Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 89 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Capítulo XLIX

Ao ver que só restam espinhos e dor!

Só restam espinhos das pallidas rosas,

A quem pobre artista não ousa pedir

Os loiros frangrantes, as palmas viçosas, Que a fronte de genio só devem cingir!

Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura, Não quiz que durasse tão meiga illusão,

Em paga deixou-me no peito a doçura.

De terna, suave, leal gratidão!

Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma, Sincera tributa nest'hora o dever!

Embora outras palmas morressem,—a palma De gratas memorias não póde morrer!

Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,

Quebrado o encanto da pura illusão,

Que resta ao artista?—espinhos e dores, Saudades! mais nada no seu coração!

Saudades da gloria, da luz, da ventura,

Dos magicos sonhos, presente dos ceos, Saudades que attestam a funda amargura, Que sente ao dizer-vos agora um adeus!

1853.

 

XLIX