Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 3 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A Convalescente no Outono

 

Revive teu rosto pallido

Á chamma do meu amor;

De novo com mais ardor

Pula em teu seio, querida,

O sangue, o prazer, a vida.

O sopro que na existencia

D'esta luz nos illumina,

Não se ha de extinguir jámais;

Oh! provém da mesma essencia,

Da mesma porção divina,

Com que a mão da Providencia

Torna as almas immortais!

Firma teu braço ao meu braço,

Vem commigo respirar

Este ar vivo e salutar.

Não sentes na luz do ceo,

E no perfume saudoso

Do bosque espesso e formoso,

Que o doce outono volveu?

As folhas que pelo chão

Crestadas dispersa o vento,

Não desprendem um lamento

Que intristece o coração!?

E a voz d'essa ave amorosa,

Que alem na balsa murmura,

Melancolico modilho,

Não parece a voz saudosa

Da mãe que adormenta o filho

Entre os braços com ternura?

D'aquelle pobre casal,

O fumo que vae subindo

Em ondulante espiral,

Não diz que em volta do lar

Se reune a pobre gente,

Que já de perto pressente,

O frio inverno chegar?

Não vês que ha tanta tristeza

Na voz que se eleva a Deus

Agora da natureza!

Oh! mas como aos olhos teus,

E como ao meu coração

É grata a melancolia

D'esta languida estação!

Toda a explendida poesia

Do ceo, da terra, e das flores,

Quando mil cansões de amores

Improvisa o rouxinol,

Alegrando o mez de maio

Desde os clarões do arreból

Até que em doce desmaio

Nas aguas se occulte o sol,

Terá, sim, tem mais frescura,

Mais vida e mais esplendor,

Mas não tem tanta ternura,

Nem respira tanto amor!

Paremos aqui, descansa

Um momento neste abrigo;

O sopro da aragem mansa

Anda em roda a murmurar,

E um raio de sol amigo,

A teus pés se vem prostrar

...........................

Oh! que noites de amargura!

Que horas lentas de agonia!

Que instantes naquelle dia,

Quando tu sem voz, sem gesto,

Suspensa num fio a vida...

Emfim te julguei perdida!

Chegára a noite; uma estrella,

Uma só, não transluzia

No ceo triste e carregado;

Oppresso e desalentado,

O coração me batia.

Pouco a pouco no horisonte

Foi rompendo a nevoa densa;

Era a vida, a luz, o dia,

Aquella alegria immensa,

Que no murmurar da fonte,

No perfume da campina,

Na brisa e na voz divina

Do amoroso rouxinol,

Seduz, arrebata, inspira,

Quando acorda a terra em canticos,

Aos raios vivos do sol!

«Pois tudo se anima agora,

Tudo nasce com a aurora,

Tudo é vida e tudo é luz;

Só nesta face adorada,

Inerte, fria, gelada,

Nem um só clarão reluz!»

Ouviu Deus naquelle instante

A minha supplica ardente;

Em teu lívido semblante

Vi despontar docemente

Um reflexo semelhante

Ao que o sol derrama á tarde

Sobre as nuvens do ponente.

Prostrei-me a rogar então;

E essa estrella de bonança,

Essa casta divindade,

Risonha irmã do infortunio,

Companheira da saudade,

Que o mundo chama—Esperança—

Senti-a no coração!

Com aquelle sol explendido

Que rompêra a nevoa densa,

E com a alegria immensa

Do mar, da terra, e dos ceos,

Quiz de novo a Providencia

Que eu visse nos olhos teus

O mundo, a luz, a existencia!

Agora pois, neste instante,

Agora, que lá distante,

O sino da pobre ermida

Dá signal do fim do dia,

Co' a prece da Ave-Maria, Ergâ-mos, ambos querida,

Graças mil a Deus piedoso,

Por te haver tornado á vida!

Setembro de 1854.