Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 92 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Canção dos Piratas

 

(Traduzido do Corsario de Byron)

 

Sobre as ondas do mar azul ferrete,

Sem limites são nossos pensamentos,

E como as ondas nossas almas livres,

Por quanto alcança a doidejante briza

Cobrindo a vaga de fervente escuma

Nós temos uma patria! Eis os dominios

Onde fluctua o pavilhão que é nosso,

Sceptro a que devem humilhar-se todos!

Turbulenta e selvagem quando passa!

Da lucta ao ocio em taes alternativas

A vida para nós tem mil encantos!

Mas estes, oh! quem póde descrevel-os? Não serás tu, escravo dos deleites,

Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente

Das alterosas vagas desmaiáras!

Não serás tu, vaidoso aristocráta,

Educado no vicio e na opulencia,

Tu que nem pódes repousar no somno,

Nem achar attractivos nos prazeres.

Oh! quem póde no mundo compr'endel-os? A não ser o incançavel peregrino,

D'estes plainos que ficam sem vestigios;

Do qual o coração affeito aos p'rigos

Pula orgulhoso em delirante jubilo

Quando se vê sobre o revolto abismo!

Só elle présa a lucta pela lucta

E espera ancioso a hora do combate.

Quando o fraco esmorece apenas sente

No mais profundo do agitado seio

A esperança que vívida desponta

E o fogo da Coragem que se accende!

Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto Que a nossos pés succumba o inimigo,

E comtudo mais triste que o repouso

Inda parece a morte! mas embora,

Embora, oh! póde vir! ao esperál-a

Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida; E quando ella se acaba, pouco importa!

Caír pela doença, ou pela espada!

Haja um ente que prese inda algum resto D'existencia senil! viva aspirando

Sobre o leito da dor um ar pesado,

Erguendo a custo a trémula cabeça!

Para nós são as relvas florescentes!

Emquanto ess'alma expira lentamente,

Foge a toda a pressão d'um salto a nossa! Possa ainda ufanar-se esse cadaver,

Da cova estreita e do marmoreo tumulo

Que a vaidade dos seus lhe consagrára!

São raras, mas sinceras, nossas lagrimas, Quando o oceano, abrindo-se, sepulta

No vasto seio os nossos camaradas!

Inda mesmo no meio dos banquetes

Funda tristeza nos rebenta d'alma

Quando a purpurea taça erguendo aos labios A memoria dos nossos corôamos.

E o seu breve epithaphio é redigido,

Ao por do sol do dia da batalha,

Ao dividir as presas da victoria,

Quando a exclamam os rudes vencedores