Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 71 de 94

Páginas do PDF

Versos de Bulhão Pato

Capítulo XXXVIII

NUM ALBUM

 

(Improviso)

 

Se eu fôsse um vate inspirado,

Cantor das rosas singelas,

Ah! quantas coisas tão bellas

Tinha aqui para dizer!

Mas eu tenho horror á brisa,

Odio ao prado, odio ás estrellas,

E então aos vates das ellas Nem sequer os posso ver.

Tu tambem, posto que a vida

Para ti sorria agora

Como sorri uma aurora

Dos puros dias de abril,

Não morres pela açucena,

Nem deliras contemplando

A lua que vai passando

Pelos vastos ceos d'anil.

E inda bem que a Providencia

Te livrou de tal abysmo;

Ó terrivel romantismo,

Quando has de um dia acabar?

Eu conheço uma menina,

Bella, gentil, seductora,

Mas, meu Deus, é tão doutora

Que se não pode aturar!

Arranja umas taes carinhas,

Toma umas taes posições,

Falla em sonhos e illusões

No seu romantico ardor!...

Pois é pena, que é bonita,

Talvez seja até formosa;

Se não fosse preciosa Era um ente encantador.

Se lhe dizem que é feliz,

Solta um suspiro profundo,

Porque ninguem neste mundo

Até hoje a comprehendeu!

Salvo um ente idolatrado

Porém esse... oh! desventura!

Para a fria sepultura

Na flor da vida desceu!

Emfim, se alguem lhe protesta

Que inda ha de viver tranquilla,

Ergue em extasi a pupilla

Pondo a mão no coração!

Imagina o desgraçado

Que tenha a louca mania

De ir batter comsigo um dia

Neste abysmo de paixão!

Oh! Bem hajas tu que és bella,

Gentil, graciosa, elegante;

A alegria em teu semblante

Co'a innocencia anda a saltar:

Bem hajas tu que detestas

Todos os vates das ellas,