Versos de Bulhão Pato
Capítulo XLIX
Ao ver que só restam espinhos e dor!
Só restam espinhos das pallidas rosas,
A quem pobre artista não ousa pedir
Os loiros frangrantes, as palmas viçosas, Que a fronte de genio só devem cingir!
Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura, Não quiz que durasse tão meiga illusão,
Em paga deixou-me no peito a doçura.
De terna, suave, leal gratidão!
Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma, Sincera tributa nest'hora o dever!
Embora outras palmas morressem,—a palma De gratas memorias não póde morrer!
Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,
Quebrado o encanto da pura illusão,
Que resta ao artista?—espinhos e dores, Saudades! mais nada no seu coração!
Saudades da gloria, da luz, da ventura,
Dos magicos sonhos, presente dos ceos, Saudades que attestam a funda amargura, Que sente ao dizer-vos agora um adeus!
1853.
XLIX