Versos de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Capítulo 61 de 94

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Versos de Bulhão Pato

Quem Dirá?

 

 

Quem dirá, vendo a expressão

Que brilha no teu olhar,

Que tu não tens coração?

Bem haja a mão tutelar,

Que á beira me suspendeu

Do abismo da perdição!

Que delirio foi o meu

Naquelles tão curtos dias

Que passei ao lado teu?

Oh! como tu respondias

Com o silencio eloquente

Ás palavras que partiam

Do meu coração ardente!

E depois, se num momento

Os labios já não podiam

Expressar o sentimento,

O fogo do meu affecto,

Como o teu olhar inquieto

A minh'alma interrogava

E todo paixão jurava,

Que era meu o teu amor!

Oh! que dias de ventura!...

Nos campos, abria a flor;

Por entre a tenra verdura,

Inda fraca, inda infantil,

Se escutava a voz das aves

Que saudavam abril.

E tu, como ellas, ditosa,

Ás suas notas suaves

Juntavas a voz formosa!

Ah! como eu vivia então!

Como de novo sentia

Rebentar no coração

Essa infinita alegria

Que nos desvaira a razão!

Por quanto tempo durou

O sonho que me encantava?

Breve foi, maldicta a mão

Que d'elle me despertou.

Quando mais certo julgava

Que era emfim minha a ventura,

No momento em que acabava,

De escutar dos labios teus

Aquelle estremoso adeus!

Adeus, que nesse momento

Com a esperança sorria

E tanto me promettia!...

Foi, oh Deus! que de repente,

Uma palavra maldicta,

Fez que eu visse claramente,

Cobrindo minh'alma afflicta

De espessa nuvem sombria!

........................

Quem dirá vendo a expressão

Que brilha no teu olhar,

Que tu não tens coração

Ou tem-lo para enganar?!

Abril de 1859.