Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 84 de 94

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Versos de Bulhão Pato

A Musa

De certo póde.

A MUSA

Nesse caso aproxima-te do lume,

Accende este charuto, e principia.

O POETA

Ha dois annos, um dia, ou mais exacto,

Uma noite em que a lua resvalava

No firmamento azul, em que os modilhos Do inspirado cantor da primavera

D'entre a balseira em flor se desprendiam, Achava-me aspirando a branda aragem

Sentado no portal de uma vivenda

Da modesta apparencia, e collocada

Num sitio encantador. Naquella noite,

De que me hei de lembrar eternamente,

Tinham vindo esperar-me de emboscada Alguns contrabandistas do parnazo,

D'entre os quaes destacava a face lívida

De certo esguio e pesaroso vate

Que te inspira notavel sympathia.

Fugi! elles ficaram declamando

As primeiras estrophes de uma nenia!

Vinha rompendo abril: como já disse,

Sereno estava o ceo, doce a bafagem,

E a rosa, a favorita, a bella noiva,

Por quem o rouxinol desde a alvorada

Solta a voz em prodigios de harmonia,

Corando abria o pudibundo seio

Aos doces carmes do adorado amante.

Passado pouco tempo esta cabeça

Começára a enredar-se em mil chimeras. De repente uma voz sonora e fresca

Chegara ao meu ouvido. Era tão simples, Tão suave, tão meiga a melodia,

Tão infantil a voz! Voltei os olhos,

E descobri um vulto na janella.

Que figura ideal! alta, mas fragil,

Como hastesinha de um arbusto novo.

A innocencia e virtude respiravam

Naquelle rosto candido e formoso.

Numa das mãos firmada a face tímida,

E na outra a madeixa loira escura

Que vinha em pittoresco desalinho

Espargir-se nos hombros de alabastro.

Como o cantor da selva que inspirado

Improvisava no florido bosque,

Cantava ella tambem; ave innocente,

Juntava mais um trilo ao hymno eterno,

Que aos pés de Deus a natureza erguia.

Oh! quão feliz seria quem no mundo

Alcançasse as primicias d'aquella alma!

Lembrei-me de as colher, e decidi-me

A apparecer-lhe no seguinte dia.

Com effeito assim fiz.

Era sol posto:

Cançada de correr pela campina,

Tinha vindo sentar-se pensativa

Nos degraus de uma cruz que se elevava No adro estreito de modesta ermida.

Chegava emfim ess'hora em que saudosa A mente se dilata em magos sonhos;

Hora em que alma absorta em gostos intimos Perde a consciencia do exterior da vida.

Diversas nuvemsinhas esmaltavam

Para o lado do poente o firmamento.

O bronze deu signal d'Ave-Maria. Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios A singela oração; passado instantes,

A pomba estremeceu, mas de alegria.

A viva chamma de amoroso affecto

Brilhou no puro azul d'aquelles olhos,

Quando nos meus attentos se fitaram;

E um sorriso de angelica ternura

Entreabrira os seus labios purpurinos.

Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve,

Que estremeciam apertando as minhas,

E pronunciei mansinho estas palavras:

—«Sim, sou eu, que tu tens visto,

Tanta vez naquelles sonhos

Bellos, candidos, risonhos,

Da tua idade infantil.

És minha. Sou teu. A vida

Para nós vai ser agora

Mais alegre do que a aurora,

Mais florída do que Abril!

Oh! que longas confidencias

Nos esperam nestes prados!

Que dias tão descuidados!

Que instantes de tanto amor!

Buscando ao crescer do dia

Entre o bosque a sombra densa,

Sentindo a alegria immensa

Do sol, do campo e da flor!

És minha: do ceo proveiu

O poder que a ti me prende,

Mas diverso fogo accende

O teu e meu coração:

Tu no mundo és a innocencia,

Eu sou na terra a poesia;

Tu dás-me a tua alegria,

Eu dou-te a minha paixão!

Dou-te as sombras da tristeza

Que acertam sobre teu rosto,

Como as sombras do sol posto

Na rosa agreste do val.

Recebes num meigo abraço

Meu profundo sentimento,

E dás-me o contentamento

Do teu seio virginal.»—

Indisivel prazer brilhou nas faces

Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas Que ancioso proferi, e com ternura

Disse, cravando em mim seus olhos bellos:

—«Orphã de paes, só tenho neste mundo Apenas uma irmã; nós habitamos

Naquella casa que d'aqui se avista

Entre a verdura d'esse val ameno.

