

Te fez julgar adorada

Como eu te adorei, jámais!

Ninguem neste mundo ousára,

Erguer a mão para um culto

Tão santo como eu criára!

Tu foste a que, cega um dia,

Por loucura e por vaidade,

As crenças que nelle havia,

Destruiste sem piedade!

Punida estás, bem punida,

Sabe pois que amor do ceo,

Amor como foi o meu,

Encontra-se um só na vida!

Inda ao ver-te... porque não,

Porque t'o devo occultar?!

Este morto coração,

De novo sinto pular

Em meu peito fatigado!

Emfim, se o destino agora,

Quer que não possa existir

Da esperança do porvir,

Deixal-o existir embora,

Da saudade do passado!

Esse é meu como tu foste

Na illusão de tanto amor,

E tu mesma, tu, que um dia

Com semblante mudo e frio

Lhe disseste o extremo adeus,

Com quanto remorso e dor

Has de ter rogado a Deus

Perdão de tal desvario!

E dizes tu que ao dever, Sacrificaste a existencia

E sujeitaste o meu ser!!...

Pois ha dever neste mundo,

Que aos olhos da Providencia,

Possa mais alto valer

Do que aquelle amor profundo

Que tu fizeste nascer?!

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Quando foi? vivo o momento,

E quanto então nos cercava

Existe em meu pensamento:

Era á tarde; o firmamento,

De nuvens se carregava,

E nos fraguedos da costa

O mar soturno quebrava.

Olhei-te, e vi nesse instante,

Assumir o teu semblante,

Aquella mesma expressão,

Que de toda a natureza

Fatal respirava então.

Pausada, lenta, glacial,

A tua voz respondia,

A tudo que eu proferia!

E depois dos labios teus

Desprendeste um frio adeus!

Cuidaste sacrificar

A Deus em tua loucura,

Sem ver que foste apagar

A chamma d'essa ternura

Que só elle pode dar,

E te atreveste a tentar

O poder do Creador,

Na obra da creatura!

Ai de ti! mil vezes mais

És tu desgraçada agora!

Viveste, reinaste um'hora,

E d'esse imperio, jámais

Na terra serás senhora!