Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 51 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Recordações

 

Como foi, e ha quanto tempo

Que esse tão feliz momento,

Da minha vida acabou?!

Não sei, que importa? Era um dia

Que o sol vivido inundava

A luxuriante campina.

Intensa, glacial frieza

O coração me gelava,

Quando subito sentira

Um raio de luz divina

Que minh'alma illuminou.

Deslumbrado em vão buscava

Ver donde essa luz partia,

A mente me delirava

Co'a ventura que sentia!

Oh! depois vi claramente,

Que de teu rosto innocente

Partira o raio de luz,

Tão suave e tão sereno,

Como esse que nas pupillas,

Azuladas e tranquillas

Do anjo da nossa infancia

Melancolico reluz!

Parámos naquella estancia,

Dize, lembras-te, Luiza,

Como vinha fresca a brisa,

E que suave fragrancia

Rescendia a viração?

Tu firmavas-te ao meu braço,

E eu mal respirar podia

Que não sei quê me opprimia,

Mas com que doce oppressão!

Parava, não de cançaço,

Por que o peito mais valente,

De mais vigor não se anima,

Nem com mais força se sente

Do que eu me sentia então!

Foi fatal aquelle instante,

Para ti fatal, embora,

Tu viveste numa hora,

Inteira toda uma vida

Do mais delirante amor;

Porque a tua alma, querida,

Quando deveras se inflamma,

Devora co'a sua chamma

O prazer até á dor!

Duas lagrimas brilhantes

De teus olhos deslisaram,

Quando nos meus se cravaram

Formosos e scintillantes.

A expressão que eu nelles via,

Devêra ser semelhante

Á que o justo vê no dia

Do seu supremo juizo,

Nos do anjo fulgurante

Que lhe aponta o paraizo!

Como foi que tal encanto

A fatal mão do destino

Para sempre nos quebrou!?

Da noite o sombrio manto,

O teu semblante divino

A meus olhos occultou!

Oh! não foi nesse momento,

Porque inda no firmamento

O lampejo d'uma estrella,

As tuas pallidas faces

De um reflexo illuminou,

E inda um beijo, longo, ardente

Na tua boca innocente

A minha boca estampou!

Oh! não foi!! Depois ainda,

Na mesma noite encantada,

Te vi fulgurante e linda,

De brancas roupas trajada,

No turbilhão delirante

Do baile veloz passar;

Inda ali tanta esperança,

Tanto amor, tanta ventura,

Veiu minh'alma inundar

Inda ouvindo aquella valsa

De enthusiasmo estremecemos,

E desvairados corremos

Ao som da doida cadencia.

Oh! que fogo nesse instante

Nos inflammava a existencia!!

Eu cingia-te anhelante

Entre meus convulsos braços,

E com teus ligeiros passos

Tu mal tocavas o chão!

Aquella doce harmonia

De instante a instante augmentava.

Oh! como então nos battia

Agitado o coração!