Versos de Bulhão Pato
Capítulo XXXVIII
NUM ALBUM
(Improviso)
Se eu fôsse um vate inspirado,
Cantor das rosas singelas,
Ah! quantas coisas tão bellas
Tinha aqui para dizer!
Mas eu tenho horror á brisa,
Odio ao prado, odio ás estrellas,
E então aos vates das ellas Nem sequer os posso ver.
Tu tambem, posto que a vida
Para ti sorria agora
Como sorri uma aurora
Dos puros dias de abril,
Não morres pela açucena,
Nem deliras contemplando
A lua que vai passando
Pelos vastos ceos d'anil.
E inda bem que a Providencia
Te livrou de tal abysmo;
Ó terrivel romantismo,
Quando has de um dia acabar?
Eu conheço uma menina,
Bella, gentil, seductora,
Mas, meu Deus, é tão doutora
Que se não pode aturar!
Arranja umas taes carinhas,
Toma umas taes posições,
Falla em sonhos e illusões
No seu romantico ardor!...
Pois é pena, que é bonita,
Talvez seja até formosa;
Se não fosse preciosa Era um ente encantador.
Se lhe dizem que é feliz,
Solta um suspiro profundo,
Porque ninguem neste mundo
Até hoje a comprehendeu!
Salvo um ente idolatrado
Porém esse... oh! desventura!
Para a fria sepultura
Na flor da vida desceu!
Emfim, se alguem lhe protesta
Que inda ha de viver tranquilla,
Ergue em extasi a pupilla
Pondo a mão no coração!
Imagina o desgraçado
Que tenha a louca mania
De ir batter comsigo um dia
Neste abysmo de paixão!
Oh! Bem hajas tu que és bella,
Gentil, graciosa, elegante;
A alegria em teu semblante
Co'a innocencia anda a saltar:
Bem hajas tu que detestas
Todos os vates das ellas,