Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 64 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Aquelle Dia!

 

Jámais me ha de esquecer aquelle dia!

Do meigo outono a pallida folhagem

Inda os troncos do bosque revestia.

Sereno estava o ceo; doce a bafagem;

De toda a natureza

Infinita saudade respirava;

Mas por essa tristeza

Feliz o coração se dilatava!

Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança,

D'esses dias de amor e de ventura,

De paz e de esperança,

Se anima, e vê sorrir na noite escura,

Um reflexo da estrella resplendente

Que uma vez lhe brilhou serena e pura;

Inda a sombria nevoa do presente

Se rarefaz, se esvai, e se illumina

Tudo a seus olhos de uma luz divina!

Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia!

Nem o lento correr de tantos annos,

Nem as tardias horas que vieram

Depois cheias de amargos desenganos,

O encanto desfizeram

Da inspirada, divina poesia,

Que elle continha em si, que elle nos deu, E nós guardmos como um dom do ceo!

Era ermo o logar, ermo, mas bello!

Profunda a solidão! De quando em quando, Escutava-se o cantico singelo,

Da estrangeira avesinha que buscando

O sol do nosso inverno,

A voz desfalecida ia soltando

Com saudades do ninho seu paterno.

No extasi ideal do sentimento,

Tu volvias os olhos silenciosa,

Para o sereno azul do firmamento;

E da boca formosa,

Reprimir um suspiro em vão tentavas!

É que nesse momento,

Exausta a escala do prazer, anciosa

Uma nota na dor emfim buscavas!

Nas nossas almas existia um mundo

De indefenito amor;

Do pelago profundo

Onde ruge o furor

Insano, concentrado, atroz, maldicto,

D'esta cruenta guerra

Das ambições da terra,

Nem uma maldição, um som, um grito

Nos vinha perturbar!

Era a amplidão do ceo, a solidão da serra,

Ao longe... a voz do mar!

Depois como se a mão da Providencia

Inundasse meu ser naquelle instante

Da luz de outra existencia,

Julguei ter visto a origem fulgurante,

De onde provém a chamma

D'este immortal amor que nos inflamma!

Á ideia então da morte