Já mil vezes em sonhos encantados

Eu ouvi tua voz, vi tua imagem.

Agora emfim és meu e para sempre.

Não é verdade? dize.»—perguntava

Com extremo, firmando-se ao meu braço.

Os pallidos clarões do astro saudoso

Despontavam no ceo; por entre as ramas A aragem susurrava brandamente,

E o rouxinol occulto nas balseiras

Soltava algumas rapidas volatas,

Experimentando a voz que dentro em pouco Iria improvisar o hymno da noite.

Caminhámos ao longo da alameda

Que terminava em frente da vivenda

Onde Lelia (era este o nome d'ella)

Passára os dias da ditosa infancia.

Á entrada do portal dei de repente

Com a vista no pallido semblante

De uma bella mulher. Cumprimentei-a.

Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre.

—«É Julia, minha irmã»—me disse Lelia. Segundei um rasgado cumprimento,

A que ella respondeu com a gentileza

De uma senhora de elevada classe.

Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço,

E acceitei promptamente este convite,

No que fiz um chapado disparate!

«Tibia luz, temperada para amantes,»

Illuminava uma pequena sala,

Onde o luxo e bom gosto respiravam.

Em primeiro logar é necessario

Que eu te faça um retrato a largos traços (Como agora se diz) da encantadora

E provocante dona d'essa casa,

Era alta, sorriso malicioso,

Boca fresca, e vermelha como a rosa,

(É velha a imagem mas é sempre boa!)

Cabello basto, fino, muito escuro,

Olhos da mesma cor, e quasi sempre

Por doce morbidez meio cerrados.

Quando porém ás vezes dardejavam

Por entre a negra sombra das pestanas

Um só raio da luz que os inflammava...

Ai d'aquelle que ousava descuidado

Mirar de leve essa traidora chamma!

Que te direi do pé pequeno e curvo,

Que na estreita prisão de uma botinha

De setim preto estava clausurado?

Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra A poesia da lua e das estrellas,

Do Tejo de cristal, da mansa brisa,

De tudo o mais que tenho por mil vezes,

Estafado em mau verso e peior prosa,

Para só contemplar os mil encantos,

Que tinha aquelle pé!

E a pobre Lelia,

A meiga apparição que nos meus braços Tinha vindo entregar-se sem receio,

Onde estava? calada e pensativa,

Contemplando o meu rosto, onde subia

O sangue accezo em ondas de desejos.

Em presença d'aquella peccadora,

Esqueceu-me de todo o sentimento

Que me inspirára o anjo de innocencia.

Sou poeta; bem sabes que os poetas

Não são de certo os entes mais constantes! Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo Podera resistir? Se nesse instante

A visses no fauteuil reclinada! O vestido entre roxo e cor de rosa, Apesar da invasão das crinolines, Deixava perceber divinas fórmas.

No cabello uma rosa perfumada,

E no turgido seio, que ondulava

Atravez da finissima cambraia,

Viçoso ramo de singelas flores.

Ella viu a impressão que produzira

No pobre peccador que a contemplava,

E descerrando a boca num sorriso

Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios,

E a eloquencia do olhar disse-me tudo.

Pouco a pouco nas faces desmaiadas

Se accendêra o rubor; nos olhos negros

Scintillou por instantes uma lagrima,

«Precursora de languido deliquio».

Meiga, sonora então, como seria

A voz do archanjo que descesse á terra,

Junto a mim murmurou a voz de Lelia:

—«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio, Á mesma hora, de novo nos veremos;

Vou resar a oração que me ensinára,

Minha mãe quando eu era pequenina.

Vou resal-a por ti!»—Oh! por instincto;

A innocencia fugia do peccado.

Quiz seguil-a tambem, mas por encanto,

Por encanto fatal, senti-me preso

Ao supremo poder d'aquelles olhos

Que nos meus se reviam com ternura.

De novo aquelle pé que me perdera,

Se firmou num pequeno tamborete,

E d'essa vez deixando a descuberto,

Um fragmento de perna, que faria

Morrer de desespero uma andaluza.

Esvaeceu-se então completamente

A meus olhos o anjo da candura,

Das commoções divinas, da virtude,

E achei-me só, perdido, face a face

Ante o demonio das paixões terrestres!

Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo

De desejo e de amor fugir a vida.

Quando a razão voltou, como o murmurio Da fresca viração da primavera,

O sopro perfumado de seus labios